Virtuosas (2025)

O inferno são as outras

título original (ano)
Virtuosas (2025)
país
Brasil
gênero
Terror, Suspense
duração
88 minutos
direção
Cíntia Domit Bittar
elenco
Bruna Linzmeyer, Maria Galant, Juliana Lourenção, Sarah Motta, Brisa Marques, Gabriel Godoy, Nenê Borges, Fernando Bispo
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

A relação entre as mulheres de Virtuosas é bastante complexa. Elas se admiram, se elogiam, mas também se julgam, invadem a privacidade alheia e, no fundo, desprezam umas às outras. Virgínia (Bruna Linzmeyer) representa a líder do grupo: uma mulher religiosa, que dedica tanto tempo ao marido quanto a formar suas seguidoras para encontrarem o caminho da retidão. Germina (Maria Galant) se esforça muito para entrar no Retiro VIP comandado por Virgínia, embora, chegando lá, revele motivos distintos para esta imersão no universo da feminilidade ultraconservadora.

Lorena (Juliana Lourenção) transborda de privilégios, graças ao marido político, apesar de ser aquela com maior fragilidade emocional. Ela rapidamente se converte na preferida da líder, para o desespero, inveja e ciúme das demais. Já Gorete (Brisa Marques) constitui a única participante bem inserida e adaptada ao contexto das mulheres virtuosas, seguindo sua guia com uma fidelidade que beira a paixão. Ela sofre a concorrência acirrada de Bárbara (Sarah Motta), novata destinada a provar-se a melhor aluna da classe. A própria Virgínia, por sua vez, admira e desdenha de cada uma delas, consideradas inferiores, falhas. Ela manifesta um misto de senso materno e condescendência em relação a estas figuras ávidas por suas próximas ordens.

Virtuosas possui o mérito de detectar um perigo à sociedade, e não se limitar a ridicularizá-lo: o filme enxerga estes movimentos ultraconservadores com um assombro digno de sua sofisticada retórica. 

Cada personagem equivale a uma diferente peça deste xadrez, dotada de movimentos próprios, e também limitações particulares. Ainda assim, integram o mesmo jogo, no qual o objetivo será, em última instância, eliminar as adversárias. Desde a trilha sonora de suspense, até o senso de isolamento e impunidade típicos do terror (ninguém saberá o que ocorre no casarão isolado), subentende-se que a “imersão” neste programa não terminará bem. Logo intui-se que a virtude de uma mulher será ainda maior caso supere, concreta e simbolicamente, as aspirantes ao redor. Trata-se, de maneira consciente ou não, de um jogo de competição.

A diretora, roteirista e montadora Cíntia Domit Bittar escolhe retirar os homens das imagens, embora estejam presentes no pensamento e nos diálogos das protagonistas, o tempo inteiro. Elas se colocam em tal posição para eles, em nome deles. Aprendem que, se os maridos constituem a cabeça da relação, as mulheres seriam o pescoço — uma parte incapaz de pensar por si própria, ainda que sustente e direcione o cérebro do casal. Curiosamente, a única intromissão de uma presença masculina concreta neste pretenso antro de pureza (o fotógrafo Cléber, interpretado por Gabriel Godoy) não desperta nenhuma faísca de erotismo, ou de disputa suplementar, entre as habitantes. A trama se desvia do possível conflito à la O Estranho que Nós Amamos.

O longa-metragem privilegia a construção de um imaginário próprio. Não se trata de apreender uma realidade in loco, mas de erguer um universo hermeticamente fechado — estas mulheres criam o mundo protegido onde gostariam de viver. Tudo soa artificial, pois foi concebido com tal finalidade: a casa é pacífica e arrumada demais; as roupas são impecavelmente passadas e novas; os cabelos, sempre lisos e intactos; os gestos da mão, os movimentos da cabeça, e as pequenas expressões, rigidamente calculadas. O contexto das treadwives se encontra com a robotização de Mulheres Perfeitas, enquanto a devoção bíblica se converte num espetáculo de perfeição e de abnegação de si — em nome do outro. A monstruosidade, neste filme, reside numa existência sanitizada, de cores discretamente bege e rosa. Para a cineasta, a verdadeira violência se esconde por trás dos sorrisos e vozes aprazíveis, ou seja, na formatação da feminilidade, que implica numa perda da subjetividade. 

Enquanto isso, inclui alguns facilitadores na narrativa, de verossimilhança contestável. Neste casarão, com mulheres repletas de segredos a esconder, todas as portas permanecem abertas e, apesar das invasões reiteradas ao quarto alheio, o acesso continua livre. Textos ocultos estão disponíveis mediante um clique, em computadores desprovidos de senha. Ligações telefônicas secretas são efetuadas em voz alta, dentro daquele cômodo de porta entreaberta. Estas mulheres se observam tomando banho, e exploram as genitálias alheias coletivamente, diante de todas. Tais provocações transparecem uma interessante conotação lésbica — como se, de certa forma, elas desejassem ser invadidas, para que isso legitimasse o desejo de invadir as seguintes. Posto que controlam as atitudes uma da outra, o corpo também se tornaria um terreno disponível. Nesta lógica tradicionalista, desaparece a fronteira entre o público e o privado, entre o individual e o coletivo.

É claro que a alegre convivência entre elas não poderia durar muito tempo — a narrativa inteira se constrói na promessa do instante em que esta configuração desabará, espetacularmente. Ao contrário da maioria das narrativas de terror, que se inicia com alguma expressão da violência (para provar ao espectador que a ameaça é real), Virtuosas sustenta uma promessa enganosa de pacifismo entre as habitantes do Retiro VIP. Trata-se de uma brincadeira da mise en scène, servindo a prolongar a tensão. A aposta se mostra arriscada: quanto maior for a expectativa em relação à carnificina, maior será igualmente a cobrança pelo show de sangue capaz de sujar os terninhos impecáveis. Afinal, o ambiente de tamanha polidez não se estragaria com uma pequena manchinha: é preciso atacá-lo violentamente, enquanto forma de criticar a instituição que estas mulheres representam.

Para a nossa felicidade (sádica, perversa?), Bittar apresenta uma conclusão poderosa, à altura da brutalidade sugerida. Ela elabora sua trama como uma barragem imponente, porém, na qual se enxergam pequenas fissuras. Sabemos que, quando o concreto enfim cair por terra, a enchente destruirá tudo ao redor. A obra possui a coragem de romper com alguns pressupostos do terror, adotando liberdades e ousadias consideráveis para o gênero. Ao invés do otimismo redentor (a eliminação do inimigo), ou da trégua com as forças do mal (quando parte das heroínas sobrevive, mas a ameaça também, permitindo uma sequência), privilegia a conclusão amarga, na qual o horror reside precisamente na falta de alternativas. 

Ignora-se a tradicional recompensa emocional ao espectador, e a certeza de que tudo ficará bem, em prol de uma cautionary tale a respeito de um país ameaçado pela extrema-direita. Bittar evita a armadilha do empoderamento feminino súbito, porque não enxerga soluções fáceis ao problema apresentado. Nesta casa, povoada por uma amálgama de Michelle Bolsonaro, Damares Alves, Ana Caroline Campagnolo, Julia Zanatta, blogueiras cristãs e influenciadoras antifeministas, aposta-se que a luta pela autonomia não se conquistará via afeto e boa vontade. Virtuosas possui o mérito de detectar um perigo à sociedade, e não se limitar a ridicularizá-lo: o filme enxerga estes movimentos ultraconservadores com o assombro digno de sua sofisticada e sedutora retórica. 

Virtuosas (2025)
8
Nota 8/10

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