
Novembro se inicia em nível elevadíssimo de tensão. Reféns são rapidamente jogados no banheiro do Palácio de Justiça, em Bogotá. Eles berram, se desesperam, enquanto os guerrilheiros do M-19, que comandam a ação, gritam com eles, e entre si. Há barulhos de disparos, além de palavras de ordem vindas de algum lugar distante. Ao longo de 80 minutos, o ritmo jamais se acalma. A obra se dedica a um perpétuo clímax, sem informações acerca do que antecedeu o evento, nem do que viria após tamanha urgência. Em seu retrato dos fatos ocorridos nos dias 6 e 7 de novembro de 1985, o diretor Tomás Corredor prefere se ater a um patamar de descontrole emocional generalizado, investindo na intensidade esperada de um filme de ação.
A narrativa se concentra no único espaço do banheiro, que concentra tanto uma parte dos guerrilheiros, aguardando novas ordens, quanto os reféns, além de algumas pessoas enviadas a este espaço sem instrução prévia dos líderes. A escolha de condensar o dilema em poucos metros quadrados permitiria ao cineasta conviver com todos os personagens ao mesmo tempo, fazendo com que ocupem os holofotes durante a integralidade da trama, e que se complexifiquem diante dos nossos olhos. O huis clos possui a vantagem de catalisar os conflitos, acelerar processos, além de representar, metonimicamente, o mundo lá fora. De fato, aqui, há homens e mulheres, magistrados e pequenos funcionários, figuras pró-governo e contrárias ao governo.
Incomoda bastante a impressão de um filme que não se importa com nenhuma das pessoas filmadas — se ficaram ou partiram, se morreram ou sobreviveram, se atacaram ou foram atacadas.
Ora, diante de tamanho potencial, surpreende que o roteiro nunca desenvolva seus personagens. Passamos muitíssimo tempo com estas figuras, gritando e chorando diante dos nossos olhos. Em contrapartida, desconhecemos seus nomes, seus posicionamentos políticos, seus objetivos. Nem mesmo o planejamento para o ataque ao Palácio se desvenda ao espectador. Ignoramos o temperamento de cada um, sua história pregressa, a maneira de falar, se portar. O que os invasores pensavam obter com tal investida? Como pretendiam fugir do local? Como se sentia cada refém? Jamais saberemos. A psicologia dos dois lados está completamente ausente da abordagem.
Nem mesmo se delimita um protagonista, ou se determina qualquer forma de organização para a dinâmica em cena. Num primeiro momento, temos a impressão que a guerrilheira Clara (Natalia Reyes) corresponderá ao ponto de vista do espectador, em contrapartida, a jovem nunca efetua ação nenhuma, nem demonstra objetivos claros. Ela se desespera, arregala os olhos, pinta as unhas sujas com esmalte. A narrativa seguiria tranquilamente, caso não estivesse presente. Depois, o magistrado Gaona (Santiago Alarcón) aparenta tomar as rédeas da jornada, apenas para sumir sem deixar traços. A câmera frenética, chacoalhando para todos os lados, junto à montagem fragmentada, nos permite olhar tudo, sem, realmente, ver nada.
Logo, os personagens se convertem numa massa indistinta. Para um projeto tão movimentado, onde tudo se agita por todos os lados, surpreende que a ação resulte inerte, arrastada. Afinal, os guerrilheiros jamais negociam o que quer que seja; tampouco apresentam estratégias para saírem dali. Os reféns nunca conversam entre si, bolam saídas, ou refletem juntos acerca de suas possibilidades. O espaço do banheiro, em si, se converte em mero pano de fundo, posto que a câmera evita explorar a geografia específica do local — ela nunca se desloca para as cabines, perto da porta, sobre a pia. Permanece nesta perspectiva frontal, observando sujeitos anônimos em exasperação ininterrupta.
Ora, quando tudo é urgência, nada o é. O filme esgota muito rapidamente o pressuposto de emular o cinema de ação. Posto que o espectador permanece distante às intencionalidades e subjetividades, resta contemplar um espetáculo despolitizado sobre a política. O cineasta evita adotar um posicionamento, aliar-se a um lado ou ao outro, ou revelar quais posturas de uma parcela considera toleráveis, e quais deplora. Limita-se a uma constatação dos fatos, de pretensão isenta, como se estivesse somente mostrando a verdade, revelando o que realmente aconteceu. Esta perspectiva fatual mostra-se ingênua, além de frágil enquanto postura cinematográfica. Teria sido fundamental defender alguma visão de mundo por meio de enquadramentos, luzes, montagem.
Novembro resta profundamente teatral, no sentido de limitar-se ao alvoroço no banheiro-palco, sem explorar o espaço fora de quadro, a relação com os sons ao redor, ou ainda a comunicação com os conflitos supostamente ocorrendo nos andares acima e abaixo. Corredor emprega imagens de arquivo, a respeito das forças do exército do lado de fora do edifício, que visam, de certa forma, completar as lacunas dramáticas. Infelizmente, mesmo os trechos documentais soam plácidos, avessos a posicionamentos de qualquer natureza. Incomoda bastante a impressão de um filme que não se importa com nenhuma das pessoas filmadas — se ficaram ou partiram, se morreram ou sobreviveram, se atacaram ou foram atacadas. Para a mirada blasé da direção, tanto faz.


Certo, nota-se um esforço considerável de luz e som, compreensível para um projeto de configuração teatral, em espaço único. Mesmo assim, a montagem privilegia o senso de desorientação perpétuo. Ainda necessita-se que novos guerrilheiros entrem em cena, arfando e desesperados, para trazer informações a respeito do que ocorre no restante do edifício. Depois, os mensageiros desaparecem. Trata-se da única maneira encontrada para fazer a narrativa avançar: através das pílulas de fatos trazidos a conta-gotas, de um lugar desconhecido, lá fora, posto que o banheiro, em si, representa uma sala de espera da ação. Até os tradicionais sinônimos de passagem do tempo (a fome, a sede, os problemas de saúde dos ocupantes) permanecem em segundo lugar.
No final, um extenso letreiro nos detalha o que aconteceu nos dias 6 e 7 de novembro de 1985, e também explica, enfim, o que os criadores pretendiam com esta proposta: “Quarenta anos depois, o eco dessas imagens segue nos fazendo perguntas”, pondera. Corredor pretende deixar ao espectador que tire suas próprias conclusões. O gesto seria nobre, caso tivéssemos uma devida contextualização social, histórica e política, permitindo esta reflexão. Não temos como julgar dezenas de corpos que se debatem sem parar durante mais de uma hora, se não soubermos quem são, nem o que representam. Os letreiros compensam tudo aquilo que a imagem e os sons não conseguem transmitir por conta própria, atestando o alcance limitadíssimo desta proposta de mise en scène. Terminamos a demonstração conhecendo tão pouco acerca do episódio retratado quanto sabíamos a princípio. Onde a direção enxerga imparcialidade, lê-se, de fato, pudor e falta de convicção.




