Dolores | “A rebeldia dessas mulheres é acreditar nos sonhos”

A partir de 4 de junho, os cinemas brasileiros recebem a estreia de Dolores, drama dirigido por Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar. Inicialmente, o filme seria dirigido por Chico Teixeira, em conclusão à sua Trilogia do Afeto, iniciada por A Casa de Alice (2007) e Ausência (2014).

No entanto, com o falecimento do cineasta, os amigos retomaram o projeto de uma mulher de classe média-baixa (Carla Ribas), viciada em jogos de azar, pensando em ganhar a vida com seu próprio cassino. Ela tem um relacionamento complicado com a filha Deborah (Naruna Costa), uma costureira que aguarda o saída do namorado da prisão. Enquanto isso, a neta de Dolores, Duda (Ariane Aparecida), trabalha em clubes de tiro e acredita que o futuro se encontra nos Estados Unidos.

Estas três mulheres sonham com caminhos distintos, até perceberem que talvez a liberdade venha da união familiar. O grande elenco ainda conta com Zezé Motta, Teca Pereira, Gilda Nomacce e Roney Villela. Dolores foi exibido nos festivais de Roterdã, San Sebastian, São Paulo, Rio de Janeiro e Tiradentes.

Os cineastas Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar. Foto: Divulgação
Os cineastas Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar. Foto: Divulgação

Em conversa com o Meio Amargo, Marcelo Gomes, Carla Ribas e Ariane Aparecida discutem o projeto:

Concluindo o sonho de Chico Teixeira

Todos os artistas mencionam com muito carinho e respeito este projeto iniciado pelo amigo de profissão. Gomes estima que já existia uma afinidade entre o cinema deles:

“O cinema do Chico, assim como o de Maria Clara e o meu, é um cinema de personagens contraditórios — não perfeitos. Isso já unia nós três. O Chico sempre se preocupou com dramas humanos — no caso dele, focados nos bairros de classe média-baixa de São Paulo. Isso vale para A Casa de Alice, Ausência e para o projeto de Dolores. Eu sempre quis fazer um filme em São Paulo. Morei muito tempo na cidade, e a Maria Clara mora lá. Então eu já tinha a vontade de filmar São Paulo e este mundo de mulheres com uma vida comum. Elas acordam, vão para o trabalho, e querem ganhar a vida; querem mudar de vida. Querem sonhar. Existe algo muito interessante aí”

“Além disso, um elemento já estava nos projetos do Chico: as saídas das prisões. Não as prisões do lado de dentro, mas do lado de fora, com essa rede de solidariedade invisível. Existe um acordo quase tácito entre as mulheres do lado de fora. Outro universo curioso que a gente queria entender eram os bingos clandestinos. Tudo isso me seduziu muito para contar essa história”, explica.

Carla Ribas, que já havia trabalhado com Teixeira, emociona-se ao se lembrar do amigo:

A Casa de Alice mudou a minha carreira e, consequentemente, a minha vida. Tanto eu quanto o Marcelo Gomes, a gente sentia muita emoção, principalmente nos primeiros dias de filmagem, de estar fazendo esse filme. Isso surgia em cada elemento que a gente colocava. Por exemplo, a cena onde Dolores está fazendo a unha do pé, foi uma sugestão minha, que pedi: “Me deixa ser uma manicure”. Era muito emocionante colocar estes elementos, pensando no Chico, no filme que ele não pôde fazer, mas queria muito. Ele chegou a dizer: “Esse é o meu melhor roteiro; é uma pena que eu não vou conseguir filmar”. Então foi lindo ter essa emoção”.

“Aliás, tinha um cachorro que andava pelo quintal da personagem da Naruna, onde tinha a caixa d’água que servia de piscina para elas. A gente apelidou esse cachorro de Chico, porque toda vez que ligava a câmera, ele se colocava no lugar que compunha muito bem o quadro, sabe? O Marcelo até disse assim: “Esse aí é o Chico, é a presença do Chico com a gente aqui. Por isso, tenho certeza que ele ia amar o que a gente fez. É a sensação que eu tenho”.

Ariane Aparecida, por outro lado, possuía uma relação totalmente diferente com esta herança cinematográfica:

“Quando cheguei para trabalhar em Dolores, eu era muito crua nesse sentido. Venho de uma companhia de teatro social na Brasilândia, mas assistia a poucos filmes brasileiros. Na hora do meu teste, eu não fazia ideia de quem era Marcelo Gomes, não fazia ideia de quem era Maria Clara Escobar. Eu dou graças a Deus, porque senão eu estaria tremendo de medo. Depois que consegui o papel, decidi assistir tudo do Marcelo, da Maria Clara e do Chico. Só durante as gravações que eu fui entender de fato o que aquilo significava, e como era profundo, porque todo mundo estava muito comprometido com o Chico. Falavam dele o tempo todo, mas infelizmente eu nunca tive o prazer de conhecê-lo”.

Dolores, Deborah, Duda

O trio de protagonistas representa, em primeiro lugar, três gerações distintas:

“Dolores tem 65 anos, Deborah tem 40-45 anos, Duda tem 20-25 anos, então elas representam três momentos do Brasil”, pontua Gomes.

“Dolores viu surgir o Brasil da redemocratização. A Deborah viu o Brasil das políticas sociais, e a Duda encara o Brasil neoliberal, copiado do modelo americano. Essas três personagens precisavam, de uma maneira ou de outra, ser tocadas por estes momentos históricos. Era fundamental. Então, em primeiro lugar, a gente queria construir uma periferia digna, interessante, luminosa, colorida. Em segundo lugar, elas seriam mulheres de ação: elas têm sonhos, desejos, e querem uma vida melhor. Como retratar esse sonho? Esse elemento onírico?”

Ele continua: “A Maria Clara acaba de fazer um filme (Explode São Paulo, Gil) onde a personagem tenta, por meio da ficção, conquistar um sonho. Eu fiz um documentário que se chama Criaturas da Mente, e estava completamente tocado pelo inconsciente. A gente achava que a rebeldia dessas mulheres era ir em busca do sonho delas. A nossa tarefa, como cineastas, era criar um sonho diferente daquele sonho clássico, quando a pessoa dorme, a imagem fica blur, e aparece o sonho. Por que não subverter isso? Imaginamos que estas mulheres sonham acordadas e, assim como para os yanomamis, sonho e realidade são uma coisa só. Sonho e realidade, antes de qualquer coisa, são um gesto coletivo”

“Elas são Dom Quixotes, né?”, avalia Carla Ribas. “A própria crueza da vida faz com que esses sonhos sejam um alívio. Enquanto sonham, há a possibilidade de alcançar o inalcançável, sabe? Uma felicidade, uma plenitude de poder. Ser dona de um cassino, usar vestidos glamourosos, estar na noite para festas, dançar. Eu acho que quanto mais dura é a vida, maiores os sonhos”.

“Eu discordo um pouco da Carla”, afirma Aparecida, “no sentido de que, pra mim, quanto mais dura a vida, mais difícil de sonhar. A gente não tem muita perspectiva. Este é um filme de mulheres com pouca perspectiva, mas grandes promessas de futuro. Mesmo assim, talvez tirando talvez a Dolores, não tem nenhum sonho sem base. A Duda realmente sonha com algo que prometem para ela. A Deborah tem um amor esperando por ela. A Dolores tem esse sonho concreto do cassino. É isso que permite a todas elas sonhar”.

Preparando o elenco

Como a trama envolve diversos ambientes, com seus códigos específicos de conduta, o elenco fez um longo trabalho de preparação:

“A gente foi num cassino clandestino aqui em São Paulo”, explica Carla Ribas. “Eu achei muito interessante porque você entra e imediatamente tem os seguranças na porta, que te examinam muito. Era um salão imenso, com todas as mesas ocupadas. Eu esperava muito burburinho, com as pessoas bebendo, gritando: Bingo! Mas era um silêncio sepulcral. Todo mundo anotando nas suas cartelas com rapidez. Eu não conseguia preencher aquele negócio de jeito nenhum, ficava perdida com aqueles números, e a mulher do meu lado, que tinha uns cinco cartões, começou a ficar incomodada e preencheu os meus também. Tem um nível de “profissionalismo” que as pessoas adquirem ali. Eu fiquei estudando muito o movimento das mãos. Treinei bastante para fazer exatamente o que todos eles faziam; estava preocupada em adquirir aquela rapidez. Foi uma experiência pessoal muito interessante, não só útil para o filme”.

“Já Duda é uma pessoa muito forte no meu imaginário, porque a gente gravou o filme na Brasilândia, e eu sou de uma favela da Brasilândia”, pontua Ariane Aparecida. “Nasci e fui e criada no Jardim Elisa Maria, muito perto de onde a gente gravou. Inclusive, tenho primas que gostam de armas, e outras que rodam de moto. Mas eu sou a artista da família, né? Comecei a criar a Duda olhando para as mulheres da minha família, e percebi que sou tão parte desse universo quanto elas”.

Gomes confirma a dedicação e empenho do elenco.

“Foi tudo muito trabalhado. Eu adoro ensaiar, e Maria Clara também. Ela fez o casting dos meus três últimos filmes, então convidá-la foi algo totalmente natural. Então, quando fomos para Dolores, a gente sabia como cada um trabalhava. A gente convidou a Helena Albergaria para preparar o elenco com a gente. Visitamos bingos com as atrizes, ajudamos elas a aprender como se costura calcinhas. Fizemos toda uma coleção de peças íntimas para elas se sentirem nesse universo. É fundamental para entenderem o aspecto físico da personagem. Existe uma fisicalidade própria de quem trabalha o dia todo na máquina, de pessoas que carregam aquela bolsa enorme de mercadorias para trabalhar”

“Por isso, a Carla está fisicamente Dolores. A Deborah e a Duda também — não emocionalmente, mas fisicamente. A Duda foi pra clubes de tiros, fez exercícios de moto, e nem quis ter dublê na hora da moto! Ainda construímos o universo musical de cada uma: a Dolores escuta Odair José e Alcione; a Deborah escuta músicas românticas, e a Duda escuta aquele hip hop que fala em luta e vencer. Tudo isso foi se somando, como camadas para, no final, a gente falar sobre um tema muito importante e universal, que é a questão da liberdade. Tem a liberdade de agir, a liberdade que fere a liberdade dos outros… Principalmente neste momento em que as liberdades estão sendo tão cerceadas no mundo inteiro”.

As mulheres e os homens

Embora este filme seja profundamente feminino, diversos homens se encontram ao redor das protagonistas.

“Nos debates, até me disseram: ‘Nossa, mas todos os homens do filme são maus?’. É claro que não!”, contesta Gomes. “O namorado da Duda é super legal, e o Bigode também é bem bacana. O que é fundamental neste filme é dizer que, para estas mulheres realizarem as suas ações, elas não precisam de um homem do lado delas. Elas não precisam da legitimação do homem para decidir sobre seus futuros. Se esses homens não cumprem as expectativas delas, dentro de negociações profissionais ou emocionais, elas não vão abandonar os sonhos delas por isso. Elas vão à luta. Isso acontece com Dolores, Deborah e Duda, de maneiras diferentes. A Dolores vem de uma viuvez; a Deborah traz do sonho romântico de família, e a Duda é atraída pelo projeto profissional do chefe dela. Mas ela não se abate, ela vai em frente. Então alguns homens são legais, sim!”.

Carla Ribas completa: “Eu acho que a nossa sociedade patriarcal aprendeu a oprimir as mulheres. No caso das personagens, elas se soltam disso. Mas eu não vejo a Dolores oprimida por nenhum homem, não. Inclusive, o personagem do Roney Villela tenta se aproximar dela, mas ela está em outra, está livre. A Dolores tem um quê egoísta, muito autorreferente. Ela quer saber dela mesma e dos sonhos dela — não interessa muito o que está em volta. Mas eu acho bonito que são mulheres à procura dos seus sonhos, fugindo das gavetas onde o patriarcado tenta colocá-las”.

“A Deborah até espera por um homem, para receber o aval dele, para fazer as coisas dela. Mas até ela acaba rompendo com esse sujeito. Então, são mulheres em trânsito, indo de um lugar para o outro. Os homens dentro desse filme são meros acessórios mesmo, para a gente seguir o nosso caminho. De fato, só tem praticamente mulheres no filme, né? A equipe tem direção de arte e fotografia de mulheres, além da Maria Clara Escobar dividindo a direção com o Marcelo Gomes. Todo esse universo feminino foi construído em paralelo por fora das câmeras, e isso faz com que este filme seja tão bonito”, acrescenta.

Festivais de cinema

Dolores teve um acolhimento caloroso tanto no festivais europeus quanto brasileiros. “San Sebastian é um festival muito caloroso”, relembra Carla Ribas. “Foi uma coisa impressionante”.

“Eles organizaram a entrada da gente antes da exibição, para falar no palco. Quando a gente entrou, foi uma ovação de aplausos. Uma ovação. As pessoas nem tinham visto o filme ainda. Então eu já comecei a chorar ali. Na hora de falar, eu só disse: “Gente, me perdoe, eu estou profundamente emocionada”. Eu nem tinha assistido ao filme ainda. Aí assisti ao filme, e tiveram muitos aplausos de novo. No final, na hora de responder às perguntas no debate, uma mulher me perguntou: ‘Como é que você, essa mulher tão elegante, conseguiu fazer uma personagem do povo, tão simples?’. Aí eu tive que explicar que aquela mulher arrumada era uma personagem também!”.

“Eu acompanhei no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo, algo muito especial para mim, que sou de São Paulo”, recorda Ariane Aparecida. “Foi a maior emoção do mundo assistir com a minha família, com várias pessoas da minha companhia de teatro. Foi uma festa quando apareceu meu nome na tela — o cinema inteiro começou a gritar. No Festival do Rio, foi muito interessante porque percebi que a Duda estava fazendo sucesso com os adolescentes. No final, vários garotos e garotas estavam esperando a gente sair da sessão para tirar fotos. Pensei: ‘Deve ser com a Naruna, com a Carla’. Mas eles queriam tirar foto comigo! Fiquei feliz. A maioria das pessoas que veio falar comigo tinha muito afeto pelo filme e pelas personagens“.

“Na Espanha, as pessoas me diziam que era um filme muito latino”, pontua Gomes. “Eu fiquei muito feliz em escutar isso, e pensei: de fato, por que o Paraguai não poderia ser o projeto idílico delas? Por que teria que ser Las Vegas? Às vezes, o cinema brasileiro é muito autocentrado, e se esquece de nossa cultura latina, que está atrás da gente e nos influencia. Segundo, me falaram muito nos festivais da potência dessas personagens femininas. Elogiaram as atrizes e os universos delas, os silêncios e contradições. As pessoas me dizem: ‘Nossa, Dolores faz tudo aquilo, mas vocês nunca a julgam’. De fato, não existe julgamento moral, e elas não são condenadas no final pelo caminho que construíram. Não é a gente que tem que fazer esse julgamento: precisamos deixar as personagens livres e soltas para construírem a sua fantasia. E a rebeldia delas é acreditar nesse sonho”.

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