Mercado Central (2025)

O palco da morte

título original (ano)
Mercado Central (2025)
país
Brasil
gênero
Terror
duração
16 minutos
direção
Tássia Dhur
elenco
Tássia Dhur, Lauande Aires, Quimera, Renata Figueiredo, Antônio Garcia
visto em
33º Festival de Vitória (2026)

O mercado do título possui uma atmosfera de arena. Qualquer um está livre para adentrar aquele espaço, sobretudo, no intuito de acertar contas com seus desafetos e se insinuar para seu objeto de desejo. Os ratos invadem o chão; os bêbados caminham pelos corredores; os sacos de lixo passam na mão dos funcionários. Entre os pedaços de carne pingando sobre as mesas, algumas pessoas começam a desaparecer. Ninguém suspeita da origem destes crimes. Mas, ali, carne é carne, e tudo que se destrói, também se consome — seja pelos abutres, seja por humanos zumbificados ao lado do lixão.

A diretora Tássia Dhur demonstra um vigor impressionante neste projeto. Abraça com igual intensidade o sexo e a morte, ou ainda, a vida e sua finitude. Mulheres dão à luz sobre a mesa do açougue; e sujeitos asquerosos atacam as moças pelos cantos. No comércio vazio, a funcionária corta os pêlos pubianos à vista de qualquer passante. O roteiro se delicia com certa ideia de sujeira, tanto moral quanto física. Para representar sujeitos amorais, assassinos e abusadores, impera a estética da imundície. 

Mesmo assim, a cineasta nunca condena estes personagens, pelo contrário. Demonstra fascinação pela capacidade do grupo em concretizar seus impulsos sem nenhuma perseguição, nem condenação. Por mais insalubre que seja o local, ele constitui o palco onde todos os desejos são permitidos, algo que soa irresistível aos seus participantes. Por este motivo, a bela direção de fotografia circunda os personagens, buscando os corpos, a pele, as cores fortes. Deseja penetrar o espaço com a mesma violência que os trabalhadores e clientes atacam-se uns aos outros.

Por mais insalubre que seja o local, ele constitui o palco onde todos os desejos são permitidos.

Dhur oferece a si própria o papel central, que desempenha com impressionante desenvoltura. Ela está confortável nesta composição meio naturalista, meio excessiva. Enquanto alguns teóricos do cinema pesquisam as fronteiras entre o real e o fantástico, outros estudam o dito hiperrealismo, no qual as ferramentas do realismo social se fazem ainda mais intensas, ao limite do grotesco (ao invés do lúdico). Este seria o registro pelo qual navega a autora maranhense — mesmo que as criaturas animalescas do lixão estejam mais próximas do cenário de distopia e ficção científica.

Mercado Central possui algumas asperezas. Há personagens em excesso, que a direção nem sempre controla a contento. Alguns coadjuvantes tropeçam nas falas, algo abraçado pela montagem. Entretanto, a hesitação de uma conversa natural possui teor bastante diferente de um ator engasgando no diálogos. Rumo ao final, figuras secundárias (o namorado que abandonou a esposa) ganham mais atenção do que aqueles apresentados, até então, como essenciais (a amiga da protagonista, vivida por Quimera). A própria denominação de uma serial killer soa forçada diante dos poucos casos retratados na narrativa. Os conflitos quase se atropelam na curta duração.

Entretanto, em meio a um festival com 80 curtas-metragens exibidos, o projeto maranhense se sobressai, e permanece na memória. Distingue-se de tantos filmes esforçados em agradar, ou acomodados a certa modéstia da produção de baixo orçamento. Ora, a autora transparece ousadia e pulso firme, além do gosto louvável pela potência social e estética do cinema de gênero. Por isso, desperta forte interesse quanto aos seus próximos passos como atriz e cineasta.

Mercado Central (2025)
7
Nota 7/10

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