Nos tempos áureos do cinema mudo, Queen Kelly (1929) deveria se tornar um dos maiores filmes da história do cinema: um épico de quase cinco horas de duração, estrelado pela grande Gloria Swanson, e dirigido por Eric von Stroheim, um dos cineastas mais respeitados da indústria.
No centro da história estava Patricia Kelly, jovem ingênua, vivendo em um convento, até chamar a atenção do mulherengo príncipe Wolfram, que decide trazê-la para dentro do palácio. Mas o nobre está prestes a se casar com a rainha Regina V, que pune a garota por sua inocência e ousadia. Kelly vai então à África, e trabalha em um prostíbulo.
Ora, conforme a produção se tornava mais cara, e os conflitos nos bastidores se multiplicavam (Swanson não estava nada contente com as cenas africanas), os produtores demitiram von Stroheim, tentando finalizar a obra da melhor maneira possível a partir das cenas já filmadas. Desde então, Queen Kelly se tornou um marco na história infame de produções inacabadas, ou nunca realizadas, da história do cinema.
Durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o resultado desta reimaginação foi exibido ao espectador, incluindo todo o material conservado e disponível. O restaurador Dennis Doros, encarregado de preservar o longa-metragem, conversou com o Meio Amargo a respeito dos desafios deste processo:

Como se aborda a restauração de um filme inacabado?
Dennis Doros: Essa é uma ótima pergunta. Eu não chamo isso de “restauração”, porque uma restauração significa que você está restaurando o trabalho da pessoa — como ela o concebeu, como ela o filmou — e Queen Kelly nunca foi finalizado. Então, eu não posso restaurar algo que Von Stroheim não fez — e isso seria até um insulto aos outros arquivistas que fazem restaurações de filmes. Por isso, fui muito cuidadoso em não chamar de restauração. Eu pertenço a várias organizações profissionais que têm códigos de ética, então precisei criar algo que chamei de “reimaginação”. Uma reimaginação do que Von Stroheim teria feito se tivesse podido terminar o filme.
Fiz o melhor possível para chegar perto dos planos originais de Stroheim. Tive muita sorte, porque Gloria Swanson e o produtor Joseph Kennedy guardaram tudo. Então, eu tenho talvez 15 mil páginas de documentos, com dezenas de roteiros, a história original que ele entregou a ela, as anotações do primeiro dia de filmagem, as diárias. Eu tenho tudo — umas 300 fotos. Esse filme continua sendo incrivelmente bem documentado. Vai sair um livro sobre ele — felizmente, não escrito por mim. Então, eu fui abençoado não só porque esses materiais existem, mas porque os arquivistas digitalizaram milhares e milhares de páginas para mim. Assim, eu pude ficar em casa consultando esses documentos, em vez de ter que ir até Texas ou Boston para cavar freneticamente esses papéis. Eles me deram esses presentes, o que é maravilhoso.
Eu não chamo isso de “restauração”, porque Queen Kelly nunca foi finalizado. Eu não posso restaurar algo que Von Stroheim não fez.
Considerando as partes que realmente existiam — principalmente o início do filme —, em que condições o material foi preservado? E quanto à indicação da trilha sonora?
Dennis Doros: Bom, havia era uma trilha sonora inicial, ou melhor, indicações para uma trilha sonora. Ela termina por volta dos 60 minutos de um filme que teria cerca de 5 horas. Essa parte existe — e a trilha existe —, o que é ótimo. Mas era um filme mudo, e o restante dos meus 45 minutos não tinha trilha. Então, trabalhamos com o departamento de música da Universidade de Indiana, que organizou um concurso para escolher um compositor que escrevesse a nova trilha de Queen Kelly. E escolhemos um brilhante compositor de 24 anos, que criou uma trilha belíssima, executada e gravada pela orquestra da universidade. Então, devo dizer que o meu trabalho foi apenas uma parte desse processo de reimaginação. Os laboratórios, os arquivos — todos fazem parte desse processo. E minha esposa, Amy Heller, esteve comigo em cada passo; ela tem crédito como coautora dessa “restauração”, porque segurou minha mão e dizia: “Você tem certeza de que quer fazer isso?”. Nós trabalhamos juntos nisso.

Qual a importância de trazer essa reimaginação de Queen Kelly hoje? Como compara este projeto às iniciativas cinema atual?
Dennis Doros: Eu prefiro separar o cinema comercial daquilo que os artistas fazem. Na Mostra de Cinema de São Paulo há muitos artistas, então não quero falar do processo criativo deles — que é difícil e genuíno. Mas o cinema comercial é feito por números. Quase todo roteiro de filme de ação é exatamente igual: a descoberta, a queda, a situação constrangedora, o retorno triunfante. Tudo é igual. Então, em filmes como Queen Kelly, em que havia um artista, ou nos filmes de artistas de hoje, cada obra é uma joia preciosa, um tesouro. Quando você olha um Monet, você não vê apenas um quadro, mas mil quadros de Monet — cada um te dá algo diferente, uma emoção, uma sensação. Cada filme tem esse prazer, essa presença, que precisam ser celebrados. As grandes obras.
E Queen Kelly sempre teve algo especial desde o início, porque Von Stroheim era um diretor brilhante e fascinante. Ele estava tentando fazer coisas subversivas até para os dias de hoje — o sacerdote africano casando pessoas brancas e dando bênçãos a brancos; um bordel com trabalhadoras e marinheiros de todas as raças, bebendo juntos. Isso jamais seria permitido em 1929 — e ainda hoje chocaria o público em alguns lugares do mundo. Ele estava testando os limites do que a sociedade permitia — e eu adoro cineastas assim.
Von Stroheim era um diretor brilhante e fascinante. Ele estava testando os limites do que a sociedade permitia.
Diria então que os problemas enfrentados por von Stroheim foram tanto morais quanto financeiros?
Dennis Doros: Sim, absolutamente. A maioria de seus filmes dava lucro, embora não tanto quanto os filmes baratos com astros medianos e diretores ruins. Nos anos 1920 já existiam “filmes de fórmula”, feitos apenas para gerar dinheiro. Eles custavam 20, 30, 40 ou 50 mil dólares, e rendiam muito. Já os filmes de Von Stroheim custavam 150 mil e rendiam 160 mil. Os estúdios não ficavam muito felizes. Mas, neste caso, houve também a chegada do som, o desgosto de Gloria Swanson por uma cena em que o dono da plantação sifilítico cuspe tabaco na mão dela durante a cerimônia de casamento…
Houve uma combinação de fatores que levaram ao fracasso do filme — não dá para culpar uma única pessoa. Joseph Kennedy, claro, não era o homem mais simpático do século XX — era praticamente mau —, mas no geral, foram muitas circunstâncias juntas que causaram o fracasso.

Parece que Von Stroheim tentava fazer cinema de autor dentro da indústria, almejando o melhor dos dois mundos — e isso acabou desmoronando.
Dennis Doros: Sim. Para mim, Lubitsch era o autor do quarto; e Von Stroheim, o autor do banheiro.
Seu lema era “vamos nos sentar junto no esgoto”. Ele literalmente mostrava uma parte da vida que as pessoas não queriam ver. Por exemplo, em Queen Kelly, você vê a rainha andando até a sacada, supostamente nua, com apenas um tecido transparente sobre o corpo. Ele tentava mostrar coisas que nenhum outro diretor se atrevia. Nos EUA, casais não podiam dividir a mesma cama na TV até os anos 1970 — tinham que dormir em camas separadas! Mas ele mostrava o outro lado da vida: pessoas se vestindo, trabalhando, indo ao banheiro. E encontrava poesia onde outros não viam. É por isso que ele continua importante.
Temos que assistir a Queen Kelly e a Crepúsculo dos Deuses juntos. É uma continuação.
Enxerga uma influência direta dele em outros cineastas?
Dennis Doros: Bem, Martin Scorsese é influenciado por todo mundo. Ele certamente viu tudo de Von Stroheim. Michael Powell me mandou um cartão antes de morrer, dizendo: “Como você sabia que Queen Kelly era um dos meus filmes favoritos? Obrigado por Queen Kelly.” Ele foi muito influenciado por Von Stroheim — dá pra perceber em Coronel Blimp: Vida e Morte, não tanto nos filmes mais íntimos, mas a influência está lá. Curiosamente, as pessoas se dizem mais influenciadas por Ouro e Maldição, que é uma exceção em relação ao resto da obra de Von Stroheim. A maioria dos filmes dele tratava da realeza e da farsa por trás da realeza — mostrando que os ricos eram tolos, e os plebeus, sábios. Queen Kelly seria a declaração definitiva sobre isso.
Depois da sessão de Queen Kelly aqui, eu quis imediatamente rever Crepúsculo dos Deuses, sobre a queda dessas duas figuras incríveis (Swanson e Von Stroheim). É o outro lado da moeda.
Dennis Doros: Acho que temos que assistir aos dois juntos — é assim que entendemos Crepúsculo dos Deuses. É uma continuação. Billy Wilder foi o maior e mais maravilhoso canalha da história do cinema por colocar os dois juntos e mostrar até onde haviam caído por causa de Queen Kelly. Ele conhecia bem a história — era fã de Von Stroheim — e os estúdios odiavam o filme, porque mostrava um lado de Hollywood que eles não queriam divulgar. Eles queriam mostrar balconistas virando estrelas de cinema, não estrelas virando balconistas.

De certa forma, alguns desses grandes filmes inacabados — vistos como fracassos — acabam se tornando mais famosos do que muitos filmes finalizados.
Dennis Doros: As pessoas se fascinam pelo que é inalcançável, perdido. Há até um subgênero literário sobre filmes de nitrato perdidos, redescobertos em rituais satânicos e coisas assim — é incrível. Esses grandes artistas sendo derrubados pelos engravatados — nem sempre é verdade, mas é como o público percebe. As pessoas amam a ideia do “que poderia ter sido”. Espero que se interessem igualmente pelos filmes que ainda existem — como fazem aqui na Mostra de São Paulo, o que é maravilhoso. E exibir filmes de cineastas como Ousmane Sembène é fabuloso.
Amy e eu somos meio “chatinhos” — queremos mostrar filmes desrespeitados e ignorados ao longo dos anos e provar que são obras que merecem ser vistas. Dedicamos nossas vidas a isso. Queen Kelly foi meu primeiro “filho cinematográfico”, então eu tinha que voltar a ele. Hoje trabalhamos com Charles Burnett, diretores negros, LGBT, mulheres diretoras — queremos mostrar os olhares que o mundo apagou, perdeu, ignorou. Essa também é a história do cinema. A maioria desses filmes desapareceu porque foi desrespeitada desde o primeiro dia.
Estamos trabalhando agora num filme de uma mulher negra americana. Ela era figurinista da Broadway e quis fazer um filme com Yaphet Kotto. O filme passou talvez três vezes, e nunca mais foi exibido. O negativo original e a trilha estão lá. A bisneta está nos ajudando. Há muitos filmes assim, ignorados, esperando para serem descobertos — essa é a parte divertida do trabalho. Só me restam uns sete, oito meses na Milestone — estamos entregando a empresa —, mas vou continuar restaurando filmes. Há muito mais para descobrir, e fico feliz que outras pessoas estejam continuando esse trabalho.
Queremos mostrar filmes desrespeitados e ignorados ao longo dos anos e provar que são obras que merecem ser vistas.
Isso é ótimo de ouvir. É fundamental não só restaurar filmes completos, mas também pesquisar as produções não canônicas.
Dennis Doros: Sim, eu admiro muito os arquivistas de estúdios como Columbia e Universal — eles lutam contra a política corporativa para restaurar filmes que nunca darão lucro. Estão recuperando filmes de 1931 que jamais renderão um centavo. Então, há pessoas em todo lugar que se importam com o cinema, que amam o cinema — e o arquivo de São Paulo é um dos melhores do mundo. Essas pessoas continuarão esse trabalho.


