
BLKNWS: Termos e Condições (leia-se: “Black News”) propõe uma viagem por estilos e linguagens radicalmente distintos entre si. Ao longo de duas horas, experimenta desde o documentário tradicional (com exploração de material de arquivo) até encenações fictícias. Explora a ficção científica por meio de uma nave espacial, e imagina uma distopia onde alguns países são reinventados (caso da Nova Jamaica). Relembra os navios negreiros, mas também os navios de carga contemporâneo, e os cruzeiros turísticos conduzindo pessoas negras entre a África e as Américas. Valoriza o conhecimento das enciclopédias impressas, mas também o impacto cultural dos memes de cachorros e gatos.
A lista continua. O diretor Kahlil Joseph (mais conhecido pelos vídeos conceituais de Lemonade, da Beyoncé) dirige-se ao espectador com letreiros em primeira pessoa (“Eu sei o que você está pensando, mas isso não é um documentário”), além de construções futuristas, instalações de galerias, performances, happenings. Ele aproveita uma fala de Agnès Varda, contrária à segmentação do audiovisual em categorias e rótulos, para se apropriar de um slogan que gostaria de aplicar à sua própria obra: “É cinema”. Simples assim. Logo, catalogar a incontável quantidade de registros resultaria numa tarefa inútil. Aqui, a colagem se torna meio e finalidade.
BLKNWS combina o cinema experimental com uma vocação popular e acessível. Articulações como estas soam importantíssimas quando se pensa num cinema contemporâneo capaz de conversar com a estética das novas gerações.
Talvez a experiência se tornasse caótica caso a montagem simplesmente colasse os fragmentos a esmo, como tantos vídeos experimentais gostam de fazer — em nome do direito à liberdade criativa. Curiosamente, a edição a oito mãos (por Luke Lynch, Paul Rogers, Kahlil Joseph e Parallax) transita com naturalidade entre linguagens díspares, e discussões bastante diversas, da percepção do racismo à simbologia do navio negreiro; do apagamento de pessoas negras dos livros de história à repatriação de objetos preciosos africanos, roubados pelos europeus para a exibição em grandes museus. A raça certamente costura o discurso, mesmo que, no interior deste amplo tema, o autor se permita passear bastante.
Por isso, o resultado ainda soa como uma conversa, algo relativamente próximo do espectador em termos de mensagem e discurso. Ao contrário de tantas obras provocadoras, que adoram deixar o espectador de fora da narrativa, este filme se esforça de fato em intercalar conceitos filosóficos e antropológicos com brincadeiras e exemplos práticos. A estética do videoclipe encontra-se no horizonte, mas, para além disso, pode-se falar numa linguagem própria aos tempos de Internet. Joseph embute a velocidade, mas também a nossa capacidade algorítmica de saltar entre estilos e tópicos de aparência antagônica. Dispensamos, em nossa época, a procura por esgotar o tema — é melhor abordar um amplo painel, em profundidade razoável, do que nos concentrar obsessivamente num subtema específico.
Mesmo assim, em meio à pretensa dispersão dos sentidos, ainda se encontra um esqueleto minimamente clássico-narrativo. BLKNWS se inicia e se encerra com a premissa da Enciclopédia Africana, projeto monumental de W. E. B. Du Bois, visando mergulhar em verbetes capazes de reunir toda a experiência africana e afro-americana. É lógico que, observando com certo distanciamento, o cineasta detecta lacunas fundamentais — a respeito de mulheres negras pioneiras da filosofia, por exemplo —, no entanto, ele decide oferecer uma espécie de acompanhamento visual para tal iniciativa. Se outros pensadores tentaram refletir a negritude e a racialidade em sua globalidade, por que o cinema não poderia se prestar a um exercício semelhante?
Seria tentador apontar falhas neste discurso, evidentemente amplo e ambicioso. Ainda mais justo é reconhecer a impressionante gama de temas e questões que se cruzam no interior de uma narrativa nada didática, muito menos linear e cronológica. Joseph prefere utilizar símbolos fictícios de maneira recorrente, para ajudá-lo a agrupar certas temáticas e criar uma espécie de coesão estrutural ao longa-metragem. A viagem pela nave-navio futurista retorna com frequência, assim como as provocações — eróticas, inclusive — das duas mulheres (uma historiadora-socióloga, a outra, oceanógrafa) cujas conversas dirigem as falas rumo a um percurso desejado.
Já o signo BLKNWS estampa as telas insistentemente, na forma de uma marca, ou signo recorrente. O diretor faz desta sigla, que já batizou outros projetos seus (desde jornalísticos até videoarte) um norte para toda a sua produção de arte-conteúdo voltada ao cinema e às redes. Ele inclusive ironiza as conclusões de suas próprias sequências, reduzindo as discussões a slogans tragicômicos, acompanhados de “Esta mensagem foi trazida a você por BLKNWS”. Desta maneira, ele se afasta, através do humor jocoso, tanto da obrigação informativa das reportagens quanto da necessidade de transmitir uma mensagem pedagógica ao final. O autor elabora diversas perguntas, no entanto, recusa-se a oferecer respostas ou soluções.
Para uma obra de tamanho esmero visual, desde as construções concretas (exposições a respeito do conceito do navio negreiro) até elaborações digitais em AI, surpreende o emprego de imagens tão escuras, voluntariamente. Em diversas conversas, o diretor de fotografia Bradford Young se contenta em transformar os atores e atrizes em meras silhuetas, distinguindo-se à pena da escuridão ao redor. Isso ocorre mesmo em restaurantes, durante os encontros diurnos. Investe-se, talvez, num desejo de universalizar estas pessoas, como se representassem indivíduos negros na totalidade, ao invés de subjetividades particulares.


Rumo à conclusão, o roteiro aponta para algumas teses interessantes. Sugere, por exemplo, que a experiência do racismo produz um perpétuo sentimento de não-pertencimento por parte de pessoas negras, o que dificulta a formação de laços sociais. Minimiza, por extensão, a necessidade de retornar à África para se sentirem negros de fato, ou dignos de ocupar o território onde vivem. Falando a partir tanto de Gana quanto dos Estados Unidos, o discurso prega um sentimento compartilhado da experiência da negritude, evitando equipará-la a outras vivências não-brancas (de hispânicos ou asiáticos, por exemplo).
BLKNWS chega, inclusive, a interferir de maneira rebelde no trabalho de outros cineastas tidos como engajados, porém, distantes de uma representação negra em seus filmes. Joseph se apropria dos filmes de Jean-Luc Godard para legendar as falas cotidianas de Anna Karina e embutir legendas sem a menor relação com o som, nas quais sua personagem sugere à colega almoçar num restaurante nigeriano. O cineasta compreende que existem inúmeros níveis de interferência, simbólicas e concretas, no pacto da branquitude. Ele tateia este terreno de maneira tão voraz quanto respeitosa, combinando o dito cinema experimental com uma vocação surpreendentemente popular e acessível. Articulações como estas soam importantíssimas quando se pensa num cinema contemporâneo capaz de conversar com a estética das novas gerações, ao invés de rechaçá-la.




