Maré Viva, Maré Morta (2025)

As protetoras do atol

título original (ano)
Maré Viva, Maré Morta (2025)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
101 minutos
direção
Claudia Daibert
com
Maria Bernadete Barbosa, Maurizélia Brito
visto em
58º Festival de Brasília (2025)

Maré Viva, Maré Morta desperta algumas apreensões iniciais. Por abordar diretamente o funcionamento do ICMBio, contendo o logo da organização entre os créditos finais, soa como uma iniciativa institucional — um filme para valorizar e defender o trabalho do instituto. Isso impediria, é claro, a abordagem de críticas ou questionamentos à organização. Além disso, a multiplicação de cenas da natureza, incluindo incontáveis capturas de drones pela paisagem do arquipélago de Abrolhos, aproxima a linguagem do panfleto turístico, destinado sobretudo a atrair novos frequentadores.

Mesmo as falas iniciais de Maria Bernadete Barbosa e Maurizélia Brito suscitam algum ceticismo em relação aos propósitos da produção. Elas se apresentam via narração em off, de modo tradicional, e passam a explicar o funcionamento das marés — a influência dos ciclos lunares, o impacto na biodiversidade, etc. Ora, o intuito seria a elaboração de um material didático, capaz de explicar ao público noções básicas de biologia e geografia? Teria uma vocação mais pedagógica do que propriamente artística, colocando a relevância do conteúdo acima da forma? O enfoque no “valor de produção”, envolvendo diversas capturas do pôr do sol, dos mares e horizontes azul-esverdeados, contribui a tal impressão.

Maré Viva, Maré Morta se interessa pela complexa relação entre os seres humanos e a natureza ainda pouco domesticada. O filme prefere investigar o que existe por trás do cartão postal do que reforçar uma perfeição inexistente.

Felizmente, aos poucos, as preocupações se dissipam. A diretora Claudia Daibert prefere se concentrar no cotidiano das duas mulheres vivendo numa ilha de pouquíssimos habitantes, sem saneamento básico nem água encanada. Além disso, enfoca as contradições de uma natureza tão admirável quanto perigosa; tão estudada quanto imprevisível e indomável. Para além da óbvia beleza de cartão postal, existe uma geografia natural muito diferente da vida nas cidades, e mesmo dos pequenos vilarejos pesqueiros. Afinal, o que leva as protagonistas a habitarem o local solitário, afastado, marcado por tantas privações? O foco se torna, em primeiro lugar, humano. 

Seguem-se duas trajetórias distintas: enquanto Maurizélia desenvolveu a paixão pela natureza desde a infância, Maria Bernadete chegou ao local por amor a um homem que insistia em viver ali. Detestou a experiência no atol a princípio, até se habituar. A romantização da vida bucólica se dissipa: o roteiro sublinha as dificuldades cotidianas, os perigos, além da presença de pescadores ilegais e outros trabalhadores que ameaçam as protagonistas e demais protetores da biodiversidade. O barulho dos pássaros dificulta o sono; os banhos ocorrem somente no mar. O ponto de vista turístico, que prevê uma experiência deliciosa naquela localidade a longo prazo, é combatido pelo mergulho na realidade nada idealizada.

Isso é possível porque a câmera busca uma sensação de onipresença: ela ocupa os ares, a terra e o mar. A equipe sobe nos botes com as mulheres e mergulha com elas, subindo e descendo os relevos naturais. A imagem e o som (este último, surpreendentemente bem captado e editado) acompanham o enterro da tartaruga morta, os bichos na madrugada, e até a amizade com um pássaro específico, marcado por um buraquinho na cabeça — e batizado de Eric Johnson. As anedotas envolvendo golfinhos encalhados (que voltam para agradecer o resgate), ovos chocados dentro de casa e o mergulho em destroços de embarcações aproximam a experiência de algo pessoal e único, ao contrário de uma visão oficial de fora.

Em paralelo, Maré Viva, Maré Morta dialoga com questões íntimas: a relação de Maurizélia com sua homossexualidade, o desconhecimento inicial de Maria Bernadete do mar, dos peixes e das aves. Conforme se aprofunda na intimidade delas, soa menos refém da geografia ao redor para valorizá-las. Mesmo assim, surpreende a maioria esmagadora de planos abertos, em comparação com raros close-ups valorizando a expressão das protagonistas. No início, as mulheres soam protegidas por anonimato, tamanha a reticência em revelá-las. A seguir, percebe-se a recusa a separá-las do ambiente ao redor: a dupla jamais constitui um rosto apartado da natureza pelo enquadramento cinematográfico. Elas permanecem na condição de pequenos corpos diante da imensa paisagem, algo que ressalta sua pequenez e solidão. “O atol adoece, eu adoeço”, confessa uma delas, numa sintonia indissociável com as ilhas.

É certo que a obra se estende demais no terço final. O ritmo se tornaria ainda mais ágil caso os 101 minutos fossem reduzidos, entretanto, a montagem se mostra reticente em abrir mão de tantas histórias e cenas interessantes. Prefere ser exaustivo a leve — outro elemento que o distingue dos vídeos turísticos e institucionais mencionados a princípio. Não restam dúvidas que os criadores dispunham de farto material, e que a edição implicou numa difícil negociação, entre as necessidades do cinema e as prioridades do afeto pessoal. Daibert deseja abordar o trabalho e a vida íntima, o atol hoje e antigamente, os animais de diferentes espécies, as distinções entre cada ilha, etc. Carrega para si uma responsabilidade nada negligenciável.

Ao final, contempla a contento a maioria de suas preocupações, valorizando as duas mulheres sem transformá-las em heroínas romantizadas da causa ambiental. Prefere atestar a dedicação das duas por Abrolhos do que escutá-las falarem a respeito — e, neste sentido, demonstra um senso de prioridades e iniciativa muito mais apurado do que a vasta maioria de documentários ambientais à nossa disposição. Aqui, imagem e som participam da aventura, embrenhando-se pela vivência no atol e percorrendo os espaços. Interessam-se, no final, pela complexa relação entre os seres humanos e a natureza ainda pouco domesticada. Defende menos a maravilha do Atol das Rocas do que o fato que, por trás de toda admiração, existe uma relação econômica, geográfica e política bastante complexa. Prefere, por fim, investigar o que existe por trás do cartão postal do que reforçar uma perfeição inexistente.

Maré Viva, Maré Morta (2025)
7
Nota 7/10

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