Um Pequeno Grande Plano (2021)

A revolução será infantil

título original (ano)
La Croisade (2021)
país
França
gênero
Drama, Comédia, Fantasia
duração
67 minutos
direção
Louis Garrel
elenco
Joseph Engel, Louis Garrel, Laetitia Casta, Ilinka Lony, Julia Boème, Lionel Dray, Clémence Jeanguillaume, Lazare Minoungou
Visto em
Festival Varilux de Cinema Francês 2022

Tudo começa da maneira mais simples possível. Pai, mãe e filho em casa, conversando à mesa. De repente, o filho diz que tem planos para uma viagem. Ele vai com amigos. Eles são centenas, do mundo inteiro. Talvez ele tenha vendido a patinete para financiar os custos. E algumas coisas da casa. Pouca coisa. Um relógio, um vestido. Ah, sim, e várias blusas. Dezenas de livros, vinhos caros, abotoaduras em ouro. Recuperar? Impossível. Os compradores usam pseudônimos, é claro.

Esta primeira cena representa uma pérola da comédia e do domínio de mise en scène. Louis Garrel, ator e diretor, comprova sua paixão pelo teatro do absurdo e o realismo fantástico, em registro discreto e progressivo: a insanidade se infiltra no cotidiano por pequenas frestas, intensificando-se cena após cena. Os pais passam da desconfiança em relação às atitudes do garoto à admiração, à incredulidade, à raiva completa. O menino, de expressão inalterada, confirma cada uma das vendas.

Um Pequeno Grande Plano (2021) parte da constatação de um mundo em crise. Os dois únicos casais de adultos em cena estão prestes a se divorciar. Justamente por dedicarem tanto tempo à própria ruptura, permitem que os pequenos se organizem em segredo numa cruzada para criar florestas em pleno deserto do Saara. As abelhas estão morrendo, há partículas nocivas de gás lá fora, obrigando as pessoas a usarem máscaras PFF2 — soa familiar? 

No entanto, nenhum elemento estético permite constatar tamanha catástrofe mundial. A nuvem de partículas é invisível, a destruição do planeta não pode ser vista de dentro dos apartamentos parisienses. Seria mesmo verdade? A narrativa se constrói entre o tom fabular e a crônica social: os fatores enunciados pelo pequeno Joseph (Joseph Engel) soam ao mesmo tempo plausíveis e exagerados, verossímeis e impossíveis. “Então o mundo vai acabar amanhã?”, questiona o incrédulo Abel (Louis Garrel). A esposa dá de ombros. Talvez acabe.

O autor compreende, como tantos diretores da nova geração, que apenas o cinema de gênero consegue dar conta do mundo onde vivemos.

O autor compreende, como tantos diretores da nova geração, que apenas o cinema de gênero e as figuras de linguagem conseguem dar conta do mundo ao contrário onde vivemos. Retratá-lo tal qual soaria como uma lição de moral, um aviso óbvio — algo como alertar fumantes a respeito dos perigos do fumo. No entanto, o grotesco, a caricatura, a ironia e o exagero permitem acentuar traços tanto da crise, quanto da nossa passividade e conformismo diante do caos.

Por isso, a brincadeira deste projeto consiste em imaginar crianças se ocupando da função política negligenciada pelos pais. “Precisamos agir rápido, senão vamos ficar como vocês”, alerta o pequeno Joseph, em tom grave. Os meninos do mundo inteiro elaboram relatórios de engenharia, química e biologia, conseguem a aprovação de ministérios do mundo inteiro e bolam um planejamento estrutural a longo prazo para salvar a natureza. Enquanto isso, os adultos zumbificados ainda discutem se o aquecimento global existe de fato.

Alguns fatores poderiam incomodar neste percurso, sobretudo aquele que consiste em colocar meninos e meninas franceses, brancos e de classe média, decididos a salvar a África. Felizmente, o roteiro escapa do viés eurocêntrico ao desenhar a iniciativa ecológica como partindo de crianças africanas, que visam resgatar a ecologia mundial, ao invés de africana. O Brasil, inclusive, é citado na condição de exemplo contrário, devido à destruição da Amazônia pelo governo Bolsonaro.

Garrel conduz esta traquinagem infantil com uma linguagem propensa às situações cotidianas. Ele aplica uma câmera na mão, levemente móvel, além de luz natural e um trabalho cru de captação de som direto. Ele próprio e Laetitia Casta, nos papéis centrais, dedicam-se a uma composição minimalista, despojada, de ar inconsequente. Privilegia-se o avesso do sensacionalismo ou do tom de urgência. O humor é acentuado pelo contraste entre as falas apaixonadas do filho e a rotina morosa dos pais.

Em termos de estrutura, o longa-metragem de curtíssima duração (67 minutos) lembra um conto literário. Ele supõe uma realidade paralela, ainda que em contato direto com a nossa, para desenvolvê-la então de maneira plenamente naturalista — como talvez fizesse Saramago em seus escritos. O final será propositadamente aberto, uma mistura de comprovação do real e atestação do sonho: podemos acreditar nos nossos próprios olhos? O cinema seria apenas uma miragem, uma porta aberta aos sonhos?

Com apenas quatro longas na carreira enquanto diretor, Louis Garrel tem construído uma filmografia sólida, coesa e autoral. Dois Amigos (2015) e Um Homem Fiel (2021) já apontavam para o desejo de observar as estranhezas inerentes ao nosso mundo. Para quê atribuir conflitos externos, como doenças e golpes do destino, se o nosso dia a dia está repleto de problemas propícios à narrativa cinematográfica?

Garrel segue se colocando na posição do homem comum, um jovem adulto desprovido de qualidades particulares, nem defeitos evidentes. Ele constata transformações importantes ao redor (a paixão do melhor amigo pela mulher que ama em Dois Amigos; a partida da namorada em Um Homem Fiel; a decisão de viagem do filho em Um Pequeno Grande Plano) de maneira inerte, incapaz de oferecer respostas. Ao longo destas minúsculas aventuras íntimas, fornece uma imagem tragicômica do macho fracassado, apesar de bem-intencionado, do século XXI.

Desta vez, o cineasta refina seu procedimento rumo ao mínimo denominador comum da linguagem cinematográfica: não existem cenas de vaidade, grandes arroubos de estrelismo, ou nenhuma cena sequer mais extensa e inchada do que as demais. Ele opera na economia narrativa, acreditando numa forma de pureza através da recusa ao espetáculo. Desta maneira, elabora uma pequena pérola do cinema político e infantil em simultâneo, tão voraz em sua metáfora quanto singelo nas imagens. Um bicho estranho e raro de uma fauna audiovisual em extinção.

Um Pequeno Grande Plano (2021)
9
Nota 9/10

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