No Caminho (2025)

Amor de perdição

título original (ano)
En El Camino (2025)
país
México
gênero
Drama
duração
93 minutos
direção
David Pablos
elenco
Víctor Miguel Prieto, Osvaldo Sánchez
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

Desde o primeiro momento em que Veneno (Víctor Miguel Prieto) encontra Muñeco (Osvaldo Sánchez), percebe-se que a união entre os dois não terminará bem. O garoto perambula pelas estradas, sem destino, oferecendo favores ao primeiro caminhoneiro disposto a acolhê-lo. O homem mais velho, preocupado, faz um único aviso ao desconhecido: “Na primeira confusão em que você me meter, te chuto do caminhão”. Ele consente, claro, e garante que se passará tudo bem. Os acontecimentos seguintes constituem praticamente a definição de problemas, no entanto, os dois não se separam mais. Mesmo sabendo que se aproximam de uma tragédia conforme as ameaças se multiplicam pelo caminho, decidem seguir em frente.

O diretor e roteirista David Pablos cria uma dinâmica bastante complexa entre os dois protagonistas. Eles se alternam com frequência em termos de controle e poder: ora o proprietário do veículo aparenta ter domínio sobre os rumos do garoto, ora este impõe suas vontades ao colega. Eles se tornam amigos, sócios no tráfico de drogas, cúmplices e, eventualmente, amantes. Amam-se num momento e odeiam-se no outro, ajudam-se uma hora, para prejudicarem deliberadamente o outro na seguinte. Mentem sempre, por sobrevivência, mas também porque, abandonados ao longo de seus percursos, aprenderam a desconfiar de tudo e todos.

O elenco está muito bem dirigido para evitar o espetáculo da miséria, ou a hombritude caricatural que tantas vezes atinge a representação de universos ultra viris.

Talvez o grau de relacionamento mais interessante nesta aproximação diga respeito à filiação simbólica. Muñeco, caminhoneiro afastado dos filhos, e Veneno, jovem abandonado pelo pai, suprem de certo modo esta ausência no convívio forjado pela estrada. Descobrem inúmeras falhas e delitos cometidos pelo parceiro, entretanto, toleram estes deslizes em nome da manutenção deste laço prioritário — assim como um pai protegeria o filho criminoso, ou o menino ocultaria informações para proteger o pai. A família fala mais alto, afinal. Em paralelo, percebem que, uma vez unidos neste percurso, a queda de um deles nas mãos da polícia implicaria na derrocada do outro. Querendo ou não, precisam seguir em frente.

No Caminho promete, desde o início, um ato cruel de violência. Iniciamos o percurso com a imagem do corpo coberto de gasolina e, em seguida, o jovem correndo desesperado, em chamas, pela planície seca. Ora, a montagem sugere uma narrativa enganosa, de propósito. Neste instante, cabe questionar as escolhas éticas do autor, que insinua uma tragédia cujos contornos se revelarão muito distantes adiante. Ela brinca de cultivar, no espectador, um horror e temor injustificáveis pelo futuro do personagem. Por que plantar a pista falsa? Acredita-se na necessidade desta chantagem emocional para nos identificarmos com a vítima, e torcermos por ela? O drama se enfraquece através do uso deste falso atalho.

Em termos de ponto de vista, assistimos à história de amor e morte por uma perspectiva externa, distanciada. Nunca sabemos exatamente o que se passa na cabeça do andarilho, nem naquela do caminhoneiro. Por isso, as decisões de cada um nos pegam de surpresa: até a chegada de tantas medidas extremas, nem mesmo se suspeitava que fossem capazes de tal brutalidade. Ao invés de tantos retratos de um México tomado por cartéis, gangues e sociedades corrompidas, Pablos privilegia uma dinâmica onde a violência do sistema transparece nas relações íntimas. Em tempos agressivos, os laços também o são. Em consequência, o sexo é violento, e mesmo as pequenas gentilezas se tornam efêmeras. Existe um caráter trágico neste destino — ambos estão meramente adiando o final inevitável.

Enquanto cinema queer, o projeto surpreende pelo tratamento cru da sexualidade. O diretor retrata corpos com frontalidade, sem minimizar a nudez, nem discretamente ocultar as genitálias por trás de sombras (como de costume nestas produções). Privilegia o universo das masculinidades que se afrontam, se provocam, e também se relacionam — por vontade, carência, ou falta de opções, quem sabe? Os homens tomam banho lado a lado, jogam diesel no pênis alheio por brincadeira, transam com prostitutas em frente aos colegas. Posto que a vida se passa inteiramente nos veículos, e na estrada, a libido também se manifesta coletivamente, e tudo aquilo que os pudores considerariam de domínio privado, transborda para a esfera pública. “Ele é um caminhoneiro, e caminhoneiro come qualquer coisa”, afirma uma colega. A franqueza e vulgaridade desta afirmação se traduz na estética, em sua totalidade.

Por isso, a homossexualidade se torna menos uma questão de identidade do que conveniência. Os homens têm relações entre si, justificando seus atos, internamente, pela solidão e falta de oportunidades. Com exceção de Veneno, que assume com orgulho sua orientação (“Prefiro ser fodido”, ele conta a Muñeco), os outros jamais se estimariam gays “somente” pelo sexo esporádico com companheiros de rota. Curiosamente, o ato sexual se torna moeda de troca de afetos, ou seja, uma prova de carinho. Os tabus se encontram em outros domínios (não traficar em área dominada por alguma gangue), enquanto as atividades no interior dos caminhões dizem respeito unicamente a cada motorista.

O elenco está muito bem dirigido para evitar o espetáculo da miséria, ou a hombritude caricatural que tantas vezes atinge a representação de universos ultra viris. Estes homens, de origens e culturas variadas, têm em comum unicamente a rotina pelas autoestradas, e um sentimento compartilhado de vazio. Osvaldo Sánchez encarna com maestria esta oscilação entre o despojamento das regras (ele é o primeiro a sugerir o tráfico e as brincadeiras sexuais) e certa tirania quando decide ser a hora de se colocar em primeiro lugar. Víctor Miguel Prieto convence muito bem como alguém vivendo há anos pelas estradas, sobrevivendo de pequenos golpes e bicos, entregando-se ao sexo sem real interesse, mas também, sem qualquer senso de sacrifício. Nota-se uma naturalidade impressionante nesta história de exceção.

Aos brasileiros, é possível que No Caminho lembre bastante as flutuações sentimentais de Baby, de Marcelo Caetano. Além da sinopse-base (garoto mais novo, assumidamente gay, prestando serviços sexuais sob tutela de um homem mais velho, que não se entende como homossexual, até se envolverem com o tráfico), nota-se o afeto da direção por estes indivíduos, tentando compreender até as atitudes mais controversas de seus percursos. Trata-se de sujeitos com poucas alternativas, (re)agindo na urgência, no improviso. Isso não desculpa seus gestos, mas tampouco faz deles (Muñeco, Veneno, Baby e Ronaldo) vilões, ou mesmo vítimas do sistema. 

Há uma preciosidade nesta onda de filmes a respeito de figuras solitárias, vivendo à margem, com sexualidades igualmente marginais, formando laços eternos-enquanto-durem, tão profundos quanto transitórios. Capta-se algo da identidade queer (a necessidade de se esconder, de sobreviver sem relevar quem se é de verdade, de inventar uma persona pública permitindo seguir com os desejos reais em paralelo) que raros filmes de temática gay, dos anos 1980, 1990 e 2000 conseguiam captar. 

Além disso, os dramas observam estas figuras de igual para igual, seguindo na estrada com eles, compartilhando o desejo do sexo com a dupla, secando o sangue da faca junto a eles. Estes projetos (No Caminho como Baby e tantos outros) nunca se espantam com estes homens, nem provocam o choque a partir deles. Compreendem suas infrações e deslizes, em primeiro lugar, enquanto consequências inevitáveis de uma vida de exceção.

No Caminho (2025)
8
Nota 8/10

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