Olhe para Mim (2026)

Dois garotos sensíveis

título original (ano)
Olhe para Mim (2026)
país
Brasil
gênero
Fantasia, Drama, Terror
duração
89 minutos
direção
Rafhael Barbosa
elenco
Rejane Faria, Ulisses Arthur, Luciano Pedro Jr, Aura do Nascimento, Ane Oliva, Eron Villar, Hugo Ramires, Nilton Resende, Ivana Iza
visto em
15º Olhar de Cinema (2026)

Marcelo (Ulisses Arthur) conhece Ivan (Luciano Pedro Jr.) numa festa. O primeiro está fantasiado de diabo feminizado, já o segundo veste uma capa que o esconde nas sombras. Poucos minutos depois da troca de olhares, o primeiro pede: “Me leva com você?”. Este poderia ser o princípio de um amor romântico, redentor, do tipo que soluciona magicamente os conflitos de cada um. Entretanto, o diretor Rafhael Barbosa (que assina o roteiro junto de Jasmelino de Paiva e Nivaldo Vasconcelos) imagina um elo diferente. Segundo os letreiros, eles se tornam meio-irmãos, mas também guardiões, protetores um do outro. Nasce uma relação de camaradagem, dependência, convivência — afeto, enfim.

A aproximação repentina e fusional também desperta a sensação de que algo os preparava para este encontro, como se representassem exatamente aquilo que faltasse ao outro. Marcelo é descrito por terceiros enquanto um jovem sensível demais (ainda sofrendo pela mãe que o abandonou), mas também mórbido e perverso. Já Ivan, caracterizado como “muito generoso”, emite grunhidos de animais, que despertam um aspecto amedrontador e amedrontado. Em seus ruídos e crises, ele se torna a ave agressiva, mas também o bicho em necessidade de carinho. Ambos precisam muito de cuidados e, por isso, cuidam-se. Em paralelo, equilibram-se pelo desnível de presença materna — enquanto um apenas sonha com a sua mãe, o segundo tem Sandra (Rejane Faria) sempre ao seu lado, em cada viagem.

Olhe para Mim expande a representação comum do queer, da natureza, do road movie, do religioso, do terror. Ele incorpora todos esses ingredientes numa medida própria.

Desde o princípio, Olhe para Mim se lança numa trajetória simbólica. A proximidade do cineasta com as religiões de matriz africana, e sua fascinação pela transcendência, desembocam numa obra ritualística. A chegada e a saída do menino na festa se traduzem numa aparição diabólica (e angelical); a atenção com Ivan envolve práticas específicas com uma manta desenhada e música clássica; a fusão dos protagonistas envolve corpo, lama e água. Desde que os letreiros iniciais mencionam o rasga-mortalha enquanto prenúncio de morte, deduz-se os eventuais acontecimentos trágicos. Por isso, os animais carregam valor determinante, significando o abandono da cidade em busca da natureza, para encontrarem a si próprios. Na hora da fuga de Marcelo, para nunca mais retornar ar lar adotivo, a única pergunta que Ivan lhe faz é: “Você tem botas para entrar no mato?”. As necessidades são imediatas.

Enquanto projeto queer, o longa-metragem fascina pela descrição tão ampla quanto complexa de identidades de gênero e orientações sexuais. Não é preciso pontuar especificamente os desejos, nem regulá-los, ou inseri-los numa sigla determinada. Estas figuras humanas e animalescas, divinas e demoníacas, carregam todo o estranhamento não-patriarcal pressuposto pela representação do outro, da diferença, da minoria. São tratadas com evidente apreço pela direção (vide as belas cenas de toque, abraço, acalanto), mas também, com fúria e proatividade (caso da abertura, com o dedo do meio apontado ao espectador, enquanto o título surge na tela). Barbosa evita vitimizá-los, ou percebê-los como excessivamente frágeis. O olhar da direção jamais flerta com a condescendência.

Já os espaços se desenvolvem na condição de personagem à parte. Há profundo senso estético, e um rigor impressionante de luz e som, na criação deste onirismo terreno. Tanto as ruas quanto as saídas de edifícios combinam forte contraluz e uma fumaça, concebidas para destacar Marcelo no ambiente. Conforme iniciam sua aventura, os garotos visitam cenários indefinidos, mas amplos, misteriosos, ao exemplo da floresta bifurcada. Talvez a imagem mais impressionante se encontre nas vastas embarcações em scope, enquanto os personagens, ao centro, convergem para a amplitude fantástica da paisagem. O diretor possui um senso estético único na forma de olhar para ruas e rios — algo já percebido no excelente Cavalo (2021, co-dirigido com Werner Salles Bagetti). Talvez o pedido do título indique a própria necessidade destes personagens e destes espaços em ser descobertos pelo espectador.

“Essa casa tem quatro cantos / Cada canto tem uma flor / Nessa casa não entra maldade / Nessa casa só entra amor”. O canto entoado por Sandra e Ivan reforça o caráter fabular, próximo da compreensão infantil de perigo e proteção — há ecos de cautionary tale no horizonte. O filme transparece o prazer em se perder, em seguir sem rumo, tal qual seus personagens. O destino inevitável seria a morte, ainda que, neste caso, um homem possa morrer duas vezes, conforme se descreve numa carta. Enquanto isso, mulheres-macaco, criaturas da floresta e ninhos assombrosos atravessam estes personagens dispostos a caminhar em busca do desconhecido. O devaneio proposto por Barbosa reside precisamente nesta disposição nada espetacular, nem chocante, a abraçar as monstruosidades, interpretadas como fascinante diversidade. Todos os elementos da natureza e do além são retratados com igual respeito e ternura.

Por este motivo, a reação mais comum dos espectadores na saída da sessão, durante o Olhar de Cinema, foi de perplexidade. “Você entendeu?”. “Não sei bem se entendi”. Como é engraçada a nossa necessidade tão contemporânea de entender, decifrar, esmiuçar propósitos e mensagens, ao invés de nos perder no mar de estímulos propostos pelos criadores. Caso tivessem desejado uma explanação didática, teriam incluído tal revelação no desfecho. Em chave oposta, o diretor e sua equipe privilegiam o maravilhamento produzido pelos rituais religiosos de culturas específicas. Observamos com cuidado os gestos, as roupas, as cores, os sons. Talvez não identifiquemos cada elemento, nem discernamos ícone por ícone, por se tratar de uma crença diferente da nossa. Mas por que precisaríamos assimilar tudo de imediato? Ora, é possível que o prazer resida justamente na capacidade destas imagens e sons em ecoarem junto ao espectador, muito tempo depois, dialogando com nossa bagagem pessoal relacionada à alteridade, para fins de projeção e/ou identificação.

Assim, Olhe para Mim constitui um projeto importante na atual safra brasileira. Primeiro longa-metragem alagoano ficcional produzido por meio de editais — conforme lembraram os criadores durante a apresentação —, ele também expande a representação comum do queer, da natureza, do road movie, do religioso, do terror. O longa-metragem incorpora todos esses ingredientes numa medida própria. Não parece se encerrar em si próprio quando acaba a narrativa — pelo contrário, nos convida a decifrar o que acabamos de ver. Aqui, o espectador é colocado em posição ativa, intimado a participar, ao invés de ser contemplado passivamente em sua poltrona. Uma obra dotada de tamanha complexidade narrativa, e tal esmero de linguagem e estética, consiste num pássaro raro nas salas de cinema. Mas o longa-metragem provoca o deslumbramento típico de uma grande produção, a partir da ousadia comum às iniciativas mais independentes. Poucas combinações são tão valiosas quanto esta. 

Olhe para Mim (2026)
9
Nota 9/10

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