A Multidão (2025)

A política da festa

título original (ano)
Jama’at (2025)
país
Irã
gênero
Drama
duração
70 minutos
direção
Sahand Kabiri
elenco
Keyvan Mohammadi, Razieh Mansouri, Shoja Giahi, Baset Rezaei, Rambod Motallebi, Dorsa Shirazi, Javid Ghaem Maghami
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

Os jovens de A Multidão estão preocupados. Eles acabam de perder um amigo próximo, vítima de um incêndio acidental. Temem pela abordagem da polícia em suas casas. Sofrem com os maus-tratos de maridos e com a privação de liberdade na casa dos pais. Enquanto isso, participam de protestos nas ruas para reclamar da falta de recursos básicos, que deveriam ser providenciados pelo governo. Em paralelo, evitam tomar bebidas alcoólicas desde que a contaminação por metanol provocou mortes e deixou alguns deles cegos — num paralelo estranhamente próximo à situação brasileira.

No entanto, nenhum destes conflitos se materializa em imagens. O diretor Sahand Kabiri não demonstra o menor interesse em transformar seu longa-metragem de estreia num lamento dos dilemas iranianos, visando uma denúncia aos olhares internacionais. (De fato, há projetos em excesso que seguem pelo caminho do realismo social). Embora os conflitos nacionais permeiem a totalidade da narrativa, eles se encontram em segundo plano. O roteiro prefere se concentrar no único dia em que, reunidos, estes jovens progressistas, livres e queer decidem fazer uma grande festa para comemorar o aniversário de um deles (e sua partida próxima). Por isso, limpam um gigantesco galpão, chamam um DJ e convidam mais de cem amigos para festejar.

A Multidão celebra o coletivo, as diferenças, e a possibilidade de união diante de adversidades. Existe um aspecto catártico neste evento.

Mas isso seria uma resposta política? Ora, face a tantos grupos conservadores que sempre tentaram impedir minorias de ocupar espaços públicos, a reunião de meninos que pintam as unhas e namoram entre si, não se portando segundo as regras religiosas, constitui, sim, um gesto fundamental de afronta. (As Paradas de Orgulho de cada país e cidade que o digam). Existe um caráter libertador no simples gesto de se reunir e celebrar a vida — à sua maneira. Por isso, em resposta à parcela dos convidados que reage negativamente à ideia de uma festa (pouco tempo após a morte acidental de Tondar), eles explicam que, pelo contrário, esta seria uma bela maneira de honrá-lo. O olhar da direção certamente se coloca ao lado dos protagonistas.

Logo, a oposição às normas ocorre de modo simbólico. Hamed (Keyvan Mohammadi) e Raman são claramente namorados (eles vivem juntos, trocam carinhos e se chamam de “amor”), embora a direção preserve a mínima ambiguidade necessária para escapar à censura. Poucos filmes registrariam o corpo masculino com tamanha sensualidade como na extensa cena de Hamed praticando pole dance em trajes curtos. Adiante, ele confronta o irmão mais velho, no intuito de usar o galpão abandonado (uma herança do pai) como sede da festa. Em consequência, a oposição ao patriarcado se desloca ao pequeno núcleo familiar. O cineasta se mostra muito esperto em condensar metonimicamente a macroestrutura em pequenas relações de gênero e geração.

Assim, o resultado é um longa-metragem simples, de curtíssima duração — tão sucinto e agradável que deixa a vontade para presenciar a continuidade das ações. Afinal, a narrativa se interrompe quando a explosão de emoções e estímulos (estéticos, inclusive) estava prestes a se concretizar. No entanto, o roteiro jamais perde o foco dos preparativos da festa. Neste período, apresenta jovens verossímeis, afetuosos, em conversas com aparência de improviso. Há tamanha naturalidade nas falas, e despojamento nos corpos, que os participantes soam como uma trupe teatral, preparando o palco para o ensaio de uma nova apresentação. A câmera se encontra, de certo modo, na coxia, em aspecto quase documental, observando o grupo com seus celulares, suas provocações, suas anedotas (inclusive a respeito do fatídico 7×1 contra o Brasil na Copa do Mundo).

Esteticamente, Kabiri mostra-se tão seguro quanto comedido. Ele e o diretor de fotografia Hamed Hosseini Sangari oferecem lentíssimos zoom-ins rumo no rosto destes rapazes, conforme compartilham suas dores e oferecem apoio uns aos outros. Entretanto, evitam os close-ups diretos, preferindo enxergá-los enquanto coletividade indistinta, com diversas pessoas por enquadramento. Os cenários se encontram em perpétua transformação: o galpão se torna festa, a casa da família passa por reformas, e o apartamento com Raman muda com sua partida inerente. Todos os espaços ganham contornos inéditos, de modo que a câmera se contenta em registrar estes não-limites (caso de portões e cercas, incapazes de conter as transgressões). Estes elementos ilustram a tentativa frustrada do Estado de fundir os espaços público e privado. Dentro de seu pequeno apartamento funcional (que serve como domicílio e trabalho), o irmão de Hamed chama a festa de “puteiro”, para desqualificá-la. A resposta dos participantes vem em coletividade.

Por fim, A Multidão celebra o coletivo, as diferenças, e a possibilidade de união diante de adversidades. É certo que, no vídeo das crianças, descoberto no celular, escutam-se palavras de ordem: “Abaixo os Estados Unidos!”. Os problemas estão ali, logo ao lado, no espaço propositadamente cortado pelo enquadramento. Caso os carros, em fila para a festa, demorem tempo demais na rua, a polícia os encontrará, e colocará fim à iniciativa. Enquanto isso não acontece, eles vivem intensamente, respeitando-se como são. Existe um aspecto catártico, distópico, neste evento tão espetacular quanto melancólico, proposto por todos, de maneira horizontal, sem lideranças. A festa se sustenta precisamente por escutar a todos, e se apoiar na pluralidade do grupo. Estamos falando, afinal, de uma organização política. 

A Multidão (2025)
7
Nota 7/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.