
As Estações busca atribuir lirismo a temas dificilmente retratados com poesia: as escavações arqueológicas, as cartas de pesquisadores durante a Segunda Guerra Mundial, os primeiros inventários megalíticos organizados na região do Alentejo. A diretora Maureen Fazendeiro filma os cálculos dos agrimensores e os equipamentos agrícolas com o encantamento de quem registraria um instante mágico e afetuoso. No caderno de uma senhora da cidade, a etiqueta traz uma escrita à mão: “Poesia atrás de poesia”. Esta poderia ser uma descrição da obra na totalidade.
No caso, o encantamento com o real se torna avesso a qualquer fetiche ou voyeurismo. Quando uma professora leva os pequenos alunos para visitarem grutas com pinturas rupestres, ela descreve os desenhos de animais — que a câmera evita filmar. Os fazendeiros tiram leite da vaca a certa distância da imagem; e mesmo dois partos de animais ocorrem a um afastamento pudico, respeitoso. O espetáculo de fazer real, de mostrar ao espectador “Olha o que eu conseguir captar, ao vivo!” passa longe deste documentário de invenção. A autora prefere o hábito cotidiano aos acontecimentos que veem romper a ordem habitual das coisas.
A cineasta nunca se torna refém do real — muito pelo contrário. Algumas cenas podem soar misteriosas ou herméticas, partindo de uma jornada sem a mínima vontade de se justificar.
Por isso, retrata a chuva sobre o rebanho em plano abertíssimo (quando os animais se assemelham a formigas), e sobrepõe a leitura em alemão das cartas de Georg e Vera Leisner a paisagens simples, comuns, em dias nublados. O som jamais repete a imagem, tampouco a explica. Fazendeiro evoca fatos de oitenta anos atrás somente para especular, junto ao espectador, a respeito do peso do tempo sobre estes espaços — das cavernas de séculos atrás às pequenas cabanas dos pesquisadores; das construções encontradas durante a guerra às geografias abandonadas e depredadas de hoje. Ela busca, de certo modo, filmar o tempo.
Isso implica numa narrativa etérea, contrária à imersão. Inexiste a noção de causa e consequência, ou a cronologia narrativa esperada de documentários explicativos. Paira a impressão de que os fragmentos exibidos poderiam ser remontados em inúmeras ordens — e todas funcionariam dentro do agenciamento bastante livre destes registros. Partindo de elementos concretíssimos (a terra, as grutas, as cartas), cogita-se um modo de fabular, de se projetar neste espaço. Poucos filmes se arriscariam tanto a sonhar diante de um material tão bruto e, literalmente, árido.
Logo, o aspecto inexato das captações, e a abertura ao acaso, impregnam a abordagem de Fazendeiro. Ela permite sujeiras na borda da imagem, além de instantes em que o som vacila. Estar presente se prova mais importante do que fazer bonito. A relação com o real se torna ainda mais porosa conforme As Estações incorpora mitos, lendas e anedotas dos habitantes do Alentejo. Eles mencionam a fábula de Charro, um militante perseguido, torturado e desmembrado pelas forças do governo, além da mulher que seduz os pastores com suas moedas de ouro — neste último caso, representada num segmento abertamente fictício. Posto que os personagens transmitem seus mitos, a cineasta estima ser necessário incorporá-los à natureza.
Em consequência, permite-se também o uso de desenhos, animações e demais manipulações das cartas, transformadas em intertítulos e vinhetas, destinadas a organizar a narrativa. Já o material de arquivo ganha, aparentemente, uma intervenção digital para aplicar (ou reforçar) veios e ranhuras da imagem. Torna-se difícil distinguir os materiais antigos das captações contemporâneas, manipuladas para apresentarem o desgaste típico do arquivo de tempos atrás. Pouco importa: a obra jamais vende uma verdade, nem uma explicação historiográfica. Ela toma seus habitantes, cenários e registros enquanto pontos de partida para erguer uma estrutura livre, orgânica, respondendo a uma lógica própria. Felizmente, a cineasta nunca se torna refém do real — muito pelo contrário.


Assim, algumas cenas podem soar misteriosas ou herméticas, partindo de uma jornada sem a mínima vontade de se justificar. Para onde vai o cientista, com sua cabana de palha transformada em canoa? Que fim tiveram os pesquisadores alemães, depois que voltaram para seu país, ao final da guerra? Como os idosos de Redondo e Igrejinha, que cantam e escrevem poesia, aplicam tamanho lirismo em seu cotidiano? Por que alguns espaços tão preciosos (o casarão das laranjas) chegou a tal nível de depredação? Não saberemos. A experiência do filme equivale a mergulhar num museu de arte sem ler os textos introdutórios, nem a legenda de cada obra. Pretende-se absorver os estímulos em si próprios, enquanto construções estéticas, dispensando uma contextualização social mais ampla.
É possível que o resultado soe vago e lento demais para a maioria dos espectadores — mesmo na sessão para a imprensa, alguns críticos reclamavam desta contemplação letárgica de tempo e espaço. Certo, trata-se de uma proposta que exige um espectador ativo, participando da viagem Portugal adentro, e disposto a mergulhar em ritmo e estímulos tão particulares. Pelo menos, encontramos um cinema de risco, avesso a concessões pedagógicas no intuito de atingir um público mais amplo. A diretora acredita no valor desta abordagem, e no encantamento enxergado pelas pedras, campos e animais de seu país. Em suma, demonstra uma convicção importante enquanto gesto político e cinematográfico.




