Morfeu e Caronte (2026)

O show deve continuar

título original (ano)
Morfeu e Caronte (2026)
país
Brasil
gênero
Romance, Drama, Musical
duração
13 minutos
direção
Luiz Ulian, Jocimar Dias Jr.
elenco
Bayard Tonelli, Marco Canonici, Tony Reis, Edgar Bernardo, João Freire, Kaleb Lima, Matheus Rodelli, Peter, Zé Vitor Braga
visto em
33º Festival de Vitória (2026)

À primeira vista, é possível que Morfeu e Caronte se destaque por uma série de raridades: um filme a respeito de um trisal gay e idoso, formado por dois homens brancos e um negro, vivendo em um mundo de fantasia repleto de números musicais extravagantes. Eles cantam, dançam, e fazem sexo — às vezes, tudo isso ao mesmo tempo. Por sua própria existência, o curta-metragem dirigido por Luiz Ulian e Jocimar Dias Jr chama a atenção, e talvez pudesse se encerrar nos méritos de sua singular existência.

Entretanto, o projeto vai além. Primeiro, por desenvolver uma série de indícios simbólicos da passagem do tempo e da sua degradação. Logo, um relógio desenhado a mão adquire contornos cada vez menos precisos; as canções começam a travar e falhar. Algo não funciona neste corpo humano e neste corpo-musical. Se os protagonistas se esquecem ou se esvaem, a composição sonora adota o mesmo caminho. Por este motivo, a trilha sonora não apenas embeleza ou comenta a trama, mas também serve de representação direta da subjetividade dos protagonistas.

Segundo, por estimar que o sexo pode ser alegre; a morte pode ser poética; e os musicais americanos cafonas podem ser profundos. Nota-se o amplo respeito dos cineastas — dois experientes pesquisadores em musicais e cultura queer — a respeito de seus temas, razão pela qual evitam sem dificuldade a armadilha do mero pastiche. Embora estes homens estejam bastante maquiados, em trajes anacrônicos, e efetuando coreografias ensaiadas numa piscina, eles manifestam carinho genuíno um pelos outros. O espectador nunca é convidado a rir do trio, apenas da situação incomum na qual se inserem. O humor decorre, portanto, de um lugar de empatia, avesso ao exotismo ou paternalismo.

Não há musical, nem sexo, sem trabalho de corpo. Morfeu e Caronte compreende estas duas atividades enquanto coreografias.

Enfim, pela capacidade de retratar o ato sexual de maneira tão frontal quanto natural. Os cineastas colocam um sorriso nos lábios dos protagonistas no instante em que os corpos se beijam, se penetram e gozam juntos. A confluência entre afeto e libido constitui um gesto político em si própria, por evitar a dissociação moralista entre sentimentos e tesão. Não há musical, nem sexo, sem trabalho de corpo. Morfeu e Caronte compreende estas duas atividades enquanto coreografias, ou ainda, expressões de vontades e liberdades individuais. Há algo tão natural no ímpeto de sair dançando quanto de transar com quem se deseja. Neste sentido, a artificialidade voluntária das cores e figurinos se contrasta de maneira bastante eficaz com a perfeita banalidade do afeto entre os homens.

Por fim, estes representantes dos sonhos e da morte atribuem certa melancolia a um gênero de alegrias excessivas (inspiradas nos filmes de Busby Berkeley). A canção acapela, em solitário, oferece ao homem com demência o holofote desta trama que parte de uma coletividade esfuziante, até se isolar em grupos menores, e então, concluir-se num número solo de ordem confessional. Vive-se juntos, mas morre-se só — ou seria o contrário? Ulian e Dias Jr combinam estéticas e temáticas normalmente apartadas, em busca dos pontos de contato entre o respeito solene à finitude e a vibrante dinâmica das chanchadas e dos musicais hollywoodianos. Em consequência, as asperezas e estranhamentos se sobressaem enquanto convites à reflexão.

Morfeu e Caronte (2026)
8
Nota 8/10

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