And, Towards Happy Alleys (2023)

A poesia dos oprimidos

título original (ano)
And, Towards Happy Alleys (2023)
país
Índia
linguagem
Documentário
duração
75 minutos
direção
Sreemoyee Singh
com
Jafar Panahi, Nasrin Soutodeh, Jinous Nazokkar, Farhad Kheradmand, Aida Mohammadkhani, Mina Mohammadkhani, Mohammad Shirvani, Maede, Sreemoyee Singh
visto em
73º Festival de Cinema de Berlim

À primeira vista, este documentário desperta uma impressão ambígua. Através de uma captação digital de baixa qualidade, a indiana Sreemoyee Singh revela sua paixão pela poesia iraniana, a descoberta da poeta feminista Forough Farrokhzad, os estudos de língua farsi, a paixão pela música. A diretora se coloca em cena como uma fã de Jafar Panahi, Mohsen Makhmalbaf e Abbas Kiarostami, ou ainda uma mera aprendiz que teria viajado ao país próximo na intenção de aprender mais sobre a sétima arte.

Esta humildade parece diminuir sua posição, colocando-se hierarquicamente abaixo do tema escolhido. Ela se sente pequena próximo aos ídolos que aceitam conversar com ela — em especial, Jafar Panahi, que burla a proibição de entrevistas para conduzi-la aos quatro cantos de Teerã, durante dias. A jovem tenta conversar com Kiarostami, mas enquanto espera uma resposta, recebe a notícia do falecimento do autor. Há uma postura de cinefilia, algo que raramente ajuda a obter um ponto de vista aprofundado. Afinal, a admiração costuma produzir obras romantizadas e idealizadas, ao invés de estudos de caso.

No entanto, And, Towards Happy Alleys começa a mostrar que o pressuposto da aluna de cinema face aos professores constitui uma autoficcionalização, mais do que uma condição real. Singh sabe muito bem o que faz, e propõe uma costura nada amadora entre poesia farsi, tradição cinematográfica iraniana, censura ao cinema e opressão ao corpo feminino. Na curta duração de 75 minutos, consegue aproximar estes temas de maneira livre, porém coesa. A narrativa propõe um mosaico da sociedade iraniana, onde a bela liberdade da arte se opõe aos laços castradores do regime.

É louvável que a obra se inicie com duas formas diferentes de apreciar a poesia de Forough Farrokhzad: via leitura, através de trechos selecionados e apresentados em letreiros; e via som, por meio de uma narração em off. A descoberta audiovisual do trabalho desta artista ocorre por sua arte, em detrimento de sua morte ou sua vida pessoal. Após tantos filmes sobre artistas que não apreciavam de fato a produção dos personagens (vide Ingeborg Bachmann: Journey Into the Desert e Art College 1994), chega um documentário capaz de entender que a memória da poetisa passa, necessariamente, pela apreciação de seus escritos.

Singh propõe uma costura entre poesia farsi, tradição cinematográfica iraniana, censura ao cinema e opressão ao corpo feminino.

A memória, precisamente, constitui o tema central do filme, além de ser a palavra repetida o maior número de vezes ao longo das entrevistas. Singh, enquanto personagem, coloca-se em cena, tanto conversando quanto cantando aos colegas, e afirma querer “produzir memória para trazer para casa”. Por isso, dialoga com cineastas, visita sets de filmagem, reencontra atrizes mirins dos filmes de Farhadi, visita a rua onde mulheres protestaram sem véu contra o governo iraniano, até serem presas. A ideia de “turismo” por Teerã se prova nada inocente, pelo contrário: trata-se de um passeio político-cultural através das contradições de um país que, apesar da repressão, segue produzindo arte de altíssimo nível, há diversas gerações.

A opressão se torna um tema recorrente ao longa da trama, ainda que pelas frestas. Mina Mohammadkhani, atriz mirim de O Espelho (1997), fica chocada ao encontrar Jafar Panahi, artista condenado à prisão domiciliar, dirigindo pela cidade. “Mas você pode vir até aqui?”. Quando ele faz um movimento para lhe beijar a bochecha, a mulher se afasta, assustada: “E se tiver polícia em frente?”. O próprio Panahi confessa sua tentativa de suicídio, após a prisão. Já Mohammad Shirvani percebe que, cada vez que começa a discutir erotismo e sexualidade em sua entrevista, o vizinho liga uma serra elétrica extremamente ruidosa, que interrompe a fala. Há uma noção de perigo, uma ameaça de serem observados por todos os cantos.

Isso não impede que And, Towards Happy Alleys possua um ritmo bastante agradável, até muito divertido. A leveza se deve sobretudo à capacidade da diretora em ressignificar as cenas enquanto acontecem, incorporando o acaso de maneira dramaticamente frutífera. Por exemplo, enquanto um personagem canta uma música, outros começam a cortar uma árvore atrás dele. A sequência se torna a conjunção entre ambos, com pedaços de madeira caindo sobre o chapéu do músico. 

Ao visitar uma loja de óculos com Farhadi, o vendedor pede que a indiana revele seu conhecimento de música farsi, e cante para eles. Assim, o cineasta prova óculos escuros enquanto a cantoria toma conta do ambiente. O diretor fecha as portas da loja, supostamente para “melhorar a qualidade do som”. Adiante, admite que tinha medo de ver pessoas se reunindo na porta da loja, num grupo grande — algo proibido por lei. A experiência se alterna a todo momento entre a alegria e o medo. Esta montanha-russa de sentimentos garante uma comunicação ímpar com o público, a quem se solicita que simpatize e tema pelas mesmas situações.

A discussão se estende à pressão suplementar exercida sobre a aparência das mulheres. Diversos políticos e artistas enxergam uma violência de Estado apenas nas prisões arbitrárias e na obrigação de cobrir o corpo e os cabelos em público. Singh sugere que a obsessão pela bela aparência das filhas e esposas representa uma violência análoga. Em consequência, aprende que Teerã constitui “a meca da rinoplastia”, e reúne-se com mulheres que sofrem pressão para adequarem seus rostos ao padrão exigido socialmente — não por acaso, a única parte do corpo que permanece visível em público.

É verdade que nenhum destes tópicos se aprofunda a ponto de trazer revelações ou reflexões particularmente complexas. A montagem salta com rapidez entre uma ideia e outra, e se sai melhor na capacidade de associação do que na profundidade da análise. Mesmo assim, forma um rico panorama do Irã, por um ponto de vista assumidamente estrangeiro e admirador. A cineasta reserva para a cena final um dos melhores instantes do longa-metragem, quando sua função, enquanto personagem, se junta à poesia num símbolo da liberdade feminina. 

De maneira quase espontânea, como a maioria das cenas do filme, encontra a pequena sequência capaz de condensar seus principais temas e centros de interesse, de modo divertido e dramático; belo e politicamente incisivo. A maneira de filmar pode parecer simples, com alguns problemas de montagem e som aqui e acolá. No entanto, ele jamais será ingênuo, nem pueril. Existe um precioso refinamento do olhar neste encontro entre culturas.

And, Towards Happy Alleys (2023)
7
Nota 7/10

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