
Sirât é um filme passado inteiramente no deserto. Na primeira cena, Luis (Sergi López) e seu filho Estéban (Bruno Núñez Esteban) caminham entre os participantes de uma rave, procurando pela filha desaparecida. Vários dias de estrada mais tarde, os personagens continuam pelos terrenos áridos, vazios, de países quase desconhecidos (ainda estão no Marrocos?). Nunca se sabe ao certo para onde vão, nem de que maneira pretendem encontrar a jovem. Já os participantes da festa, que aceitam conduzir Luis, tampouco parecem seguros de seus próximos passos.
Isso porque o longa-metragem explora, essencialmente, a indefinição de tempo e de espaço. Por um lado, os familiares estão apressados, movidos por justificável senso de urgência. Por outro lado, os dias se arrastam nestas travessias secas, sem o menor indício de proximidade da meta. Trabalha-se a sensação contrastante de um tempo acelerado, e que não passa jamais. Algo semelhante ocorre com as geografias. A narrativa atravessa locais específicos, marcados por conflitos políticos que ameaçam afetar os protagonistas. Em contrapartida, eles estão quase sempre sozinhos, em locais desprovidos de habitantes, de estrutura, de pontos de referência — um lugar-nenhum.
Rejeitando tanto o realismo social tipicamente europeu quanto o espetáculo do sofrimento em padrões hollywoodianos, Laxe oferece sua versão da travessia religiosa pelo deserto.
Encontram-se, portanto, numa espécie de purgatório. Os letreiros iniciais nos avisam que “sirât” significa “a ponte que conecta inferno e paraíso”, de espessura “mais fina que um fio de cabelo”. O projeto trabalha de maneira excepcional este conceito, explorando em simultâneo a dor e o êxtase, o sofrimento e o prazer. Por um lado, existe o hedonismo das raves, com pessoas usando drogas, dançando e agindo somente conforme os desejos momentâneos. Por outro lado, a privação de recursos e a travessia literal pelo deserto aproximam a jornada de Luis e seus novos amigos de um périplo religioso — algo entre o martírio e o sacrifício.
Tal impressão se justifica pela insistência de Oliver Laxe em manter seus protagonistas num eterno presente. O cineasta jamais esclarece do quê Luis e o filho abriram mão para tal viagem. Eles precisam voltar logo? Possuem obrigações na Espanha natal? Ao mergulharem neste território sem regras, próximo a um reino fantástico, transparecem uma inesperada abnegação, como se tivessem renunciado às próprias vidas para salvar aquela da filha Mar. Em paralelo, os participantes da festa, cientes dos perigos da jornada (guerras, doenças, falta de gasolina e comida), também equivalem a figuras que se entregam à própria morte. Um caráter de expurgo perpassa a narrativa na integralidade.
Enquanto isso, o autor afasta suas representações dos estereótipos habituais. Luis nunca se torna um pai-herói, dotado de habilidades sobre-humanas para resgatar sua garota (esta não é Busca Implacável), ao passo que a família de artistas nômades se prova afetuosa, acolhedora, tanto em plano material quanto psicológico. O roteiro contrasta uma perspectiva individualista (o forasteiro se nega a dividir comida com os desconhecidos) àquela de uma coletividade composta pelos amigos viajando juntos. Conforme o road movie se aprofunda, os dois núcleos se fundem de maneira indistinta. Família patriarcal e amizades fluidas se reúnem no mesmo instinto de sobrevivência, quando são reduzidos à simples humanidade.
Sirât surpreende, de imediato, pela ousadia da produção, e a crença no poder de suas imagens e sons. Este projeto soa como o inferno de qualquer produtor (para utilizar os termos do próprio título). Cada cena transparece as dificuldades de captação de som direto, de iluminação, de movimentação da câmera em cenários adversos. Travessias de carros em rios, percursos ao longo de desfiladeiros e mesmo as festas com uma centena de figurantes soam impensáveis a qualquer obra — com o acréscimo da presença de cachorros e crianças em cena. Ora, com uma grande equipe de produção, que inclui Pedro e Agustín Almodóvar, o drama acredita na necessidade de colocar o espectador junto dos viajantes. Se os passantes desconhecem seus rumos, o espectador também será pego de surpresa com os desafios desta viagem impossível.
A este propósito, o roteiro não tarda a incluir cenas fortes, trágicas, e inimagináveis na vasta maioria dos projetos de vocação internacional. Espera-se que os filmes tenham “bom senso”, e não perturbem o espectador com cenas chocantes, grotescas, ou de extrema violência. Entretanto, nada disso freia Laxe, que se recusa a efetuar qualquer concessão ao público em sua descida aos infernos. Ele acredita na necessidade de certas guinadas brutais, e as conduz com segurança. Ao contrário do idílio da natureza, ou da amizade redentora, o longa-metragem prefere mostrar que esta viagem será, de fato, uma provação mortal a alguns deles. A missão de Luis e Estéban acumula mais fracassos do que êxitos.
Atenção: pequenos spoilers a seguir.
Por este motivo, diversos espectadores saíram da sessão profundamente incomodados, taxando a experiência de sádica. Afinal, como se ousa filmar tais cenas? O diretor precisaria ser muito perverso, um provocador vazio… Entretanto, Sirât se mostra uma obra disposta a tomar riscos. Contra os tabus do bom gosto e do final feliz, privilegia certa verossimilhança diante dos obstáculos encontrados. Já acusações de sadismo provam-se amplamente infundadas: mesmo as violências são filmadas à distância, ou sugeridas por instantes tão velozes que beiram a abstração em frente às câmeras. Nunca se exige da câmera que contemple a dor nos olhos, ou que aproveite a carnificina do deserto para gerar choque e repulsa.


O horror que atravessa a integralidade da sessão decorre justamente das lacunas deixadas ao espectador, para projetar seu próprio imaginário de assombro. No final, Sirât ainda encontra certa forma de otimismo ou, pelo menos, de alívio, ao propor uma escapatória aos sujeitos perdidos. Assim, presos a uma liberdade infinita (eles poderiam fazer o que quisessem no deserto, embora não lhes restasse mais nada a fazer), tornam-se refugiados, exilados, não-pertencentes. A obra busca, por fim, uma alegoria visceral do sentimento de ser o outro, num lugar desconhecido, hostil. Não é por acaso que a “solução” consiste em equiparar os viajantes a refugiados, literalmente nas mesmas condições dos companheiros de trem.
Tal metáfora se desenvolve com um controle excepcional de imagem e som; de construção de personagens e tensão narrativa. Laxe já despontava como um diretor de forte potencial, mas esta é a obra em que sua maestria na condução do espaço-tempo explode de maneira assombrosa em tela. Rejeitando tanto o realismo social tipicamente europeu quanto o espetáculo do sofrimento em padrões hollywoodianos, ele oferece sua versão da travessia religiosa pelo deserto — crua, austera, impiedosa.
O filme não provoca desconforto por se deliciar com as dores alheias — muito pelo contrário. Ele surpreende ao sugerir que, apesar destas mazelas, os personagens seguem em frente, porque não lhes resta outra opção. O elemento mais cruel consiste no imperativo de continuar a jornada. Neste sentido, a bela conclusão, que os resgata daquele espaço, também consiste na alternativa mais horrorosa aos sobreviventes, que deixaram tanto afeto neste não-território ao qual provavelmente jamais retornarão.




