Mestres do Universo (2026)

O risível homem de verdade

título original (ano)
Masters of the Universe (2026)
país
EUA
gênero
Fantasia, Aventura
duração
140 minutos
direção
Travis Knight
elenco
Nicholas Galitznine, Idris Elba, Camila Mendes, Jared Leto, Alison Brie, Jóhannes Haukur Jóhannesson, Jon Xue Zhang, Sam C. Wilson, Morena Baccarin
visto em
Cinemas

Em primeiro lugar, cabe destacar o alívio de encontrar nos cinemas uma fantasia de grande orçamento disposta a abraçar as cores. Nada de tantos tons acinzentados, desbotados, pretensamente realistas através da baixa saturação. Muito tem se discutido a respeito desta tendência das direções de fotografia em blockbusters, seja para baratear custos (deixando a manipulação das cores apenas para a pós-produção), seja para esconder falhas nos efeitos visuais — ou, ainda, porque se estima que o público assistindo às produções nas pequenas telas de computadores e celulares não se importaria tanto com a gama cromática.

Ora, Mestres do Universo possui uma coloração alegre e exagerada, em adequação a uma história alegre e exagerada. O cineasta Travis Knight aposta que o prazer nostálgico passa não apenas pelos personagens do desenho, mas também pelos tons e o ritmo daquela época. Mais do que uma incursão narrativa, ele propõe um retorno às sensações de um tipo de audiovisual que não se faz mais. Isso implica em assumir certa infantilidade na trama, as frases de efeito, os figurinos com aparência de fantasias, as lições de moral… e as cores exageradas, que buscavam cativar as crianças em frente à televisão. 

A masculinidade idealizada se converte no alvo central da chacota do longa-metragem. Ri-se dos próprios valores que se defende.

Talvez a simples transposição acrítica dos valores e da estética de antigamente ao circuito exibidor de 2026 provocasse certo incômodo, até constrangimento — caso do seríssimo e tolo Mortal Kombat II. Entretanto, felizmente, os criadores acreditam que a melhor maneira de abraçar os valores da geração anterior ocorre por meio da paródia. Por isso, ridicularizam-se as mesmas escolhas que os autores abraçam com tanto carinho (os dois gestos não são nada incompatíveis). O filme insiste em ironizar as roupas extravagantes, as frases prontas, os gestos de valentia, as situações absurdas. Para os autores desta empreitada, podemos perfeitamente rir daquilo que adoramos — sem cinismo, apenas de afetuosamente. Sabemos que se trata de uma narrativa simplificada e insana, e gostamos dela mesmo assim. Há certo grau (muito bem-vindo) de autoconsciência nesta abordagem.

Por isso, Mestres do Universo traz um herói patético enfrentando um vilão ridículo. (Este não é um comentário depreciativo, apenas a constatação de fatores plenamente conscientes e voluntários por parte dos criadores). Adam (Nicholas Galitzine) é um sujeito fraco, indeciso, de baixa autoestima. Ele é descrito como uma figura com poucos amigos, incapaz de sair com mulheres e de se impor no mercado de trabalho — em outras palavras, a definição perfeita do loser, do perdedor. A trajetória rumo à condição de super-herói passa, portanto, pela necessidade de se tornar homem. Ele ganha músculos, força, confiança. Passa a combater inimigos e conquistar garotas. “Enfrente-me que nem homem!”, afirma seu adversário durante os treinos. Este é o verdadeiro desafio ao sujeito definido inicialmente como efeminado e frágil: reconquistar a sua virilidade.

Face a ele, encontra-se Esqueleto (voz original de Jared Leto), um vilão vaidoso, desesperado para obter o respeito e admiração de seus súditos, porém, sem saber ao certo como fazê-lo. Ele ensaia gestos de uma valentia artificial, enquanto dispara frases prontas que surtem efeito nulo junto aos seguidores malignos. Em paralelo, tampouco obtém a admiração real de sua companheira Maligna (Alison Brie). Logo, ele também precisa se descobrir potente, malvado de fato, indestrutível como acredita ser. Enquanto o herói possui estima de menos, seu adversário a ostenta em excesso. Em comum, os dois precisam abandonar seus traços infantis para se converterem em machos. 

No entanto, esta masculinidade idealizada se converte no alvo central da chacota do longa-metragem. Ri-se dos próprios valores que se defende — o humor segue autocentrado e autocondescendente. A obra jamais promove uma ruptura em relação a estes valores patriarcais (no final, He-Man será, de fato, um sujeito admirado por sua potência), mas se dispõe a brincar com a difícil inserção deste imaginário numa sociedade contemporânea. Assim, não incomoda nem o público conservador (que testemunha a concretização do macho alfa nas telas), nem o público progressista (a quem se oferece o deleite de rir deste macho). Os autores atingem um equilíbrio eficaz e delicado em termos de retrato social. Na impossibilidade de (ou indisposição para) romper com os cânones, pelo menos os reconhece como tais. 

Esteticamente, Mestres do Universo encontra saídas inteligentes para imprimir um senso de aventura. Dispensa a habitual fragmentação excessiva por parte da montagem, e a câmera agitada demais. Em consequência, impressiona a longa duração dos planos durante os combates, assim como o clímax em 360º, onde tudo é palco, e tudo se torna cena. Obviamente, isto é possível apenas em uma obra quase toda digital, que aparenta ter sido filmada em sua vasta maioria diante de uma tela verde. Novamente, a artificialidade é assumida (mas não se torna menos artificial por isso). O castelo de Eternia, as viagens espaciais, os monstros encontrados pelo caminho se demarcam pelo deslumbramento do impossível. Nunca parecem verossímeis, nem desejam sê-lo.

Em paralelo, o resultado tenta ser ao mesmo tempo bastante juvenil, envolvendo piadas sobre o mau-cheiro de Duncan (Idris Elba) e uma robô transformada em faxineira (os Jetsons vêm à mente); mas também sexualizado e malicioso. O texto embute piadas a respeito da nudez de Adam enquanto troca de roupas, ao passo que frases como “Give me head!”, durante a luta, deixam os participantes desconfortáveis devido ao duplo sentido erótico. Quem se lembra do começo dos anos 1990, quando as crianças dançavam na boquinha da garrafa, ao som de É o Tchan, e toda a família se juntava em frente à TV, para assistir à Banheira do Gugu? Este sentimento de incompatibilidade ludicamente aceita entre sexualidade e infância retorna na produção da Amazon MGM Studios.

Por fim, o projeto visa reproduzir o senso de um filme-evento. Ele exigiria ser consumido na sala cinema, no intuito evidente de rir de nossa memória afetiva, e dos longínquos cânones da nossa infância. As ações promocionais (incluindo festivais de cosplays e shows do Trem da Alegria) deixam claro o tipo de sensação de reconforto buscada pelos distribuidores. Talvez Mestres do Universo não seja um grande filme em termos de construção de personagens, desenvolvimento narrativo, e a espalhafatosa direção de arte. No entanto, ele jamais deseja alcançar tal patamar. Soa como uma piada interna, uma brincadeira entre amigos — um meio-termo entre a homenagem saudosa e o show de cosplays. Existe um afeto sincero neste produto tão calculado em termos econômicos. O raro equilíbrio entre a sinceridade e o oportunismo garante o bom resultado da obra.

Mestres do Universo (2026)
7
Nota 7/10

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