Tiger (2025)

O calvário gay

título original (ano)
Tiger (2025)
país
Japão
gênero
Drama
duração
126 minutos
direção
Anshul Chauhan
elenco
Takashi Kawaguchi, Maho Nonami, Kenzo Shirahama,Yuya Endo, Kosei Kudo, Kentez Asaka
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

Tiger se inicia na forma de um drama familiar convencional. O protagonista, Taiga (Takashi Kawaguchi) é um trabalhador do sexo, alternando entre massagens eróticas e uma recém-iniciada carreira em filmes pornográficos. Ele leva esta vida com certa facilidade e indiferença, a contrário dos colegas, para quem este seria o emprego mais empolgante possível. Ao descobrir a internação do pai com um câncer do intestino, o homem gay, vivendo em Tóquio, precisa voltar à cidadezinha de sua origem, e manter afastada sua rotina urbana das crenças homofóbicas defendidas pelo pai e pela irmã.

A trilha sonora de encantamento, as sequências de passeios pela cidade e a conversa esporádica com amigos em festas sugerem um drama aos moldes do indie norte-americano. Seria comum, neste contexto, que Taiga precisasse revelar os detalhes de sua intimidade, sofrer com a rejeição inicial, até todos fazerem as pazes, e o entendimento prevalecer sobre os preconceitos. Projetos com esta linguagem, próximos de um realismo mágico, baseado no choque entre cidade e campo, ou tradição e modernidade, costumam apostar a um otimismo conciliador. Geralmente, os diretores expõem mazelas sociais em nome do prazer de superá-las simbolicamente na conclusão, por meio do poder do afeto.

Há um grau preocupante de homofobia internalizada neste olhar que, sob pretexto de alertar a respeito do isolamento de gays, acaba normalizando-o. 

Ora, neste ponto, o longa-metragem japonês começa a se distinguir radicalmente da fórmula esperançosa. Aos poucos, a jornada do rapaz toma rumos sombrios, amargos. Durante uma Parada do Orgulho, ele descobre uma associação pregando o “casamento por amizade” (um nome polido para o tradicional matrimônio de fachada entre um homem gay e uma mulher lésbica, visando apaziguar famílias conservadoras e garantir direito a herança). Já a irmã mais velha o trata de modo cada vez mais tirânico, aproximando-se do nosso referencial bem brasileiro da vilã de novela (“Eu tenho vergonha de ter você como irmão!”). Estranhamente, partindo da promessa de discussão moral (a exposição de diferentes pontos de vista acerca de cultura e comportamento), o drama se torna moralista (pregando uma postura moral em detrimento de outra).

Logo, os jovens gays, especialmente aqueles dedicados aos trabalhado do sexo, serão culpabilizados por suas escolhas “livres”. O melhor colega de Taiga, um rapaz conhecido na empresa como o “mais safado de todos”, contrai uma forma gravíssima e incurável de sífilis. Em pleno 2025, na cidade de Tóquio, o homem precisa ser afastado do convívio social devido às marcas profundas no rosto e no corpo inteiro. (Nada mais punitivo do que castigar a pessoa sexualmente ativa com uma doença ou infecção). A tal organização dos relacionamentos de fachada se posiciona radicalmente contra a união estável, por não proporcionar os mesmos direitos do casamento heterossexual. Por isso, defende os laços protocolares, somente para fins de documentos. Taiga e o filme concordam com eles.

Pior ainda, num gesto irrefletido, o protagonista decide sequestrar a sobrinha pequena, porque afirma estar “mais feliz ao lado ela”. Subitamente, o pacífico jovem se converte no protótipo do gay perigoso para crianças, além de irresponsável, instável, chantagista. Trata-se da materialização do homossexual enquanto “ameaça à família tradicional”. O infrator será acolhido com um soco e uma ofensa homofóbica — algo que o roteiro vende como plenamente justificável, dadas as circunstâncias. Taiga se oferece à agressão, sentindo-se culpado (ele chora, na cena anterior, dizendo se tratar de um homem mau). Ao invés de denunciar a marginalização de homens gays, o filme começa a sugerir que talvez haja motivos razoáveis para serem afastados à sociedade.

Assim, conforme a trama avança, Tiger condena seu personagem à solidão e à autoexclusão, enquanto única forma de existir. Ele será escanteado por todos que ama, colocado numa posição de figurante em seu trabalho, e mesmo desprezado pelo único garoto japonês por quem tinha sentimentos. O drama se encerra, inclusive, no olhar de deboche do outro ator pornô, que concede a transa com um astro da indústria, mas não com o pobre Taiga — descrito em cenas anteriores como feio, magro, sem habilidades para fotografias. Mais do que pessimista, o discurso se prova fatalista, e condescendente com o desprezo dos demais. Compreende que as coisas são assim mesmo, algumas pessoas não mudam, e tanto os familiares homofóbicos quanto o trabalhador do sexo teriam sua “parcela de culpa” nos fatos ocorridos. Espectadores de direita podem se deliciar com esta jornada, estimando que, afinal, o homem gay mereceu o desfecho que teve.

Por isso, o aparente cuidado na descrição inicial, e a perspectiva de um debate distanciado acerca de sexualidade e configurações familiares, se converte num périplo da inevitável solidão gay. Além de Taiga, há o amigo sifilítico, e outro, casado com uma mulher, e reprimindo sua sexualidade. A narrativa não concebe uma única possibilidade (simbólica ou sonhada, que seja), de contentamento. O destino de todos os personagens LGBTQIA+ será o exílio e a melancolia — como se tivessem escolhido este caminho para si próprios. É curioso, neste momento, pensar nas obras de Rainer Werner Fassbinder, que também apostava em conclusões invariavelmente negativas (muitas delas, envolvendo a solidão e morte dos protagonistas).

Ora, o alemão efetuava uma clara denúncia do sistema que condenava os indivíduos a tal destino, colocando-se do lado deles, e demonstrando ternura pelos rejeitados do sistema. Havia um tom de indignação, de afronta, nas mortes frontais e raivosas de seus desfechos (vide O Direito do Mais Forte É a Liberdade). Já o diretor Anshul Chauhan demonstra com imperturbável naturalidade esta sequência de condenações ao herói. Mesmo que Kawaguchi o interprete com um misto de timidez e respeito, Taiga ainda será punido por sua simples existência. O roteiro não encontra possibilidades para um sexo feliz, um casamento por amor, nem mesmo uma amizade duradoura, a partir de uma subjetividade queer. Há um grau preocupante de homofobia internalizada neste olhar que, sob pretexto de alertar a respeito do isolamento de gays, acaba normalizando-o. 

Tiger (2025)
4
Nota 4/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.