
Um grande ponto de virada está chegando para avó, mãe e filha, em simultâneo. Ao invés de se concentrar no cotidiano de três gerações de mulheres, este drama decide representar aquele momento excepcional em que a vida das três está prestes a mudar significativamente. Dolores (Carla Ribas) decide vender sua casa e abrir um cassino; Deborah (Naruna Costa) espera a saída do namorado da prisão, para partirem juntos ao Paraguai, e a jovem Duda (Ariane Aparecida) escolhe se mudar para os Estados Unidos, onde deve continuar com o trabalho em clubes de tiro.
De certo modo, elas estão prontas para uma fuga de sua rotina enfadonha de classe média-baixa. Entretanto, é claro que os planos darão errado. Os diretores Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar, partindo do projeto do cineasta Chico Teixeira (falecido em 2019), filmam estes sonhos exatamente como tal — meros sonhos. Uma vez apresentado o vício de Dolores nos jogo de azar, compreendemos que a empreitada comercial enfrentará obstáculos. Devido ao silêncio do namorado Luís, pressentimos que a união pós-cárcere terá problemas. Face à insistência do chefe de Duda para que a jovem guarde consigo armas ilegais, antecipamos os conflitos decorrentes do esquema. Estas mulheres apostam em planos que, aos olhos do espectador, mostram-se evidentemente impraticáveis.
Compreende-se que Gomes e Escobar tenham desenvolvido um drama simples, de mínimas invenções autorais. O intuito parece ter sido honrar o projeto de Chico Teixeira.
Portanto, a narrativa consiste numa jornada de ascensão e queda, ou ainda, um retorno ao mundo possível após a crença imprudente num futuro redentor. Tal qual os contos de fadas, o filme pune suas queridas protagonistas pela ingenuidade de acreditarem em transformações milagrosas dentro de um sistema opressor. Afinal, todas elas foram, e ainda são, abusadas e enganadas por homens que as deixam em situação de vulnerabilidade. As viagens e os negócios prometem uma autonomia de difícil concretização para mulheres da periferia. Diante da repetição destes fracassos pessoais, percebe-se certo tom pessimista na fábula: geração após geração, a situação destas mulheres continua desfavorável. Nada, nas dificuldades enfrentadas por Duda, nos permite pensar que a vida para elas melhorou desde os desafios experimentados pela avó.
É óbvio que os criadores manifestam profundo carinho por suas personagens falhas, porém aguerridas. O mesmo vale para o trio de atrizes, que encarna as protagonistas com respeito e naturalidade. No entanto, o ponto de vista se assemelha a uma lamentação, no sentido de testemunhar a derrocada iminente de pessoas que se gostaria de ver triunfar. Dolores, Deborah e Duda remetem às heroínas flaubertianas, vítimas de suas próprias condições, e errando profundamente cada vez que tentam acertar. Elas são proativas, corajosas, ainda que inocentes demais em suas crenças e métodos. A sociedade não tarda a puni-las exemplarmente por sonharem num mundo de cínicos. Elas são as Félicité e Emma Bovary dos nossos tempos — inclusive, a frase “Acho que eu nasci para ser triste” dialogaria bem com o universo do escritor francês.
Dolores abraça os moldes de um cinema profundamente clássico. O roteiro parte de explicações didáticas, oriundas das próprias personagens: “Esta é minha festa. Sou dona de mim, e estou pronta para a minha aventura”, compartilha a heroína. Adiante, ela confessa: “Já fiz o luto”, pontuando ao espectador a morte do marido. “Mas faz tão pouco tempo que você parou de jogar!”, questiona a amiga Marlene (Gilda Nomacce), transmitindo ao espectador o histórico de dependência em jogos. Tudo o que precisa ser esclarecido, em termos de informações, decorre dos diálogos, com clareza e prontidão. Não resta ao espectador nenhuma adivinhação, ou dedução a partir de subentendidos. As condições estão claras e postas.
Além disso, cada cena possui a função de avançar a trama: nenhum fragmento contemplativo, ou de invenção estético-narrativa, se introduz neste percurso funcional. A costureira recebe o dinheiro da venda da casa e, imediatamente, vai ao cassino. Já sabemos o que acontecerá nesta noite — e que ocorre, de fato, na cena seguinte. Deborah aguarda o namorado e, pelo enquadramento aberto e solitário, intuímos que o homem não vem. Um diálogo (sempre ele) nos indica que o namorado sumiu, e ainda levou o dinheiro dela. As cenas constituem núcleos narrativos próprios, com começo, meio e fim, encerrando-se após o cumprimento de seus objetivos.
Em paralelo, a montagem jamais investe em qualquer fragmentação dos sentidos, ou aproximação improváveis das cenas. Já a direção de fotografia opta por muitos close-ups nos rostos das atrizes, limitando a profundidade de campo, e investindo nos acadêmicos planos e contraplanos durante as conversas. Até mesmo os espaços se provam eficazes, convenientes, pensados para elas — e o realismo que se contente com o pano de fundo, para que Dolores possa andar sozinha numa rua vazia, que a fuga de Duda percorra somente vias inabitadas, e que o ônibus conduzindo as protagonistas ao Paraguai esteja livre, permitindo às duas brilharem sozinhas. O mundo constitui um espaço onde somente as três existem — algo representado, alegoricamente, pelas luzes apagando-se nos bingos, até se focarem unicamente em Dolores.
Compreende-se que Gomes e Escobar tenham desenvolvido um drama simples, de mínimas invenções autorais. Afinal, trabalhavam a partir do material criado pelo amigo Teixeira, que pretendia finalizar sua trilogia dos afetos (iniciada por A Casa de Alice, 2007, e Ausência, 2014). Por isso, percebe-se o pudor em se apropriar de uma iniciativa tão pessoal de terceiros. O intuito parece ter sido honrar o projeto de Chico Teixeira, tornando-o o mais próximo possível do que o colega havia imaginado para si, ao invés de modificá-lo até se encaixar no estilo mais poético de ambos os cineastas. A condução humilde, digamos, corresponde a uma forma de homenagem e de respeito. Os diretores e as atrizes materializam o filme enquanto presente a Chico, não para si próprios.


Por isso, alguns deslizes serão desconsiderados enquanto problemas secundários. O desfecho soa ainda mais sonhador do que as próprias personagens teriam inventado para elas próprias, afundando-as num devaneio de felicidade, ao invés de uma perspectiva plausível de reinvenção de si. Entre a ilusão e o real, o desfecho opta pela ilusão. O vício de Dolores também estabeleceria bela relação com nossos anos de dependência e ruína financeira de brasileiros devido às Bets — porém, esta conexão nunca é proposta pelo drama, concebido antes da febre dos jogos online. Dolores contenta-se em ser um drama sério, terno, apaixonado por suas mulheres e disposto a acompanhá-las a cada tropeço.
Pode-se falar em um cinema cúmplice, menos intervencionista do que contemplativo. E como reclamar da bela oportunidade de presenciar Carla Ribas, Naruna Costa e Ariane Aparecida, em ótima forma, com a câmera colada ao rosto, transmitindo uma infinidade de sentimentos que atravessam suas personagens? O longa-metragem ainda aposta nesta identificação clássica, e profunda, do cinema com os rostos, pensando o drama enquanto uma somatória de conflitos, fomentando o jogo cênico entre grandes atores (ou atrizes, no caso). Neste sentido, obtém êxito ao apostar em formas seguras, avessas a uma época de filme cínicos, pop, fragmentados. Com sensibilidade, Dolores nos conduz a um cinema de antigamente.




