As Estações (2025)

Poesia atrás de poesia

título original (ano)
As Estações (2025)
país
Portugal, França, Espanha, Áustria
linguagem
Documentário
duração
82 minutos
direção
Maureen Fazendeiro
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

As Estações busca atribuir lirismo a temas dificilmente retratados com poesia: as escavações arqueológicas, as cartas de pesquisadores durante a Segunda Guerra Mundial, os primeiros inventários megalíticos organizados na região do Alentejo. A diretora Maureen Fazendeiro filma os cálculos dos agrimensores e os equipamentos agrícolas com o encantamento de quem registraria um instante mágico e afetuoso. No caderno de uma senhora da cidade, a etiqueta traz uma escrita à mão: “Poesia atrás de poesia”. Esta poderia ser uma descrição da obra na totalidade.

No caso, o encantamento com o real se torna avesso a qualquer fetiche ou voyeurismo. Quando uma professora leva os pequenos alunos para visitarem grutas com pinturas rupestres, ela descreve os desenhos de animais — que a câmera evita filmar. Os fazendeiros tiram leite da vaca a certa distância da imagem; e mesmo dois partos de animais ocorrem a um afastamento pudico, respeitoso. O espetáculo de fazer real, de mostrar ao espectador “Olha o que eu conseguir captar, ao vivo!” passa longe deste documentário de invenção. A autora prefere o hábito cotidiano aos acontecimentos que veem romper a ordem habitual das coisas.

A cineasta nunca se torna refém do real — muito pelo contrário. Algumas cenas podem soar misteriosas ou herméticas, partindo de uma jornada sem a mínima vontade de se justificar.

Por isso, retrata a chuva sobre o rebanho em plano abertíssimo (quando os animais se assemelham a formigas), e sobrepõe a leitura em alemão das cartas de Georg e Vera Leisner a paisagens simples, comuns, em dias nublados. O som jamais repete a imagem, tampouco a explica. Fazendeiro evoca fatos de oitenta anos atrás somente para especular, junto ao espectador, a respeito do peso do tempo sobre estes espaços — das cavernas de séculos atrás às pequenas cabanas dos pesquisadores; das construções encontradas durante a guerra às geografias abandonadas e depredadas de hoje. Ela busca, de certo modo, filmar o tempo.

Isso implica numa narrativa etérea, contrária à imersão. Inexiste a noção de causa e consequência, ou a cronologia narrativa esperada de documentários explicativos. Paira a impressão de que os fragmentos exibidos poderiam ser remontados em inúmeras ordens — e todas funcionariam dentro do agenciamento bastante livre destes registros. Partindo de elementos concretíssimos (a terra, as grutas, as cartas), cogita-se um modo de fabular, de se projetar neste espaço. Poucos filmes se arriscariam tanto a sonhar diante de um material tão bruto e, literalmente, árido.

Logo, o aspecto inexato das captações, e a abertura ao acaso, impregnam a abordagem de Fazendeiro. Ela permite sujeiras na borda da imagem, além de instantes em que o som vacila. Estar presente se prova mais importante do que fazer bonito. A relação com o real se torna ainda mais porosa conforme As Estações incorpora mitos, lendas e anedotas dos habitantes do Alentejo. Eles mencionam a fábula de Charro, um militante perseguido, torturado e desmembrado pelas forças do governo, além da mulher que seduz os pastores com suas moedas de ouro — neste último caso, representada num segmento abertamente fictício. Posto que os personagens transmitem seus mitos, a cineasta estima ser necessário incorporá-los à natureza.

Em consequência, permite-se também o uso de desenhos, animações e demais manipulações das cartas, transformadas em intertítulos e vinhetas, destinadas a organizar a narrativa. Já o material de arquivo ganha, aparentemente, uma intervenção digital para aplicar (ou reforçar) veios e ranhuras da imagem. Torna-se difícil distinguir os materiais antigos das captações contemporâneas, manipuladas para apresentarem o desgaste típico do arquivo de tempos atrás. Pouco importa: a obra jamais vende uma verdade, nem uma explicação historiográfica. Ela toma seus habitantes, cenários e registros enquanto pontos de partida para erguer uma estrutura livre, orgânica, respondendo a uma lógica própria. Felizmente, a cineasta nunca se torna refém do real — muito pelo contrário.

Assim, algumas cenas podem soar misteriosas ou herméticas, partindo de uma jornada sem a mínima vontade de se justificar. Para onde vai o cientista, com sua cabana de palha transformada em canoa? Que fim tiveram os pesquisadores alemães, depois que voltaram para seu país, ao final da guerra? Como os idosos de Redondo e Igrejinha, que cantam e escrevem poesia, aplicam tamanho lirismo em seu cotidiano? Por que alguns espaços tão preciosos (o casarão das laranjas) chegou a tal nível de depredação? Não saberemos. A experiência do filme equivale a mergulhar num museu de arte sem ler os textos introdutórios, nem a legenda de cada obra. Pretende-se absorver os estímulos em si próprios, enquanto construções estéticas, dispensando uma contextualização social mais ampla.

É possível que o resultado soe vago e lento demais para a maioria dos espectadores — mesmo na sessão para a imprensa, alguns críticos reclamavam desta contemplação letárgica de tempo e espaço. Certo, trata-se de uma proposta que exige um espectador ativo, participando da viagem Portugal adentro, e disposto a mergulhar em ritmo e estímulos tão particulares. Pelo menos, encontramos um cinema de risco, avesso a concessões pedagógicas no intuito de atingir um público mais amplo. A diretora acredita no valor desta abordagem, e no encantamento enxergado pelas pedras, campos e animais de seu país. Em suma, demonstra uma convicção importante enquanto gesto político e cinematográfico.

As Estações (2025)
7
Nota 7/10

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