Papaya (2025)

A semente e o mundo

título original (ano)
Papaya (2025)
país
Brasil
linguagem
Animação
duração
74 minutos
direção
Priscilla Kellen
vozes originais
Aretha Garcia, Tulipa Ruiz, Maria Vitória Garcia
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

O ponto de partida de Papaya consiste numa dessas propostas que somente a animação poderia materializar. A ideia de uma semente de mamão retratada tal qual um bebê, descobrindo o mundo pela primeira vez, pode trazer um sorriso nos lábios, tamanha a ludicidade do conceito. Ora, a diretora Priscila Kellen expande esta premissa num longa-metragem, dedicado a acompanhar a pequena esfera, dotada de olhos, nariz e boca, maravilhando-se com a natureza, enquanto se espanta com a degradação do meio ambiente pelos seres humanos. 

A noção de olhos virgens permite que toda e qualquer paisagem seja construída com um perpétuo senso de maravilhamento. Para a heroína, tanto a grama quanto o asfalto, tanto os céus quando a água representam novas oportunidades, traduzidas em paisagens multicoloridas, a partir de motivos geométricos texturizados. O filme alude ao real sem nenhuma pretensão de reproduzi-lo. Pelo contrário, prefere apostar numa viagem de fantasia, onde os sentimentos confusos e deslumbrados da protagonista se convertem em estruturas caleidoscópicas. Os melhores momentos da obra, aliás, decorrem das liberdades alucinadas em relação ao real.

Kellen se afasta do naturalismo para melhor comentar a natureza. Existe um esmero em atribuir o máximo de complexidade à mínima construção física dos desenhos.

Em termos de estrutura narrativa, o projeto se baseia numa jornada bastante simples. Uma vez liberada da fruta, e descolada da mãe-mamoeiro, a semente sem nome se desloca para onde o acaso a leva. Ela nunca possui objetivos específicos, dado o grau de ingenuidade em relação a tudo que a cerca. Por isso, contenta-se em reagir aos incontáveis estímulos ao seu redor, que provocam emoções simples: alegria, surpresa, medo, tristeza. Embora O Menino e o Mundo soe como um horizonte de referência ao roteiro, a grande diferença em relação ao filme de Alê Abreu (que desempenha a função de produtor aqui) consiste na intencionalidade do herói — ou na ausência da mesma, no caso da nossa semente.

Durante sucintos 74 minutos, o roteiro cria uma infinidade de quiproquós, que surgem com a mesma rapidez que desaparecem. O pressuposto do movimento constante faz com que as dificuldades sejam efêmeras, num gesto um tanto inconsequente. Logo, a protagonista se depara com um obstáculo, resolve-o com rapidez (ou o problema se desfaz por conta própria), e segue adiante, para o novo dilema. Papaya cumpre com o imaginário esperado para animações voltadas às crianças pequenas: a agilidade, a leveza das ações, e o teor multicolorido e frenético, buscando distrair e entreter graças à lógica do fluxo. O deslocamento, aqui, torna-se meio e finalidade.

É claro que o discurso se aprofunda em temas mais sérios do que aparentariam a princípio. Ao pequeno espectador capaz de entender tais discussões (e aos adultos acompanhando as crianças), resta uma exposição dos perigos da agroindústria, do acúmulo de lixo, da destruição do meio ambiente. Defende-se a natureza enquanto forma de liberdade, com o cuidado em detalhar as inúmeras transformações das plantas, flores e frutas, ao invés de defender nossos recursos enquanto meras belezas a admirar. O foco em raízes, galhos e brotos permite apresentar, às crianças, a fauna e a flora enquanto processos de perpétuo desenvolvimento — além de aludir, com delicadeza, às noções de vida e morte.

Em paralelo, o percurso vai do campo à cidade e, então, de volta ao campo, enxergando o estado natural das coisas enquanto idílio, em oposição aos terrores mecânicos e exploradores da urbanidade. Não há muito espaço para diluir tamanho maniqueísmo em construções mais complexas acerca dos efeitos positivos da humanidade na terra e nos animais. Ao menos, o processo inclui uma sequência de ação, no melhor modo revolução dos bichos, onde animais agrupados decidem tomar as rédeas da modernização e sabotar equipamentos industriais. Trata-se de um segmento particularmente ambicioso, tanto pela alusão a uma política concreta quanto pelo profundo idealismo do gesto. 

Tais discussões se diluem, sem dúvida, no mar de cores, sorrisos e pequenas vozes de contentamento. Com exceção de sussurros de “Papaya” ocasionalmente, e da letra da canção-tema, ao final, o longa-metragem dispensa falas e diálogos, optando por uma jornada universal, com potencial para viajar além do mercado audiovisual brasileiro. Ao final, ainda inclui outras ousadias, tais quais as cenas de devaneio, em modo mandala, e a representação mais fotorrealista de flores e frutos, combinadas com os traços simplificados que víamos até então. O filme se encaminha à sugestão de que, caso desejado, poderia aprofundar as formas e debates insinuados até então.

Em paralelo, cabe valorizar a preocupação da criadora e sua equipe com a antropomorfização da protagonista. Além de equivaler as raízes a braços e pernas, também inclui um traço distintivo na pequena esfera — três marquinhas na parte superior, capazes de distingui-la das demais sementes. Mesmo a cor escura da heroína nunca se converte num preto profundo: o tom levemente marrom-acinzentado permite a aplicação de volume e sombra — logo, temos de fato uma esfera, ao invés de um círculo. Preciosidades do gênero também se aplicam aos cenários e demais personagens (os pássaros, gafanhotos, etc.). Por trás da aparente simplificação, existe um esmero em atribuir o máximo de complexidade à mínima construção física dos desenhos.

Papaya ainda aposta no alto volume das vozes e na perpétua trilha sonora, que nos conduz à impressão de uma sessão orquestrada. Há pouco trabalho de ruídos para imprimir uma sensação palpável de natureza. Isso desperta a impressão que o deslocamento do real, proporcionado pela animação, implica num distanciamento equivalente no que diz respeito à construção sonora. Assim, Kellen se afasta do naturalismo para melhor comentar a natureza, e fabula o realismo para discutir o real. A obra compreende bem o seu público alvo, oferecendo tanto os prazeres de sensações e emoções básicas quanto eventuais debates que, tais quais as sementes, ficarão plantados nos pequenos espectadores, até terem a maturidade suficiente para germinar.

Papaya (2025)
7
Nota 7/10

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