The President’s Cake (2025)

A comédia da precariedade

título original (ano)
Mamlaket Al-Qasab (2025)
país
Iraque, EUA, Qatar
gênero
Drama, Comédia
duração
102 minutos
direção
Hasan Hadi
elenco
Baneen Ahmed Nayef, Sajad Mohamad Qasem, Waheed Thabet Khreibat, Rahim AlHaj
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

O Bolo do Presidente (The President’s Cake, em título internacional) parte do pressuposto que a desigualdade de renda, e as ditaduras em geral, são absurdas. Não apenas tristes, revoltantes, mas também surreais, desconectadas de qualquer senso de realidade. Assim, o filme se baseia em um exemplo particularmente flagrante: a história de uma garotinha iraquiana que, mesmo sem ter o que comer, precisa fazer um bolo de aniversário ao presidente Saddam Hussein. Na escola, ela é sorteada para tal tarefa, apresentada pelo professor como uma grande honra. Ora, no mesmo dia, sua única refeição prevista — uma maçã — é confiscada pelo inspetor da instituição. De que maneira conseguiria, então, ovos, farinha, açúcar?

Como se percebe, o longa-metragem contrasta a violência extrema do ditador com um périplo fantástico. Destinada a cumprir a tarefa, a menina mendiga os alimentos, tenta trocá-los por objetos pessoais, ou por força de trabalho. Adiante, encontra outras artimanhas, mais ou menos legalizadas. O diretor e roteirista Hasan Hadi jamais oculta a brutalidade deste percurso, que inclui abandono familiar, fome, humilhação, prisões arbitrárias, estupro de mulheres grávidas, roubo de animais, homens bombardeados pelos Estados Unidos, e algumas mortes. No entanto, reveste os conflitos de tamanho grau de distanciamento que constrói um inesperado feel good movie — praticamente uma Sessão da Tarde, como apontaram tantos espectadores da 49ª Mostra de São Paulo.

Para quem acredita no humor enquanto sinônimo de escapismo, o longa-metragem iraquiano demonstra como a comicidade pode ser empregada justamente para discutir os paradoxos do real.

Por exemplo, um sujeito acaba de perder a visão dos dois olhos, devido à desumanidade do governo. Ele brinca: “Pelo menos não preciso mais me preocupar se a minha noiva é bonita”. Diante das sugestões que a pequena Lamia cozinhe seu galo de estimação, a menina se recusa a matá-lo, e ainda foge das comparações do animal com uma galinha. Quando finalmente obtém alguns ovos, surge outra dúvida: como transportar o produto tão frágil num cenário de turbulência social? Enquanto algumas pessoas protestam, e outras comemoram o aniversário de seu líder sagrado, a protagonista preocupa-se unicamente em corresponder ao que esperam dela. O senso de prioridade da garotinha, em relação à grandiloquência dos fatos, representa um motivo de comicidade em si.

Ajuda muito o fato que as crianças sejam, de fato, excelentes. Baneen Ahmed Nayef e Sajad Mohamad Qasem transbordam de naturalidade em frente às câmeras, tanto no emprego dos diálogos quanto em ações relativamente complexas — pegar carona na parte externa do ônibus, por exemplo. Dificilmente se dirige atores mirins, especialmente tão pequenos, para este nível de maturidade, sobretudo quando ocupam a maioria das cenas, e possuem bastante texto sob sua responsabilidade. O diretor certamente possui bom traquejo com o elenco, o que se comprova também no tratamento dos principais papéis adultos (caso de Waheed Thabet Khreibat). 

Nunca se solicita a nenhum deles que interpretem figuras fabulares, piedosas, chorosas, nem excessivamente heroicas. Existe grande respeito pela realidade dos pequenos, e pelo fato que, para eles, a obrigação de fazer um bolo constitui motivo suficiente para se arriscar em plena cidade, sem a certeza de conseguirem voltar para casa. A premissa fricciona, dessa maneira, o coletivo e o individual, o público e o privado, o essencial e o supérfluo. O interesse do projeto também decorre da capacidade de, através do malfadado acaso de Lamia, efetuar o panorama bem amplo de um país em decadência econômica e moral. Cada imagem sorridente de Saddam pelas paredes, enquanto a criança carrega sacos pesados para negociar alguma farinha com os comerciantes, somente reforça a insanidade da situação.

The President’s Cake também impressiona pela qualidade da fotografia, do som e da montagem — todos absolutamente impecáveis. Seja pelas sequências das crianças conduzindo seus barcos até a escola, ou das casas pegando fogo à distância, Hadi demonstra notável segurança na condução dos planos, no ritmo das cenas, e na dinâmica entre a contemplação e o afobamento, entre a melancolia e a euforia. Surpreende que este seja o primeiro longa-metragem do autor iraquiano, que partiu aos Estados Unidos para estudar cinema. Ao contrário de tantas comédias infantojuvenis, baseadas em trapalhadas bem-intencionadas dos pequenos, seu filme se destaca por opor a aparência de inocência a um fundo de completo horror. 

Assim, o filme jamais se esquece dos perigos bastante reais que afetam Lamia e Saeed. Talvez algumas pessoas venham a questionar a conclusão demasiado grave, mas esta decisão representa um posicionamento fundamental do autor, que concede bastante humor e graciosidade na jornada, contanto que comece e termine com os dois pés firmemente plantados nos fatos. (A obrigação de assar bolos ao presidente ocorria verdadeiramente no regime de Hussein). O projeto sustenta uma tensão constante, mesmo com tamanha leveza da inocência infantil, devido ao temor real que a menina seja pega, punida ou talvez repreendida exemplarmente caso não leve o bolo para a escola. Ela carrega, de certo modo, a sina de um prisioneiro, ou de um indivíduo procurado pela polícia — como, de fato, passa a ser adiante.

Num momento de briga entre os amigos, Lamia critica o pai ladrão e deficiente do colega, chamando-o de “aleijado”. Este retruca: “Pelo menos, o meu pai está vivo”. Podemos falar em uma comédia mordaz, intensa. Para quem acredita no humor enquanto sinônimo de escapismo, o longa-metragem iraquiano demonstra como a comicidade pode ser empregada justamente para discutir os paradoxos do real. O caminho mais fácil talvez apontasse ao drama lacrimoso, ou o suspense frenético. A opção pela tragédia de costumes, ou ainda a comédia de erros, permite ao espectador adotar o devido estranhamento, quando nos colocamos na posição da criança. Lamia não compreende os contornos políticos de seu país — e, de certo modo, nem o espectador, alheio à experiência de crescer no Iraque dos anos 1990. 

A produção tampouco poupa os Estados Unidos, co-produtor da obra, e descrito, desde os letreiros iniciais, como um dos principais responsáveis pela pauperização extrema dos iraquianos. Ora, para que o público estrangeiro compreenda os sentimentos e vivências de uma pessoa em tal contexto de autoritarismo (posto que a obra se dirige, sem dúvida, ao público internacional), escolhe-se uma menina, apartada do contexto político devido à situação excepcional, que a impede enxergar qualquer outro problema à sua volta. Contra a sua vontade, Lamia foge do cotidiano, rumo a uma odisseia imaginária. Trata-se de uma ferramenta esperta, e muitíssimo bem conduzida, para abordar os horrores do mundo e as maravilhas da (auto)ilusão. 

The President’s Cake (2025)
8
Nota 8/10

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