
Era uma vez quatro jovens escravizadas. Elas trabalhavam como serviçais dos senhores brancos em um grande casarão, até o dia em que decidiram se rebelar contra este poder abusivo. Assim, pegaram seus pertences e fugiram floresta adentro. No entanto, surpreenderam-se com a chegada de quatro outras mulheres: suas sinhás, que estavam descontentes com as vidas de luxo, e as acompanharam na jornada. Logo, as quatro garotas negras e as quatro garotas brancas precisaram aprender a conviver, encontrando um ponto de comunhão. Compreenderam melhor a realidade da outra, e viveram felizes para sempre.
Esta sinopse fabular resume a abordagem de Quatro Meninas. O longa-metragem dirigido por Karen Suzane parte da intenção de popularizar a história de revoluções comandadas por pessoas negras, que deram origem a quilombos e demais organizações de resistência. Através deste filtro teen e acessível, coroado por quatro atrizes em ascensão, pretende servir como porta de entrada a um ideal romântico de heroísmo feminino negro. Ao invés de um cinema da afronta, prefere adocicar as violentas revoltas, de modo a atingir um público médio que dificilmente assistiria a Malês ou Doutor Gama.
Quatro Meninas constitui uma ilustração cinematográfica de se negociar com o patrão, como sugeria a reforma trabalhista ou, pior ainda, uma proposta de “anistia ampla, geral e irrestrita” às sinhás.
A simplificação do contexto histórico implica tanto nas qualidades quanto nas óbvias limitações desta narrativa. Por um lado, o público do Cine Brasília se mostrou satisfeito com a aventura, aplaudindo calorosamente as atrizes, e aprovando a perspectiva feel good movie da escravidão. Trata-se de uma obra de potencial de público considerável para tal temática, sobretudo, liderada por jovens garotas negras. A equipe, quase inteiramente composta por mulheres, parece ter calculado sua estratégia de modo a facilitar a inserção num mercado adverso para vozes femininas e negras. Efetuam concessões aos fatos para melhor se acomodarem à sensibilidade de um público desinteressado pela História.
Em contrapartida, o teor edulcorado desta forma de cinema também pode despertar incômodos. Primeiro, de ordem narrativa. A fuga de Tita (Ágatha Marinho), Muanda (Alana Cabral), Lena (Dhara Lopes) e Francisca (Maria Ibraim) é simples, rápida e indolor. Elas decidem partir, e apenas saem do casarão. Nunca aparentam ser perseguidas de fato. Encontram rapidamente abrigo, tanto na casa de Iaiá Grande (Dani Ornellas) quanto num casarão vazio, abandonado, convenientemente esperando por elas. Uma vez reunidas, experimentam a amizade, o amor e o senso de comunidade.
A facilidade deste movimento insinua que a libertação de pessoas escravizadas dependia, na verdade, da força de vontade das mesmas. Bastava querer, sair pela porta e levar uma vida autônoma. Uma vez imersas na natureza, os santos as protegeriam. Por mais que se trate de uma alegoria, ao invés de uma representação realista, a ocultação dos perigos e dificuldades beira o desrespeito com milhares de pessoas negras que sofreram humilhação, tortura, estupro e extermínio. O roteiro de Quatro Meninas oculta a brutalidade dos homens brancos e a força do Estado, preferindo a versão afável de um monsieur acolhedor, ainda que com segundas intenções — caso de Benjamin, interpretado por João Vitor.
Em segundo lugar, as escolhas estéticas beiram a fantasia da escravidão, em detrimento de um mergulho nas condições plausíveis da época. O projeto inteiro se desenvolve numa textura digital tão nítida e desprovida de asperezas que dificulta muito a tarefa de acreditar que a trama se passe, de fato, séculos atrás. O quarteto de protagonistas parte em fuga com suas inúmeras trocas de roupa, limpas e passadas, mesmo após a permanência na mata. Possuem cabelos arrumadíssimos, além de um sorriso estampado no rosto, conforme degustam suas refeições fartas. As sinhás em fuga também trocam de figurino e se comportam como se pernoitassem em alguma pousada. Não há dificuldade, perigo, nem desentendimento real entre elas. As moças negras cobram as brancas por sua inatividade na ocupação improvisada. Estas resistem a princípio, porém, logo compreendem o lado das outras, e passam a cooperar. Está vendo? Faltava a boa vontade das pessoas negras para explicar seu ponto de vista às mulheres brancas e colocarem fim à desigualdade social. Como ninguém havia pensado nisso antes?
Em termos de mise en scène, Quatro Meninas se revela uma obra dócil, comportadíssima, com medo de se sujar ou de incomodar. Por isso, as personagens falam cada uma à sua vez, esperando a outra concluir seu texto. Os diálogos possuem tom empolado, endurecido na boca das atrizes, que ficam paradas lado a lado para facilitar a composição de planos frontais, com aparência de fotografias. A câmera nunca mergulha no casarão, nem oferece dinamismo à perspectiva das meninas em seu idílio campestre. A suposta indignação das oito residentes, ao descobrirem desenhos indecorosos, despertou alguns risos de escárnio na sala de cinema devido à polidez com que rasgam papeizinhos e empurram as folhas sobre uma mesa — uma personagem de cada vez, para facilitar a organização da cena.
Para um imaginário de revolta, tamanho comedimento beira o desaforo, como se as autoras fizessem escárnio do sofrimento, das dores e traumas reais enfrentados por pessoas escravizadas na história do país. Isso desemboca no terceiro elemento, e principal questionamento diante do projeto: a proposta de reparação racial via afeto. Ao invés de as meninas negras se rebelarem contra o poderio branco que as mantinha presas, elas ainda precisam cuidar da educação política de suas anfitriãs. Fornecem pequenas lições de moral, porém, ainda se sentem responsáveis pelo bem-estar e pela conscientização das sinhás. No final, dão as mãos e encontram um entendimento.
A ideia de reparação histórica mediante esforço individual (das pessoas negras, em especial) constitui um disparate. Aqui, Tita, Muanda, Lena e Francisca precisam cuidar do letramento racial alheio, além de cuidarem de si mesmas. Cabe a elas impedir o ciclo de violência, através do esclarecimento das antigas patroas, e da conjunção com aqueles que as exploraram. Por este motivo, as cenas com Benjamin se revelam particularmente perversas, sob fundo de habilidade das garotas para negociação e diplomacia. A mensagem final aponta para uma possibilidade de conciliação e respeito mútuo — por que não podemos todas ser amigas, certo? Cada uma em seu destino, entendendo as dores alheias?


Ora, colocar a dor das sinhás entediadas, que não desejavam se casar com os pretendentes escolhidos pelos pais, em pé de igualdade com corpos violados e brutalmente explorados para o trabalho, soa novamente como uma piada de mau gosto. A história brasileira é menos marcada por amizades e afetos do que por afrontamentos violentos e desiguais entre opressores e oprimidos, entre violadores e violados. Quatro Meninas constitui uma ilustração cinematográfica de se negociar com o patrão, como sugeria a reforma trabalhista ou, pior ainda, uma proposta de “anistia ampla, geral e irrestrita” às sinhás.
O Brasil se encontra no exato momento em que decide como lidar com suas feridas do passado: pelo perdão ou pela justiça? Pela condenação ou pela tolerância aos violadores das leis? Em Hollywood, propostas de harmonia racial via amizade já foram devidamente menosprezadas e questionadas, até pelos próprios criadores — caso dos péssimos Histórias Cruzadas e Green Book: O Guia. Ora, Quatro Meninas dá um passo atrás na representação das lutas nacionais ao sugerir que todos demos as mãos e, num gesto cristão e inconsequente, perdoemos os “excessos” do lado adverso para seguirmos em frente. Ora, talvez esta não seja a saída mais justa ao problema, nem resolva questões muito mais complexas do que um gesto de boa-fé por ambas as partes. A História, com H maiúsculo, se opõe com ferocidade a estas histórias fictícias, propensas a um otimismo mágico. A política não é feita de gentilezas.




