
O Bolo do Presidente (The President’s Cake, em título internacional) parte do pressuposto que a desigualdade de renda, e as ditaduras em geral, são absurdas. Não apenas tristes, revoltantes, mas também surreais, desconectadas de qualquer senso de realidade. Assim, o filme se baseia em um exemplo particularmente flagrante: a história de uma garotinha iraquiana que, mesmo sem ter o que comer, precisa fazer um bolo de aniversário ao presidente Saddam Hussein. Na escola, ela é sorteada para tal tarefa, apresentada pelo professor como uma grande honra. Ora, no mesmo dia, sua única refeição prevista — uma maçã — é confiscada pelo inspetor da instituição. De que maneira conseguiria, então, ovos, farinha, açúcar?
Como se percebe, o longa-metragem contrasta a violência extrema do ditador com um périplo fantástico. Destinada a cumprir a tarefa, a menina mendiga os alimentos, tenta trocá-los por objetos pessoais, ou por força de trabalho. Adiante, encontra outras artimanhas, mais ou menos legalizadas. O diretor e roteirista Hasan Hadi jamais oculta a brutalidade deste percurso, que inclui abandono familiar, fome, humilhação, prisões arbitrárias, estupro de mulheres grávidas, roubo de animais, homens bombardeados pelos Estados Unidos, e algumas mortes. No entanto, reveste os conflitos de tamanho grau de distanciamento que constrói um inesperado feel good movie — praticamente uma Sessão da Tarde, como apontaram tantos espectadores da 49ª Mostra de São Paulo.
Para quem acredita no humor enquanto sinônimo de escapismo, o longa-metragem iraquiano demonstra como a comicidade pode ser empregada justamente para discutir os paradoxos do real.
Por exemplo, um sujeito acaba de perder a visão dos dois olhos, devido à desumanidade do governo. Ele brinca: “Pelo menos não preciso mais me preocupar se a minha noiva é bonita”. Diante das sugestões que a pequena Lamia cozinhe seu galo de estimação, a menina se recusa a matá-lo, e ainda foge das comparações do animal com uma galinha. Quando finalmente obtém alguns ovos, surge outra dúvida: como transportar o produto tão frágil num cenário de turbulência social? Enquanto algumas pessoas protestam, e outras comemoram o aniversário de seu líder sagrado, a protagonista preocupa-se unicamente em corresponder ao que esperam dela. O senso de prioridade da garotinha, em relação à grandiloquência dos fatos, representa um motivo de comicidade em si.
Ajuda muito o fato que as crianças sejam, de fato, excelentes. Baneen Ahmed Nayef e Sajad Mohamad Qasem transbordam de naturalidade em frente às câmeras, tanto no emprego dos diálogos quanto em ações relativamente complexas — pegar carona na parte externa do ônibus, por exemplo. Dificilmente se dirige atores mirins, especialmente tão pequenos, para este nível de maturidade, sobretudo quando ocupam a maioria das cenas, e possuem bastante texto sob sua responsabilidade. O diretor certamente possui bom traquejo com o elenco, o que se comprova também no tratamento dos principais papéis adultos (caso de Waheed Thabet Khreibat).
Nunca se solicita a nenhum deles que interpretem figuras fabulares, piedosas, chorosas, nem excessivamente heroicas. Existe grande respeito pela realidade dos pequenos, e pelo fato que, para eles, a obrigação de fazer um bolo constitui motivo suficiente para se arriscar em plena cidade, sem a certeza de conseguirem voltar para casa. A premissa fricciona, dessa maneira, o coletivo e o individual, o público e o privado, o essencial e o supérfluo. O interesse do projeto também decorre da capacidade de, através do malfadado acaso de Lamia, efetuar o panorama bem amplo de um país em decadência econômica e moral. Cada imagem sorridente de Saddam pelas paredes, enquanto a criança carrega sacos pesados para negociar alguma farinha com os comerciantes, somente reforça a insanidade da situação.
The President’s Cake também impressiona pela qualidade da fotografia, do som e da montagem — todos absolutamente impecáveis. Seja pelas sequências das crianças conduzindo seus barcos até a escola, ou das casas pegando fogo à distância, Hadi demonstra notável segurança na condução dos planos, no ritmo das cenas, e na dinâmica entre a contemplação e o afobamento, entre a melancolia e a euforia. Surpreende que este seja o primeiro longa-metragem do autor iraquiano, que partiu aos Estados Unidos para estudar cinema. Ao contrário de tantas comédias infantojuvenis, baseadas em trapalhadas bem-intencionadas dos pequenos, seu filme se destaca por opor a aparência de inocência a um fundo de completo horror.
Assim, o filme jamais se esquece dos perigos bastante reais que afetam Lamia e Saeed. Talvez algumas pessoas venham a questionar a conclusão demasiado grave, mas esta decisão representa um posicionamento fundamental do autor, que concede bastante humor e graciosidade na jornada, contanto que comece e termine com os dois pés firmemente plantados nos fatos. (A obrigação de assar bolos ao presidente ocorria verdadeiramente no regime de Hussein). O projeto sustenta uma tensão constante, mesmo com tamanha leveza da inocência infantil, devido ao temor real que a menina seja pega, punida ou talvez repreendida exemplarmente caso não leve o bolo para a escola. Ela carrega, de certo modo, a sina de um prisioneiro, ou de um indivíduo procurado pela polícia — como, de fato, passa a ser adiante.


Num momento de briga entre os amigos, Lamia critica o pai ladrão e deficiente do colega, chamando-o de “aleijado”. Este retruca: “Pelo menos, o meu pai está vivo”. Podemos falar em uma comédia mordaz, intensa. Para quem acredita no humor enquanto sinônimo de escapismo, o longa-metragem iraquiano demonstra como a comicidade pode ser empregada justamente para discutir os paradoxos do real. O caminho mais fácil talvez apontasse ao drama lacrimoso, ou o suspense frenético. A opção pela tragédia de costumes, ou ainda a comédia de erros, permite ao espectador adotar o devido estranhamento, quando nos colocamos na posição da criança. Lamia não compreende os contornos políticos de seu país — e, de certo modo, nem o espectador, alheio à experiência de crescer no Iraque dos anos 1990.
A produção tampouco poupa os Estados Unidos, co-produtor da obra, e descrito, desde os letreiros iniciais, como um dos principais responsáveis pela pauperização extrema dos iraquianos. Ora, para que o público estrangeiro compreenda os sentimentos e vivências de uma pessoa em tal contexto de autoritarismo (posto que a obra se dirige, sem dúvida, ao público internacional), escolhe-se uma menina, apartada do contexto político devido à situação excepcional, que a impede enxergar qualquer outro problema à sua volta. Contra a sua vontade, Lamia foge do cotidiano, rumo a uma odisseia imaginária. Trata-se de uma ferramenta esperta, e muitíssimo bem conduzida, para abordar os horrores do mundo e as maravilhas da (auto)ilusão.




