
Este longa-metragem parte de uma busca ostensiva pela delicadeza. Ao retratar o cotidiano de uma garota albina, abraça uma cartilha do cinema sensorial, disposto a trocar palavras por signos e metáforas. Por isso, Malaika (Vitória Bianca) tem diversos planos centrados em seu rosto silencioso, além dos contornos de sua pele, suas mãos, seus pés. A câmera a contempla longamente passando protetor solar, além do protetor labial. Para representar o perigo ao seu redor e, depois, a ferocidade inerente à própria garota, opta pela materialização de um lobo que a acompanha.
Neste sentido, pode-se falar de um trabalho performático de atuação, mais do que de uma composição clássica. A atriz, presente na integralidade das cenas, posa nas partes específicas do enquadramento, olha para onde a luz lhe favorece, senta-se no local onde o rosto será refletido no espelho à sua frente. O diretor André Morais compreende, por esta ode à beleza e presença da menina, uma forma de homenagem em si. Ele almeja a imponência e nobreza de uma estátua como forma de valorizar cada imagem da menina. O humanismo, neste caso, passa por uma forma de plasticidade e admiração física.
O longa-metragem busca a delicadeza. Mas a principal crítica que se possa fazer ao projeto diz respeito à flagrante falta de ritmo.
Em termos de dinâmica, o drama soa lento, arrastado. A principal crítica que se possa fazer ao projeto diz respeito à flagrante falta de ritmo. Os personagens se deslocam com lentidão, para ajudar a tarefa da direção de fotografia, que pretende captar cada movimento em planos próximos. Assim, a professora entra na sala de aula em câmera lenta, e pega seu apagador em velocidade reduzida. Adiante, a mãe de Malaika lhe oferece um retrato e, novamente, a câmera desliza com parcimônia para seguir a mão e o objeto pelos ares. Até mesmo os movimentos da garota, ao subir a escada da escola, resultam de-sa-ce-le-ra-dos, como se tal esforço permitisse admirar ainda melhor os detalhes, fruir ainda mais a natureza. Quando a garota se vê excluída na sala de aula, a imagem a admira, em sua invisibilidade social, durante um plano longuíssimo. A vagareza se torna meio e finalidade.
Este aspecto de um tempo suspenso nos remete aos sonhos, em conjunção com o teor de fábula decorrente da alusão a florestas e lobos. Malaika se abaixa para lavar o rosto na pia, e quando levanta a cabeça, a palavra “Morte” a assombra no espelho. Ora, quando escreveram isso imediatamente sobre seu corpo, sem que ela percebesse? Por que retratar um bullying caricatural e violento pela perspectiva dos agressores, ignorando as expressões no rosto da vítima? Por que segurar durante tempo os risos estereotipados da burguesia agressiva, durante a festa, ou a expressão profundamente sisuda da mãe, conforme escuta ordens da patroa? Por que Malaika volta da escola e encara a mãe como se estivessem brigadas?
A direção guarda seus mistérios, assim como o roteiro, no que diz respeito às intenções de cada cena ou conflito. Assim, o símbolo dos lobos, o martírio da mãe na conclusão, e instantes como o quase-beijo na colega soam fortuitos, ou pelo, menos, insuficientemente trabalhados. Mas nada incomoda tanto quanto o tratamento da identidade de gênero da protagonista. A mãe, patroa e diretora da escola a chamam de garoto, embora a câmera pareça filmá-la em sua aparente feminilidade. Como a própria menina se entende? Estamos falando de uma alusão (discreta, quase envergonhada) à transexualidade? Por que a garota, tão eloquente (“Mas eu quero falar. Eu preciso falar!”), nunca dá a entender como ela mesmo se compreende, em termos de sexualidade e gênero?
Trata-se de um tema complexo demais para ser meramente aludido, enquanto ambiguidade poética, etérea, lânguida. As questões de sexualidade, gênero e raça atravessam o longa-metragem sem perfurá-lo de fato. Pelo menos, elas se fazem bastante claras na configuração da mãe, lutando com uma peixeira na mão, contra este grupo asqueroso de fazendeiros esnobes. Para a menina, no entanto, a forçosa mudez impede que ela expresse o que realmente sente (seja para si mesma, ou transparecendo em metáforas). O batom vermelho em si e na Virgem resultam em indícios vagos demais para representarem uma autoafirmação, ou caminho para a autodescoberta. E certamente não será um longo plano dos seios da menina que ajudará a decifrar seus sentimentos.
Assim, Malaika permanece uma heroína misteriosa, mesmo ao final da sessão. Nós a vemos sempre, porém, compreendemos pouco. A decisão de resolver diversas cenas com um único plano não contribui a perceber as reações dos demais personagens, a presença da garota no espaço, o peso de sua solidão. A montagem parece se ressentir de mais materiais para a construção da dinâmica de cada plano. Por isso, precisa se contentar com escolhas rígidas demais de interação (o facão em plano de detalhe, a queda da cristaleira em plongée, a fala condescendente da diretora da escola em plano lateral). Cada vez que a narrativa necessita se focar nos conflitos, para fazer a narrativa avançar, as sequências se resolvem numa economia draconiana de planos.


Resta um esforço contraditório em fazer um filme, ao mesmo tempo, severo e dócil; sensível e austero. Ora ele se entrega a uma delicadeza clássica (as mãos acariciando as folhas secas), ora opta por reflexões artificiais, em falas que mal cabem na boca de uma adolescente (“O que é ser um homem?”). Às vezes, mergulha nas maiores referências do cinema queer brasileiro (a homenagem próxima até demais a O Menino e o Vento), ora deixa indícios de uma afetividade queer que não pretende realmente explorar.
Falta força às imagens e sons de Malaika, obra que coincide delicadeza com entorpecimento. Tangenciamos o universo de uma garota excluída sem mergulhar a fundo nas origens, ou alternativas face à sua exclusão. Sentimos afeto por ela, sem entendê-la de fato. A personagem corre o risco de interessar ao cinema mais enquanto imagem de exceção (a garota negra albina, a figura possivelmente trans) do que enquanto subjetividade com tanto a dizer, porém, que quase nunca se expressa.




