Vitória da Paz (2026)

A cara do heroísmo

título original (ano)
Vitória da Paz (2026)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
93 minutos
direção
Ricardo Calil, Dudu Levy, Fábio Gusmão
visto em
50ª Mostra de São Paulo (2026)

A história de Dona Vitória já foi muito discutida na imprensa e nas artes. Os jornais se deliciaram com a trama improvável de uma mulher solitária que, inconformada com o tráfico de drogas a céu aberto, em frente ao seu apartamento, filmou os infratores para enviar as fitas aos jornalistas. O contraponto entre a expectativa de docilidade de uma avó, e a maneira agressiva como captava seus adversários com uma câmera amadora (muitas vezes, gritando contra eles na janela) desperta o interesse central desta jornada de exceção. A trama deu origem ao bem-sucedido Vitória (2025), drama dirigido por Andrucha Waddington, e estrelado por Fernanda Montenegro. 

Agora, o documentário dirigido por Ricardo Calil, Dudu Levy e Fábio Gusmão decide se voltar aos fatos. Para além do sensacionalismo e da excentricidade, houve uma senhora de passado traumático, que encontrou na denúncia do tráfico uma válvula de escape para seus sentimentos. Mesmo dentro de casa, ela pertencia à sociedade e intervinha diretamente nela, por meio das filmagens efetuadas entre 2003 e 2005. Em consequência, permaneceu durante muitos anos em serviços de proteção à testemunha, antes de ter o verdadeiro nome revelado: Joana Zeferino da Paz. Os autores se dedicam então a investigar a personalidade desta mulher, além de suas motivações para atos tão incomuns. Estudam, em paralelo, o poder da imagem enquanto prova, numa época em que ainda não podia ser falseada com a mesma facilidade dos nossos dias. Buscam homenagear os responsáveis pela façanha policial realizada, em grande parte, por iniciativa civil.

Enquanto construção de ritmo e de narrativa, Vitória da Paz se sai muito bem, [mas] se enfraquece devido à insistência em enxergar o caso pelo prisma do heroísmo.

Os cineasta encontram um desafio considerável diante dos 17 anos de anonimato da personagem. Posto que Vitória filmava a partir de seu olhar, num ponto de vista subjetivo, não víamos seu rosto. Assim, como o espectador desconhecia o rosto (e a pele negra) desta mulher durante tanto tempo, o longa-metragem estima necessário efetuar um caminho semelhante, desenhando a personalidade de uma protagonista que não vemos. A narrativa se empenha em gerar empatia em torno de um nome, um imaginário de mulher, desprovido de expressões faciais. Contamos apenas com a voz dela, gravada nos áudios, além dos depoimentos pitorescos de jornalistas e pessoas próximas. Desta forma, transmite-se todo o senso de humor, e também o ímpeto de provocação, da mulher descrita como explosiva e encrenqueira.

Logo, o projeto conta com muitas imagens de arquivo, porém, poucos registros de sua protagonista. Inicialmente, explica em detalhes ao espectador suas intenções, de que forma obteve os registros, e por que reproduziu nas entrevistas contemporâneas a pixelização do vídeo de antigamente. Por um lado, percebe-se um bem-vindo senso de coesão estética entre os registros — afinal, as filmagens atuais, efetuadas com uma câmera idêntica àquela de Vitória, assemelham-se aos registros da personagem. Por outro, incomoda a tendência em transformar todo documentário em sua “versão comentada”, seu próprio making of. O caráter didático se acentua quando os criadores pontuam objetivos, metodologia e hipóteses desde o princípio. Isso não deveria estar claro pelas próprias imagens e sons? Por que os novos autores se sentem devedores de tantas explicações ao espectador?

Enquanto construção de ritmo e de narrativa, Vitória da Paz se sai muito bem. Excetuando algumas comparações forçadas (“Aquilo é Hitchcock puro. De certa maneira, [Vitória] está com as duas pernas quebradas”, em referência a Janela Indiscreta), o percurso pontua de maneira bastante eficaz os principais momentos desta jornada, assim como a relação de afronta da mulher com o meio ao redor. Estabelece um paralelo clássico, embora pertinente, entre a arma e a filmadora (na convergência do verbo to shoot, ou seja, atirar/filmar). Sobretudo, impregna de humor e leveza este episódio tenso, graças aos absurdos da situação: o tráfico escancarado, os xingamentos e pedras disparados pela idosa, a recusa em participar do programa de proteção às testemunhas e manter o anonimato. O filme se torna divertido em função da personalidade insólita da senhora, e das consequências tão concretas de atitudes que soavam, a princípio, como mera rebeldia.

Em contrapartida, o resultado se enfraquece devido à insistência em enxergar o caso pelo prisma do mérito individual. Os criadores sublinham o heroísmo dela, dos agentes encarregados de sua proteção, e dos jornalistas envolvidos. Reforçam que este seria o verdadeiro patriotismo, o amor real pela nação. Em tempos de disputa de narrativas quanto ao termo patriotismo, a obra mergulha em campos ideologicamente ambíguos ao insinuar que Vitória seria ainda mais patriota devido à jaqueta verde e amarela, e à bandeira do Brasil em sua casa. A denúncia dos jovens traficantes estaria ligada à justiça social ou ao senso de punitivismo típico da direita? Seria uma preocupação com o bem-estar dos moradores nas comunidades, ou somente um grito contra a “bandidagem” em sua acepção mais genérica?

O roteiro preserva frases laudatórias: “Dona Vitória era uma encrenqueira pelo bem da humanidade”; “Ela tinha um amor muito grande pelo Brasil”. Até um dos traficantes filmados por ela, hoje afastado do crime, é surpreendentemente chamado às entrevistas, para endeusá-la: “Ela salvou a minha vida”, atesta o rapaz, que tinha certeza de sua morte precoce caso não fosse preso e afastado daquele meio. Afinal, segundo ele, “melhor preso que morto”. O discurso ainda reforça a força de vontade e a preocupação ética impecável dos jornalistas envolvidos (um deles, Fábio Gusmão, também dirige este filme autoelogioso), em paralelo ao funcionamento ideal do serviço de proteção. Vitória queria bem ao Brasil, e todos lhe queriam bem em retorno. Neste projeto, alguns homens sensíveis, convertidos em filhos postiços, choram ao se lembrar da idosa elevada à condição de ícone nacional.

Logo, alguns filmes a respeito de ídolos da nação se esforçam em retratar o indivíduo por trás da persona pública. Insistem que, na verdade, tratavam-se de homens e mulheres comuns, com ambições comuns, e um cotidiano próximo do nosso. Procuram criar, desta forma, um senso de identificação. Vitória da Paz efetua o caminho oposto, apropriando-se da mulher cotidiana para reforçar que, caso não se saiba, ela era uma verdadeira heroína na guerra contra as drogas no Brasil. Uma figura que arriscou a própria vida em sua denúncia contra o crime. Uma guerreira, uma santa, tendo salvado a vida dos mesmos homens que entregou à justiça. Por mais agradável e informativo que seja o projeto, ainda paira a dúvida se a construção dos heroísmos, e a hipervalorização do patriotismo, compreendido enquanto combate ao crime a qualquer custo, corresponde à melhor maneira de pensar as contradições sociais brasileiras.

Vitória da Paz (2026)
6.1
Nota 6/10

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