
À primeira vista, é possível que Morfeu e Caronte se destaque por uma série de raridades: um filme a respeito de um trisal gay e idoso, formado por dois homens brancos e um negro, vivendo em um mundo de fantasia repleto de números musicais extravagantes. Eles cantam, dançam, e fazem sexo — às vezes, tudo isso ao mesmo tempo. Por sua própria existência, o curta-metragem dirigido por Luiz Ulian e Jocimar Dias Jr chama a atenção, e talvez pudesse se encerrar nos méritos de sua singular existência.
Entretanto, o projeto vai além. Primeiro, por desenvolver uma série de indícios simbólicos da passagem do tempo e da sua degradação. Logo, um relógio desenhado a mão adquire contornos cada vez menos precisos; as canções começam a travar e falhar. Algo não funciona neste corpo humano e neste corpo-musical. Se os protagonistas se esquecem ou se esvaem, a composição sonora adota o mesmo caminho. Por este motivo, a trilha sonora não apenas embeleza ou comenta a trama, mas também serve de representação direta da subjetividade dos protagonistas.
Segundo, por estimar que o sexo pode ser alegre; a morte pode ser poética; e os musicais americanos cafonas podem ser profundos. Nota-se o amplo respeito dos cineastas — dois experientes pesquisadores em musicais e cultura queer — a respeito de seus temas, razão pela qual evitam sem dificuldade a armadilha do mero pastiche. Embora estes homens estejam bastante maquiados, em trajes anacrônicos, e efetuando coreografias ensaiadas numa piscina, eles manifestam carinho genuíno um pelos outros. O espectador nunca é convidado a rir do trio, apenas da situação incomum na qual se inserem. O humor decorre, portanto, de um lugar de empatia, avesso ao exotismo ou paternalismo.
Não há musical, nem sexo, sem trabalho de corpo. Morfeu e Caronte compreende estas duas atividades enquanto coreografias.
Enfim, pela capacidade de retratar o ato sexual de maneira tão frontal quanto natural. Os cineastas colocam um sorriso nos lábios dos protagonistas no instante em que os corpos se beijam, se penetram e gozam juntos. A confluência entre afeto e libido constitui um gesto político em si própria, por evitar a dissociação moralista entre sentimentos e tesão. Não há musical, nem sexo, sem trabalho de corpo. Morfeu e Caronte compreende estas duas atividades enquanto coreografias, ou ainda, expressões de vontades e liberdades individuais. Há algo tão natural no ímpeto de sair dançando quanto de transar com quem se deseja. Neste sentido, a artificialidade voluntária das cores e figurinos se contrasta de maneira bastante eficaz com a perfeita banalidade do afeto entre os homens.
Por fim, estes representantes dos sonhos e da morte atribuem certa melancolia a um gênero de alegrias excessivas (inspiradas nos filmes de Busby Berkeley). A canção acapela, em solitário, oferece ao homem com demência o holofote desta trama que parte de uma coletividade esfuziante, até se isolar em grupos menores, e então, concluir-se num número solo de ordem confessional. Vive-se juntos, mas morre-se só — ou seria o contrário? Ulian e Dias Jr combinam estéticas e temáticas normalmente apartadas, em busca dos pontos de contato entre o respeito solene à finitude e a vibrante dinâmica das chanchadas e dos musicais hollywoodianos. Em consequência, as asperezas e estranhamentos se sobressaem enquanto convites à reflexão.




