Dolores (2025)

Um coração simples

título original (ano)
Dolores (2025)
país
Brasil
gênero
Drama
duração
84 minutos
direção
Marcelo Gomes, Maria Clara Escobar
elenco
Carla Ribas, Naruna Costa, Ariane Aparecida, Gilda Nomacce, Zezé Motta, Tuna Dwek
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

Um grande ponto de virada está chegando para avó, mãe e filha, em simultâneo. Ao invés de se concentrar no cotidiano de três gerações de mulheres, este drama decide representar aquele momento excepcional em que a vida das três está prestes a mudar significativamente. Dolores (Carla Ribas) decide vender sua casa e abrir um cassino; Deborah (Naruna Costa) espera a saída do namorado da prisão, para partirem juntos ao Paraguai, e a jovem Duda (Ariane Aparecida) escolhe se mudar para os Estados Unidos, onde deve continuar com o trabalho em clubes de tiro. 

De certo modo, elas estão prontas para uma fuga de sua rotina enfadonha de classe média-baixa. Entretanto, é claro que os planos darão errado. Os diretores Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar, partindo do projeto do cineasta Chico Teixeira (falecido em 2019), filmam estes sonhos exatamente como tal — meros sonhos. Uma vez apresentado o vício de Dolores nos jogo de azar, compreendemos que a empreitada comercial enfrentará obstáculos. Devido ao silêncio do namorado Luís, pressentimos que a união pós-cárcere terá problemas. Face à insistência do chefe de Duda para que a jovem guarde consigo armas ilegais, antecipamos os conflitos decorrentes do esquema. Estas mulheres apostam em planos que, aos olhos do espectador, mostram-se evidentemente impraticáveis.

Compreende-se que Gomes e Escobar tenham desenvolvido um drama simples, de mínimas invenções autorais. O intuito parece ter sido honrar o projeto de Chico Teixeira.

Portanto, a narrativa consiste numa jornada de ascensão e queda, ou ainda, um retorno ao mundo possível após a crença imprudente num futuro redentor. Tal qual os contos de fadas, o filme pune suas queridas protagonistas pela ingenuidade de acreditarem em transformações milagrosas dentro de um sistema opressor. Afinal, todas elas foram, e ainda são, abusadas e enganadas por homens que as deixam em situação de vulnerabilidade. As viagens e os negócios prometem uma autonomia de difícil concretização para mulheres da periferia. Diante da repetição destes fracassos pessoais, percebe-se certo tom pessimista na fábula: geração após geração, a situação destas mulheres continua desfavorável. Nada, nas dificuldades enfrentadas por Duda, nos permite pensar que a vida para elas melhorou desde os desafios experimentados pela avó.

É óbvio que os criadores manifestam profundo carinho por suas personagens falhas, porém aguerridas. O mesmo vale para o trio de atrizes, que encarna as protagonistas com respeito e naturalidade. No entanto, o ponto de vista se assemelha a uma lamentação, no sentido de testemunhar a derrocada iminente de pessoas que se gostaria de ver triunfar. Dolores, Deborah e Duda remetem às heroínas flaubertianas, vítimas de suas próprias condições, e errando profundamente cada vez que tentam acertar. Elas são proativas, corajosas, ainda que inocentes demais em suas crenças e métodos. A sociedade não tarda a puni-las exemplarmente por sonharem num mundo de cínicos. Elas são as Félicité e Emma Bovary dos nossos tempos — inclusive, a frase “Acho que eu nasci para ser triste” dialogaria bem com o universo do escritor francês.

Dolores abraça os moldes de um cinema profundamente clássico. O roteiro parte de explicações didáticas, oriundas das próprias personagens: “Esta é minha festa. Sou dona de mim, e estou pronta para a minha aventura”, compartilha a heroína. Adiante, ela confessa: “Já fiz o luto”, pontuando ao espectador a morte do marido. “Mas faz tão pouco tempo que você parou de jogar!”, questiona a amiga Marlene (Gilda Nomacce), transmitindo ao espectador o histórico de dependência em jogos. Tudo o que precisa ser esclarecido, em termos de informações, decorre dos diálogos, com clareza e prontidão. Não resta ao espectador nenhuma adivinhação, ou dedução a partir de subentendidos. As condições estão claras e postas.

Além disso, cada cena possui a função de avançar a trama: nenhum fragmento contemplativo, ou de invenção estético-narrativa, se introduz neste percurso funcional. A costureira recebe o dinheiro da venda da casa e, imediatamente, vai ao cassino. Já sabemos o que acontecerá nesta noite — e que ocorre, de fato, na cena seguinte. Deborah aguarda o namorado e, pelo enquadramento aberto e solitário, intuímos que o homem não vem. Um diálogo (sempre ele) nos indica que o namorado sumiu, e ainda levou o dinheiro dela. As cenas constituem núcleos narrativos próprios, com começo, meio e fim, encerrando-se após o cumprimento de seus objetivos. 

Em paralelo, a montagem jamais investe em qualquer fragmentação dos sentidos, ou aproximação improváveis das cenas. Já a direção de fotografia opta por muitos close-ups nos rostos das atrizes, limitando a profundidade de campo, e investindo nos acadêmicos planos e contraplanos durante as conversas. Até mesmo os espaços se provam eficazes, convenientes, pensados para elas — e o realismo que se contente com o pano de fundo, para que Dolores possa andar sozinha numa rua vazia, que a fuga de Duda percorra somente vias inabitadas, e que o ônibus conduzindo as protagonistas ao Paraguai esteja livre, permitindo às duas brilharem sozinhas. O mundo constitui um espaço onde somente as três existem — algo representado, alegoricamente, pelas luzes apagando-se nos bingos, até se focarem unicamente em Dolores.

Compreende-se que Gomes e Escobar tenham desenvolvido um drama simples, de mínimas invenções autorais. Afinal, trabalhavam a partir do material criado pelo amigo Teixeira, que pretendia finalizar sua trilogia dos afetos (iniciada por A Casa de Alice, 2007, e Ausência, 2014). Por isso, percebe-se o pudor em se apropriar de uma iniciativa tão pessoal de terceiros. O intuito parece ter sido honrar o projeto de Chico Teixeira, tornando-o o mais próximo possível do que o colega havia imaginado para si, ao invés de modificá-lo até se encaixar no estilo mais poético de ambos os cineastas. A condução humilde, digamos, corresponde a uma forma de homenagem e de respeito. Os diretores e as atrizes materializam o filme enquanto presente a Chico, não para si próprios.

Por isso, alguns deslizes serão desconsiderados enquanto problemas secundários. O desfecho soa ainda mais sonhador do que as próprias personagens teriam inventado para elas próprias, afundando-as num devaneio de felicidade, ao invés de uma perspectiva plausível de reinvenção de si. Entre a ilusão e o real, o desfecho opta pela ilusão. O vício de Dolores também estabeleceria bela relação com nossos anos de dependência e ruína financeira de brasileiros devido às Bets — porém, esta conexão nunca é proposta pelo drama, concebido antes da febre dos jogos online. Dolores contenta-se em ser um drama sério, terno, apaixonado por suas mulheres e disposto a acompanhá-las a cada tropeço. 

Pode-se falar em um cinema cúmplice, menos intervencionista do que contemplativo. E como reclamar da bela oportunidade de presenciar Carla Ribas, Naruna Costa e Ariane Aparecida, em ótima forma, com a câmera colada ao rosto, transmitindo uma infinidade de sentimentos que atravessam suas personagens? O longa-metragem ainda aposta nesta identificação clássica, e profunda, do cinema com os rostos, pensando o drama enquanto uma somatória de conflitos, fomentando o jogo cênico entre grandes atores (ou atrizes, no caso). Neste sentido, obtém êxito ao apostar em formas seguras, avessas a uma época de filme cínicos, pop, fragmentados. Com sensibilidade, Dolores nos conduz a um cinema de antigamente.

Dolores (2025)
7
Nota 7/10

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