Eloísa Joga (2025)

A ausência do ponto de vista

título original (ano)
Eloísa Joga (2025)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
18 minutos
direção
Yuri Rodrigues, Taís Melo
visto em
33º Festival de Vitória (2026)

Eloísa Joga constitui, por assim dizer, um filme sem conflito. A garota sonha em praticar futebol e, conforme sugere o título, assim o faz. Ela vai do treino para casa, e depois, para outro treino, e então, para os campeonatos. Dentro do São Paulo Futebol Clube, divisão sub-15, vence as quartas de final, a semifinal e a final do Campeonato Paulista. Fica feliz, e então vence jogos internacionais, que a deixam ainda mais feliz. Fim do filme.

A direção deixa seus objetivos bem claros. Valorize o futebol feminino; assista ao futebol feminino; divulgue o futebol feminino, clamam os letreiros finais. A própria presença destas declarações é curiosa, como se introduzissem um discurso que as imagens anteriores não tivessem conseguido transmitir por conta própria. Pois então, decide-se priorizar este esporte. Muito bem. Entretanto, diversas perguntas pairam em relação à proposta. Por que escolheram Eloísa em particular? O que a garota teria de especial, em relação às colegas? Seria mais talentosa? Teria algum diferencial em seu percurso de vida? Representaria alguma luta singular, algum sonho específico? Não se sabe.

O documentário se aproxima bastante da reportagem jornalística. Ele carece fortemente de um ponto de vista.

É difícil determinar ao certo o que os diretores Yuri Rodrigues e Taís Melo procuram transmitir através deste caso pontual. Várias abordagens seriam possíveis a partir de uma trajetória semelhante: as questões financeiras, raciais, de classe social; o preconceito frequente em relação ao futebol feminino; os treinos e a preparação física e mental; o equilíbrio entre esportes e estudos; o impacto na sociabilização da jovem; a vontade (consciente?) de compensar pelo sonho não-realizado do pai, etc. Ora, nada disso está presente no retrato tão otimista quanto liso, fácil, conveniente. Não há vida social, nem contextos sociopolíticos particulares, ao redor da atleta.

Por este motivo, o documentário se aproxima bastante da reportagem jornalística, cuja vocação seria de meramente constatar a existência de um fato. Existe uma garota jogadora, venha assistir. Não há problema algum em apontar tal feito, no entanto, o curta-metragem carece fortemente de um ponto de vista, de algo a dizer a partir deste caso. A descoberta de Eloísa poderia servir aos autores como ponto de partida para o discurso, porém, enfraquece a empreitada quando se limita igualmente ao ponto de chegada.

Assim, a competente captação de som, o trabalho muito eficaz de direção de fotografia e mesmo o ritmo agradável não ajudam a alavancar uma história que não sabe ao certo para onde vai. A este propósito, a narrativa se encerra com um aviso a respeito das vitórias mais recentes da adolescente no período em que a obra era finalizada, posto que não havia propriamente um destino a chegar. A trama poderia seguir indefinidamente ou, em chave oposta, se encerrar antes, sem prejuízo real ao resultado. Seria necessário aos criadores demonstrar maior preocupação com a linguagem do cinema e com o próprio conceito de direção, para além da evidente nobreza das intenções.

Eloísa Joga (2025)
3
Nota 3/10

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