Malaika (2025)

Certa delicadeza

título original (ano)
Malaika (2025)
país
Brasil
gênero
Drama
duração
André Morais
elenco
Vitória Bianco, Norma Góes, Joyce Barbosa, Ingrid Trigueiro, Margarida Santos, Ubiratan de Assis
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

Este longa-metragem parte de uma busca ostensiva pela delicadeza. Ao retratar o cotidiano de uma garota albina, abraça uma cartilha do cinema sensorial, disposto a trocar palavras por signos e metáforas. Por isso, Malaika (Vitória Bianca) tem diversos planos centrados em seu rosto silencioso, além dos contornos de sua pele, suas mãos, seus pés. A câmera a contempla longamente passando protetor solar, além do protetor labial. Para representar o perigo ao seu redor e, depois, a ferocidade inerente à própria garota, opta pela materialização de um lobo que a acompanha.

Neste sentido, pode-se falar de um trabalho performático de atuação, mais do que de uma composição clássica. A atriz, presente na integralidade das cenas, posa nas partes específicas do enquadramento, olha para onde a luz lhe favorece, senta-se no local onde o rosto será refletido no espelho à sua frente. O diretor André Morais compreende, por esta ode à beleza e presença da menina, uma forma de homenagem em si. Ele almeja a imponência e nobreza de uma estátua como forma de valorizar cada imagem da menina. O humanismo, neste caso, passa por uma forma de plasticidade e admiração física.

O longa-metragem busca a delicadeza. Mas a principal crítica que se possa fazer ao projeto diz respeito à flagrante falta de ritmo.

Em termos de dinâmica, o drama soa lento, arrastado. A principal crítica que se possa fazer ao projeto diz respeito à flagrante falta de ritmo. Os personagens se deslocam com lentidão, para ajudar a tarefa da direção de fotografia, que pretende captar cada movimento em planos próximos. Assim, a professora entra na sala de aula em câmera lenta, e pega seu apagador em velocidade reduzida. Adiante, a mãe de Malaika lhe oferece um retrato e, novamente, a câmera desliza com parcimônia para seguir a mão e o objeto pelos ares. Até mesmo os movimentos da garota, ao subir a escada da escola, resultam de-sa-ce-le-ra-dos, como se tal esforço permitisse admirar ainda melhor os detalhes, fruir ainda mais a natureza. Quando a garota se vê excluída na sala de aula, a imagem a admira, em sua invisibilidade social, durante um plano longuíssimo. A vagareza se torna meio e finalidade.

Este aspecto de um tempo suspenso nos remete aos sonhos, em conjunção com o teor de fábula decorrente da alusão a florestas e lobos. Malaika se abaixa para lavar o rosto na pia, e quando levanta a cabeça, a palavra “Morte” a assombra no espelho. Ora, quando escreveram isso imediatamente sobre seu corpo, sem que ela percebesse? Por que retratar um bullying caricatural e violento pela perspectiva dos agressores, ignorando as expressões no rosto da vítima? Por que segurar durante tempo os risos estereotipados da burguesia agressiva, durante a festa, ou a expressão profundamente sisuda da mãe, conforme escuta ordens da patroa? Por que Malaika volta da escola e encara a mãe como se estivessem brigadas? 

A direção guarda seus mistérios, assim como o roteiro, no que diz respeito às intenções de cada cena ou conflito. Assim, o símbolo dos lobos, o martírio da mãe na conclusão, e instantes como o quase-beijo na colega soam fortuitos, ou pelo, menos, insuficientemente trabalhados. Mas nada incomoda tanto quanto o tratamento da identidade de gênero da protagonista. A mãe, patroa e diretora da escola a chamam de garoto, embora a câmera pareça filmá-la em sua aparente feminilidade. Como a própria menina se entende? Estamos falando de uma alusão (discreta, quase envergonhada) à transexualidade? Por que a garota, tão eloquente (“Mas eu quero falar. Eu preciso falar!”), nunca dá a entender como ela mesmo se compreende, em termos de sexualidade e gênero? 

Trata-se de um tema complexo demais para ser meramente aludido, enquanto ambiguidade poética, etérea, lânguida. As questões de sexualidade, gênero e raça atravessam o longa-metragem sem perfurá-lo de fato. Pelo menos, elas se fazem bastante claras na configuração da mãe, lutando com uma peixeira na mão, contra este grupo asqueroso de fazendeiros esnobes. Para a menina, no entanto, a forçosa mudez impede que ela expresse o que realmente sente (seja para si mesma, ou transparecendo em metáforas). O batom vermelho em si e na Virgem resultam em indícios vagos demais para representarem uma autoafirmação, ou caminho para a autodescoberta. E certamente não será um longo plano dos seios da menina que ajudará a decifrar seus sentimentos.

Assim, Malaika permanece uma heroína misteriosa, mesmo ao final da sessão. Nós a vemos sempre, porém, compreendemos pouco. A decisão de resolver diversas cenas com um único plano não contribui a perceber as reações dos demais personagens, a presença da garota no espaço, o peso de sua solidão. A montagem parece se ressentir de mais materiais para a construção da dinâmica de cada plano. Por isso, precisa se contentar com escolhas rígidas demais de interação (o facão em plano de detalhe, a queda da cristaleira em plongée, a fala condescendente da diretora da escola em plano lateral). Cada vez que a narrativa necessita se focar nos conflitos, para fazer a narrativa avançar, as sequências se resolvem numa economia draconiana de planos. 

Resta um esforço contraditório em fazer um filme, ao mesmo tempo, severo e dócil; sensível e austero. Ora ele se entrega a uma delicadeza clássica (as mãos acariciando as folhas secas), ora opta por reflexões artificiais, em falas que mal cabem na boca de uma adolescente (“O que é ser um homem?”). Às vezes, mergulha nas maiores referências do cinema queer brasileiro (a homenagem próxima até demais a O Menino e o Vento), ora deixa indícios de uma afetividade queer que não pretende realmente explorar. 

Falta força às imagens e sons de Malaika, obra que coincide delicadeza com entorpecimento. Tangenciamos o universo de uma garota excluída sem mergulhar a fundo nas origens, ou alternativas face à sua exclusão. Sentimos afeto por ela, sem entendê-la de fato. A personagem corre o risco de interessar ao cinema mais enquanto imagem de exceção (a garota negra albina, a figura possivelmente trans) do que enquanto subjetividade com tanto a dizer, porém, que quase nunca se expressa.

Malaika (2025)
5
Nota 5/10

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