Atravessa Minha Carne (2025)

Audiovideodançante

título original (ano)
Atravessa Minha Carne (2025)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
83 minutos
direção
Marcela Borela
com
Andrey Alves, Carolina Ribeiro, Daniel Calvet, Flora Maria, João Paulo Gross, José Vilaça, Marcos Buiati, Martha Cano, Paula Machado, Valeska Gonçalves, Henrique Rodovalho
visto em
58º Festival de Brasília (2025)

Uma dançarina efetua sua coreografia diante das câmeras. Ela agita o vestido pelos ares, ampliando a impressão de movimento. Diversas cores são projetadas sobre o tecido, de modo a favorecer um espetáculo de grandes proporções, buscando impressionar o público. (Não por acaso, a aparição da mulher ocorre logo após um número envolvendo tigres treinados). Atravessa Minha Carne se abre com a lembrança do cinema mudo e seus primeiros filmes de atrações, nos quais os fluxos do corpo ajudavam a propagandear as maravilhas daquela arte recente, marcada pela novidade da imagem em movimento.

Esta abertura serve, em paralelo, a recordar que o cinema sempre foi fascinado pela dança. A narratividade, a noção de mise en scène e o foco no corpo humano aproximam ambas as formas de expressão, permitindo cruzamentos frutíferos que a diretora Marcela Borela — ela mesma, ex-dançarina — pretende ressaltar. O documentário se assume orgulhosamente como um “filme de dança”, conforme explicou a cineasta durante a apresentação no Cine Brasília. Por isso, ele acompanhou os trabalhos da Quasar Cia de Dança, em Goiás, conforme preparavam o espetáculo Por 7 Vezes em 2013.

Alguns caminhos teriam sido evidentes: um deles reside na observação de mínima intervenção possível, optando pelo plano aberto e fixo para contemplar os dançarinos efetuando a sua arte. Carlos Saura investiu diversas vezes nesta relação quase sepulcral com a dança. Outra possibilidade se encontraria no olhar à Quasar enquanto instituição, nos moldes de Frederick Wiseman. O cineasta norte-americano filmaria as danças, mas também as reuniões de diretores, os faxineiros, os corredores vazio e a estrutura do prédio, numa perspectiva distanciada à empresa enquanto protagonista. Felizmente, a cineasta busca um caminho próprio, bastante diferente de ambos.

Atravessa Minha Carne combina a potencialidade única da dança com as ferramentas específicas do cinema.

Borela foge à armadilha de coincidir o olhar da câmera com aquele do público — um posicionamento determinante para o sucesso da empreitada. Isso significa evitar o enquadramento posicionado junto à plateia, observando estoicamente o palco. Aqui, o dispositivo baila junto de seus personagens. Durante as coreografias, os planos do diretor de fotografia Vinícius Berger se aproximam, priorizando detalhes de mãos, pés, ou do emaranhado indistinto de corpos durante as representações poéticas de brigas no palco. Assim, os criadores proporcionam um ponto de vista impossível de obter por qualquer registro de captação diferente do cinema. Nenhum espectador do espetáculo de dança, e nenhum criador, observou as coreografias tais quais Borela e sua equipe as registraram.

Em paralelo, a autora intervém no cotidiano da companhia de modo a converter a apresentação em sua própria construção estética. A opção pelo preto e branco nos afasta do realismo, além de favorecer as formas e geometrias dos corpos com seus “uniformes” negros. Já a trilha sonora modifica a música ensaiada originalmente pela companhia. É possível que a escolha decorra de uma simples necessidade de produção — a dificuldade de arcar com os direitos autorais da trilha sonora original, por exemplo. De qualquer modo, a ingerência na música leva a autora a dissociar radicalmente som e imagem, sobrepondo, por exemplo, as indicações do coreógrafo Henrique Rodovalho à conversa entre duas dançarinas. Trilhas e estímulos desconexos provocam estranhamentos férteis, por nos obrigarem a decifrar a dinâmica dos corpos numa disposição particular do tempo e do espaço.

Estas manipulações da dança, tornada matéria-prima do cinema, aproximam a diretora de uma coreógrafa audiovisual, moldando a imagem dos corpos às vontades e conexões desejadas. Atravessa Minha Carne se torna ainda mais potente por combinar os fragmentos da Quasar Cia de Dança com os trechos do cinema mudo, com abstrações geométricas, e mesmo fragmentos de flores, plantas e lagartas, cujos movimentos particulares se assemelham à gestualidade característica da dança contemporânea. Ao invés de tomar o espetáculo Por 7 Vezes por finalidade, ou o grupo como uma organização a homenagear, a montagem trabalha estes registros na condição de meios para o desenvolvimento de uma configuração pessoal. Trabalha-se em bela chave dialética, apropriando-se da dança enquanto tese, do cinema como antítese, e atingindo esta forma próxima do experimental, em proposta de síntese.

Surpreende que, apesar de tantas liberdades em relação à narrativa, o documentário ainda sustente um esqueleto cronológico e linear: a narrativa se inicia na preparação do palco vazio, passando pelos ensaios, o aquecimento, o trabalho de figurinos, até a apresentação à plateia no final. Por trás do gesto autoral, reside a vontade sincera de valorizar o trabalho destes coreógrafos, dançarinos, figurinistas e demais artistas da luz e do som, observando a arte enquanto processo criativo, e enxergando a dança na condição de ofício. Cada pesquisa de movimentos, e cada tecido alinhado pela máquina de costura, ressalta o trabalho especializado, dedicado, aprimorado, possível apenas graças a um senso de comunidade — todos trabalhando para o mesmo ideal.

O resultado está repleto de sequências preciosíssimas. Borela demonstra rara qualidade de cronista ao observar, com cuidado de composição, o aquecimento-ensaio da dançarina dentro do ateliê de figurinos. Já o ensaio da briga, quando se testa os limites da representação da violência entre homem e mulher, proporciona mais um fragmento de notável beleza e cuidado. Nesta hora, o diretor estimula seus artistas, testa seu conforto com tais movimentos, embora também respeite as apreensões de um e de outro. Somente na conclusão, com a apresentação final, descobrimos a profunda carga erótica decorrente dos embates entre corpos. 

Por fim, Atravessa Minha Carne combina a potencialidade única da dança com as ferramentas específicas do cinema. Explora a singularidade de uma linguagem para reforçar a potência da outra, num gesto muito mais refletido, e conceitualmente interessante, do que apenas constatar a existência de um espetáculo. O cinema se torna um bailarino suplementar, uma presença física no palco, mergulhando na dinâmica dos corpos, chocando-se com eles — e levando o público junto, por extensão. Em sua simplicidade, demonstra impressionante vigor de fotografia, direção e, sobretudo, montagem — no que se percebe a facilidade de Henrique Borela e Rafael Parrode, ambos cineastas, com o uso de materiais de arquivo.

Em chave pessoal, pode-se dizer que uma prova da deliciosa experiência decorra da surpresa ao término do filme. A sessão parece acabar cedo, sinal de que os 83 minutos passaram com rapidez, e que os olhos e ouvidos teriam amado provar mais um pouco das danças da Quasar, além da captação particular de Borela e sua equipe. Longe de esgotar o processo criativo dos dançarinos, o cinema serve como porta de entrada, despertando vontade de conhecer melhor este e de outros espetáculos. Transmite-se uma vivacidade e um afeto palpáveis ao trabalho da Quasar. O título visceral (nos sentidos artístico e erótico do termo) escancaram tamanho engajamento.

PS: A cópia apresentada ao público no Cine Brasília trazia um elemento incômodo: as legendas em inglês. É claro que estas precisam estar presentes, no entanto, foram apresentadas em tamanho exagerado, superior ao normal, e, pior ainda, em posição quase central na imagem, ao invés de permanecerem no canto inferior. Como resultado, atrapalharam a imersão em cenas tão bonitas, posto que as enormes palavras brancas chamavam mais atenção para si do que os corpos, em luz natural, atrás delas. Seria interessante rever esta disposição para as exibições seguintes.

Atravessa Minha Carne (2025)
9
Nota 9/10

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