Apolo de Dia Atena de Noite (2024)

Turismo fantasma

título original (ano)
Gündüz Apollon Gece Athena (2025)
país
Turquia
gênero
Drama, Comédia, Fantasia
duração
112 minutos
direção
Emine Yıldırım
elenco
Ezgi̇ Çeli̇k, Barış Gönenen, Selen Uçer, Gi̇zem Bi̇lgen, Lale Mansur, Deni̇z Türkali̇, Meli̇h Düzenli̇, Neyra Kayabaşı
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

Dois meses atrás, Defne (Ezgi̇ Çeli̇k) começou a ver pessoas mortas. Ignora-se como o incidente tenha acontecido, ao certo — aparentemente, ela foi atingida por um botijão de gás, ou algo semelhante —, no entanto, o dom repentino não provocou surpresa, nem empolgação. Com um semblante indiferente, ela começa a percorrer os arredores de Side em busca da mãe morta. Seu único indício se encontra numa antiga fotografia da mulher, com o rosto parcialmente coberto, diante de uma árvore da região. Sabemos disso porque a própria personagem nos explica suas origens e motivações, desde a cena inicial: “Estou há dois meses na estrada. Meu dinheiro está acabando. Não posso voltar sem te encontrar”

Como se percebe, Apolo de Dia Atena de Noite (assim mesmo, sem qualquer pontuação) mostra-se bastante direto na abordagem, fugindo tanto aos psicologismos quanto à história pregressa. Em sua estreia na direção de longas-metragens, Emine Yıldırım, uma comediante de stand-up, oferece um tipo muito curioso de humor. Afinal, os encontros da heroína com fantasmas se assemelham ao início das piadas envolvendo tipos bastante codificados: “Uma musa da antiguidade, uma prostituta e um militante entram num bar…”. Cabe à viajante egoísta compreender as necessidades de cada morto e atendê-las, para que possam, enfim, se despedir do plano terreno.

Emine Yıldırım mostra-se indecisa entre rir destes personagens patéticos e acolhê-los. Enquanto isso, os atores parecem calibrados para filmes distintos, e incompatíveis entre si.

Outro propósito evidente desta jornada consiste em tornar Defne uma pessoa melhor. Descrita como arrogante e pouco empática, ela lidera este road movie errante, vagando pela bela cidade até se humanizar. Conforme é pressionada pelas demandas dos fantasmas, compreende a necessidade de escutar os outros, valorizar as diferenças, e se solidarizar com causas alheias à sua. Trata-se de um percurso de redenção e conciliação, em chave hollywoodiana, ou mesmo cristã — nada mais convencional do que uma garota buscando pela mãe, acertando as contas com o passado e semeando o bem pelo caminho.

Em paralelo, o longa-metragem se esforça em valorizar o patrimônio histórico de Side. Não será uma surpresa se o projeto for parcialmente incentivado pela secretaria local de turismo, tamanho o empenho em inserir a jovem entre arenas, museus e estátuas, refletindo acerca da vida e da morte, da perenidade e da efemeridade. A direção de fotografia filma incontáveis cenas dos personagens admirando o pôr do sol no mar, ou caminhando rumo às águas durante o nascer do sol (ao limite do paródico), sem falar na insistência em posicionar, discretamente, musas e deusas no fundo dos quadros, vigiando e protegendo estas pessoas tão falhas.

De certo modo, a obra sofre com esta indefinição de tons. Para um filme tão brusco em sua condução da narrativa e dos personagens, surpreende que a direção se mostre indecisa entre o humor jocoso, o romance (com o sidekick fantasma de nome Hüseyin), o road movie e o drama religioso de purificação dos pecadores. Ora a condução acredita na gravidade de seus conflitos (a presença do fantasma opressor do marido morto), ora não se leva nada a sério (a pousada cuja única hóspede é Defne). Às vezes, o roteiro acredita na necessidade de valorizar os laços profundos de amor e amizade (a tristeza de Hüseyin, incapaz de abraçar a protagonista) porém, em outras ocasiões, brinca com esta carga emocional (chegada a hora do tão-aguardado encontro com a mãe, Defne desloca-se com um ar despojado, sem pressa, escutando música e fazendo pausas para rearranjar móveis).

“Pessoas como nós estamos em todos os lugares. Só pedimos que escutem as nossas histórias. Cuidem de nós, assim como cuidamos de vocês”. Esta narração lacrimosa, rumo à conclusão, basicamente explica aquilo que a narrativa vinha descrevendo, de modo suficientemente claro, ao longo de praticamente duas horas. O discurso prega a união entre vivos e mortos, e também, entre parentes separados, custe o que custar. Isso implica no tradicional final feliz onde tudo se acerta, magicamente: familiares que se odiavam abraçam-se; mãe e filha afastadas reatam; cada fantasma obtém exatamente seu objetivo inicial, e todos vivem felizes para sempre. Nada se assemelha mais a uma telenovela do que esta disposição forçada ao otimismo de conveniência, resolvendo pendências antigas (algumas delas, de séculos atrás) num piscar de olhos, pela simples vontade de fazê-lo.

Enquanto isso, os atores parecem calibrados para filmes distintos, e incompatíveis entre si. Ezgi̇ Çeli̇k constitui uma caricatura da garota da cidade, apática a princípio, enquanto Barış Gönenen carrega seu personagem com tamanho afeto no olhar, que parece integrar sua própria versão de Cidade dos Anjos, ou Ghost: Do Outro Lado da Vida. Já a pobre Selen Uçer fica presa à tarefa ingrata de encarnar a prostituta vulgar e encrenqueira — há preconceito mais enraizado do que utilizar trabalhadoras do sexo enquanto motivos de escárnio? Completando o quarteto, Gi̇zem Bi̇lgen, encarnando uma personagem emudecida, carrega nos ares etéreos esperados de uma musa, enquanto performa uma “dança da telecinese” que surte efeito nulo na trama.

Por fim, Apolo de Dia Atena de Noite ressente-se de uma elaboração conceitual mais aprimorada. Ele nunca sabe ao certo qual tipo de obra deseja ser, nem a qual público gostaria de apelar. Ora trata seu espectador como inculto e deslumbrado, esfregando em nossos olhos e ouvidos alguns ensinamentos de autoajuda, e belezas convenientes de cartão postal. Em outras ocasiões, pretende dizer algo complexo a respeito do patrimônio nacional, dos valores da Antiguidade e da mitologia na Turquia. Emine Yıldırım mostra-se indecisa entre rir destes personagens patéticos e acolhê-los; entre manifestar uma compreensão de suas dores, ou ridicularizar as jornadas de cada um. O filme se mostra tão perdido quanto estes vivos e mortos, perambulando sem rumo. Falta muito, em termos de estrutura e mise en scène, para transformar este singelo melodrama dos deuses na homenagem mitológica que pretende constituir.

Apolo de Dia Atena de Noite (2024)
3
Nota 3/10

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