Vainilla (2025)

A infância em comum

título original (ano)
Vainilla (2025)
país
México
gênero
Drama, Comédia
duração
96 minutos
direção
Mayra Hermosillo
elenco
Aurora Dávila, Fernanda Baca, Rosy Rojas, María Castellá, Natalia Plascencia, Paloma Petra, Lola Ochoa
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

Diz-se que um bom cineasta pode ser detectado pela maneira como filma cenas de jantar. Onde posicionar a câmera para retratar a todos — tanto de frente quanto de costas? De que maneira alternar de um rosto ao outro? Um pensamento equivalente pode ser dito da maneira como jovens cineastas experimentam o coming of age story, ou seja, a história de passagem à fase adulta. O que podem trazer à jornada agridoce de crianças descobrindo a dura vida dos pais? Que ferramentas empregam para dirigirem atores mirins, para estabeleceram uma dinâmica plausível de cena, e darem suficiente atenção a todos os familiares de uma narrativa coral?

Trata-se de uma forma de cinema percebida como humanista, acessível, capaz de transitar entre o cinema “de arte” e os filmes populares. Afinal, quem não se identificaria com os dilemas do primeiro beijo, da puberdade, da descoberta dos problemas financeiros e afetivos dos pais? A capacidade de identificação é imediata — além de transmitir a diretores e diretoras uma oportunidade de falarem de si próprios, embutindo vivências próprias que soam ainda mais verossímeis devido às recordações pessoais. Pode-se falar num gesto de humildade e sinceridade, ao mesmo tempo. 

A autora cumpre a contento a cartilha convencional a que se propõe. Ela dirige muito bem suas atrizes. Ressente-se, no entanto, a falta de ousadia no interior desta receita.

Anualmente, festivais dedicados ao cinema infantojuvenil (caso da Mostra Geração da Berlinale) apresentam dezenas de projetos semelhantes, em diversas regiões do mundo. O mexicano Vainilla vem acrescentar seu pequeno tijolo à gigantesca construção do coming of age no cinema independente. A diretora Mayra Hermosillo concebe uma casa formada por sete mulheres de três gerações, enfrentando graves dificuldades financeiras, mas ajudando-se a superarem seus dilemas profissionais e amorosos. Elas se provocam, mas se adoram; mentem umas para as outras, mas estão presentes quando a outra precisa. Existe certa ordem neste caos — elas funcionam bem assim. Não se espantará se diversos elementos do drama decorrerem de lembranças reais da infância da autora.

Neste caso, a direção de fotografia de Jessica Villamil se delicia com as possibilidades de filmar diversas pessoas ao mesmo tempo, entrando e saindo dos cômodos, efetuando ações em paralelo. Num simples giro da câmera, observamos mulheres pintando as unhas, ou compartilhando segredos, ao passo que as garotas ensaiam alguma música, de pé na penteadeira. O ritmo se torna dinâmico, agradável, graças ao entrosamento entre as atrizes, bem coordenadas para um nível equivalente de humor agridoce. Elas enxergam as levezas do cotidiano (um papagaio chamado Jitler, de pronúncia idêntica ao ditador), mas também integram cenas austeras, a exemplo das ameaças de despejo, e de um caso de violência sexual. 

Conforme as regras do feel good movie, é preciso que estes elementos se alternem, sem deixar que a comicidade se torne forte demais, ou que a melancolia domine o tom por completo. Os cânones exigem, em paralelo, que o ponto de vista se cole a uma criança, incapaz de compreender os problemas ao seu redor. Por isso, Roberta tenta subornar o agiota da família com balas e bombons, e acredita que uma eventual viagem à praia salvaria as mulheres de seus calvários. A direção aprecia a benevolência deste olhar inocente, enquanto revela as mazelas (próximas da caricatura novelesca) da mãe alcoólatra e da avó cleptomaníaca.

O roteiro planta diversas sementes de conflitos recorrentes, cujo significado se completa somente na conclusão. Demoramos a entender o significado dos sonhos de afogamento da garota; assim como o motivo para o espanto de Roberta no supermercado; as razões para a menina sempre vestir um maiô; os xingamentos de “enfermeira” pelas meninas da escola; as implicâncias da carta de cobrança sobre a mesa, etc. Hermosillo adora gags e reincidências: a canção nunca tocada pela rádio, solicitada pela empregada Tachita; a busca pelo sorvete que nomeia o filme; o sonho da apresentação. Assim, alude aos elementos e promete um desfecho satisfatório para cada indício na conclusão. Nenhum símbolo será abandonado neste percurso de colecionador. 

Rumo à conclusão, tudo se costura em virtude da apresentação musical da menina, em efeito catártico semelhante até demais à coreografia desajeitada (e inesperadamente adulta) de Pequena Miss Sunshine. Ora, após uma cena bastante violenta de estupro, o filme se estimava responsável por aumentar, proporcionalmente, o grau da comicidade. Os passos da narrativa são rigidamente pensados em termos de uma recompensa emocional ao espectador, capaz de sair da sessão com leveza. O público não terá dificuldade em identificar traços da própria família nesta galeria de mulheres, com a certeza de que, para cada catástrofe do percurso, haverá alguma magia do cotidiano, capaz de atenuá-la. Manifesta-se uma crença profunda no equilíbrio de tons.

Neste sentido, a autora cumpre a contento a cartilha convencional a que se propõe. Ela dirige muito bem suas atrizes, extraindo instantes de delicadeza das crianças, além de diversão entre adultos. (O teor balanceado exige que, após uma conquista típica de adultos por parte de Roberta, as mães, tias e avós façam uma dança das cadeiras, tais quais meninas pequenas). Hermosillo comprova a capacidade de controlar uma dinâmica em cena, hierarquizar olhares e controlar tanto imagens quanto sons. Demonstra competência e profissionalismo para um cinema funcional, razoavelmente comovente, e digno de exibição em festivais nacionais e internacionais — nada mau para uma autora em seu primeiro longa-metragem.

Ressente-se, no entanto, a falta de ousadia ou criatividade no interior desta receita. Vainilla se prova uma gostosa sessão da tarde, de sabor tão consensual quanto a baunilha a que se refere. Em contrapartida, qualquer cinéfilo já terá assistido a algumas dezenas de projetos semelhantes em acertos e erros, em tons e lembranças pessoais. O que a autora poderia oferecer, em seus próprios projetos, de arriscado, inesperado, provocador — mesmo dentro do coming of age story, caso venha a se provar seu subgênero de predileção? Este longa-metragem soa como um belo filme-portfólio, capaz de demonstrar habilidades a-quem-interessar-possa. Não restam dúvidas quanto ao potencial da autora. Agora, resta a expectativa para uma iniciativa realmente marcante.

Vainilla (2025)
6
Nota 6/10

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