
“Irmã”, neste longa-metragem, se refere a duas acepções distintas: tanto de ordem imediata, relativa aos laços familiares, quanto aquela em conexão com as religiões neopentecostais, para as quais um irmão significa o membro da mesma congregação. Família e religião são indissociáveis nesta trajetória de uma jovem que escapa a um lar abusivo e, anos depois, envia uma carta de encorajamento à irmã menor. O pressuposto da carta narrada em off atravessa a integralidade da narrativa, como forma de se dirigir ao público em paralelo à comunicação íntima entre as protagonistas.
Logo, o aspecto confessional se mistura com um teor mais etéreo, como se a autora desta correspondência se dirigisse também a si própria, numa ruminação pessoal. “A mãe teve duas filhas, você e eu”, abre o texto, com uma informação que a remetente obviamente já conhece. Aos poucos, o texto se torna mais poético e filosófico, refletindo acerca de questões de autonomia e identidade, de amor familiar e necessidade de romper com laços abusivos. Felizmente, o conteúdo sonoro nunca repete aquilo que vemos em imagens, completando-as de maneira livre.
O diretor Anderson Bardot sempre gostou de um cinema altamente estilizado, passando pelos tons dourados de Inabitáveis (2020) e pelo preto e branco bastante contrastado de Procuro Teu Auxílio para Enterrar um Homem (2023). Agora, atinge o paroxismo desta abordagem performática, de máximo controle e ingerência no meio. O principal recurso da vez consiste na câmera lenta, que ocupa mais da metade das imagens de Irmã. Na alegria e na tristeza, na intimidade e na humilhação durante uma festa, os personagens posam, em sua versão mais bela, às necessidades da câmera.
Logo, mesmo a violência se faz sedutora e atraente. Um pai tenta afogar a filha pequena na cachoeira onde se batizou religiosamente — momento em que o dispositivo se deleita com cenas subaquáticas e referências ao útero materno. O tapa na cara ocorre em câmera lenta, assim como a fuga de casa. A adesão à abordagem do cineasta por parte do público depende sobretudo da capacidade de mergulhar numa estética que sobrepõe a liberdade experimental às cores fortes e composições típicas do videoclipe pop. Para o bem ou para o mal, uma agressão transfóbica e um trauma de infância nunca foram tão plasticamente elegantes.
Diretor de posicionamentos políticos fortes e impressionante criatividade, Bardot aparenta testar, em poucos anos, os limites desta investida posada, entre o fashion e o kitsch (linguagens que condizem, sem dúvida, com a estética neopentecostal). As imagens e sons chamam tanta atenção para si próprios — para a astúcia tanto do cineasta quanto da direção de fotografia e arte — que corre o risco de deixar em segundo plano as atuações, o aspecto humano, psicológico e intimista de uma jornada de superação. Cabe aos autores, a partir das próximas obras, pensarem no melhor equilíbrio entre forma e conteúdo, ou entre os prazeres da representação e a a subjetividade do objeto representado.




