
O ponto de partida de Papaya consiste numa dessas propostas que somente a animação poderia materializar. A ideia de uma semente de mamão retratada tal qual um bebê, descobrindo o mundo pela primeira vez, pode trazer um sorriso nos lábios, tamanha a ludicidade do conceito. Ora, a diretora Priscila Kellen expande esta premissa num longa-metragem, dedicado a acompanhar a pequena esfera, dotada de olhos, nariz e boca, maravilhando-se com a natureza, enquanto se espanta com a degradação do meio ambiente pelos seres humanos.
A noção de olhos virgens permite que toda e qualquer paisagem seja construída com um perpétuo senso de maravilhamento. Para a heroína, tanto a grama quanto o asfalto, tanto os céus quando a água representam novas oportunidades, traduzidas em paisagens multicoloridas, a partir de motivos geométricos texturizados. O filme alude ao real sem nenhuma pretensão de reproduzi-lo. Pelo contrário, prefere apostar numa viagem de fantasia, onde os sentimentos confusos e deslumbrados da protagonista se convertem em estruturas caleidoscópicas. Os melhores momentos da obra, aliás, decorrem das liberdades alucinadas em relação ao real.
Kellen se afasta do naturalismo para melhor comentar a natureza. Existe um esmero em atribuir o máximo de complexidade à mínima construção física dos desenhos.
Em termos de estrutura narrativa, o projeto se baseia numa jornada bastante simples. Uma vez liberada da fruta, e descolada da mãe-mamoeiro, a semente sem nome se desloca para onde o acaso a leva. Ela nunca possui objetivos específicos, dado o grau de ingenuidade em relação a tudo que a cerca. Por isso, contenta-se em reagir aos incontáveis estímulos ao seu redor, que provocam emoções simples: alegria, surpresa, medo, tristeza. Embora O Menino e o Mundo soe como um horizonte de referência ao roteiro, a grande diferença em relação ao filme de Alê Abreu (que desempenha a função de produtor aqui) consiste na intencionalidade do herói — ou na ausência da mesma, no caso da nossa semente.
Durante sucintos 74 minutos, o roteiro cria uma infinidade de quiproquós, que surgem com a mesma rapidez que desaparecem. O pressuposto do movimento constante faz com que as dificuldades sejam efêmeras, num gesto um tanto inconsequente. Logo, a protagonista se depara com um obstáculo, resolve-o com rapidez (ou o problema se desfaz por conta própria), e segue adiante, para o novo dilema. Papaya cumpre com o imaginário esperado para animações voltadas às crianças pequenas: a agilidade, a leveza das ações, e o teor multicolorido e frenético, buscando distrair e entreter graças à lógica do fluxo. O deslocamento, aqui, torna-se meio e finalidade.
É claro que o discurso se aprofunda em temas mais sérios do que aparentariam a princípio. Ao pequeno espectador capaz de entender tais discussões (e aos adultos acompanhando as crianças), resta uma exposição dos perigos da agroindústria, do acúmulo de lixo, da destruição do meio ambiente. Defende-se a natureza enquanto forma de liberdade, com o cuidado em detalhar as inúmeras transformações das plantas, flores e frutas, ao invés de defender nossos recursos enquanto meras belezas a admirar. O foco em raízes, galhos e brotos permite apresentar, às crianças, a fauna e a flora enquanto processos de perpétuo desenvolvimento — além de aludir, com delicadeza, às noções de vida e morte.
Em paralelo, o percurso vai do campo à cidade e, então, de volta ao campo, enxergando o estado natural das coisas enquanto idílio, em oposição aos terrores mecânicos e exploradores da urbanidade. Não há muito espaço para diluir tamanho maniqueísmo em construções mais complexas acerca dos efeitos positivos da humanidade na terra e nos animais. Ao menos, o processo inclui uma sequência de ação, no melhor modo revolução dos bichos, onde animais agrupados decidem tomar as rédeas da modernização e sabotar equipamentos industriais. Trata-se de um segmento particularmente ambicioso, tanto pela alusão a uma política concreta quanto pelo profundo idealismo do gesto.
Tais discussões se diluem, sem dúvida, no mar de cores, sorrisos e pequenas vozes de contentamento. Com exceção de sussurros de “Papaya” ocasionalmente, e da letra da canção-tema, ao final, o longa-metragem dispensa falas e diálogos, optando por uma jornada universal, com potencial para viajar além do mercado audiovisual brasileiro. Ao final, ainda inclui outras ousadias, tais quais as cenas de devaneio, em modo mandala, e a representação mais fotorrealista de flores e frutos, combinadas com os traços simplificados que víamos até então. O filme se encaminha à sugestão de que, caso desejado, poderia aprofundar as formas e debates insinuados até então.


Em paralelo, cabe valorizar a preocupação da criadora e sua equipe com a antropomorfização da protagonista. Além de equivaler as raízes a braços e pernas, também inclui um traço distintivo na pequena esfera — três marquinhas na parte superior, capazes de distingui-la das demais sementes. Mesmo a cor escura da heroína nunca se converte num preto profundo: o tom levemente marrom-acinzentado permite a aplicação de volume e sombra — logo, temos de fato uma esfera, ao invés de um círculo. Preciosidades do gênero também se aplicam aos cenários e demais personagens (os pássaros, gafanhotos, etc.). Por trás da aparente simplificação, existe um esmero em atribuir o máximo de complexidade à mínima construção física dos desenhos.
Papaya ainda aposta no alto volume das vozes e na perpétua trilha sonora, que nos conduz à impressão de uma sessão orquestrada. Há pouco trabalho de ruídos para imprimir uma sensação palpável de natureza. Isso desperta a impressão que o deslocamento do real, proporcionado pela animação, implica num distanciamento equivalente no que diz respeito à construção sonora. Assim, Kellen se afasta do naturalismo para melhor comentar a natureza, e fabula o realismo para discutir o real. A obra compreende bem o seu público alvo, oferecendo tanto os prazeres de sensações e emoções básicas quanto eventuais debates que, tais quais as sementes, ficarão plantados nos pequenos espectadores, até terem a maturidade suficiente para germinar.




