Entre tantos filmes provocadores da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Satisfação (Satisfaction, no título internacional) tem despertado intensas conversas de corredor, devido à forma brutal como lida com o trauma. Na trama, Lola (Emma Laird), uma compositora em ascensão, começa a se relacionar com outro músico, Philip (Fionn Whitehead). Quando ela é vítima de uma violência, não sabe como reagir, e para de criar. A jovem demora muito até compreender o que realmente lhe ocorreu, graças à ajuda da amiga Elena (Zar Amir Ebrahimi), conhecida durante uma viagem à Grécia.
Em São Paulo, a diretora Alex Burunova explicou se tratar de uma dolorosa experiência pessoal, que decidiu transformar em seu primeiro longa-metragem. Ela conversou com o Meio Amargo a respeito do projeto.
(Foto em destaque: Robby Klein/Getty Images)

Você inicia o filme com um aviso sobre o tema sensível. Por que considerou importante acolher o público dessa maneira?
Alex Burunova: Eu queria preparar o público, deixá-lo ciente de que ele está prestes a embarcar numa jornada que pode ser um pouco desafiadora para alguns espectadores, e dar às pessoas a oportunidade de se retirarem caso sintam que não estão prontas para isso. Num filme sobre temas tão delicados, senti que era importante obter o consentimento do público para expô-lo a algo tão difícil.
Você levou quase dez anos para concluir o projeto, certo?
Alex Burunova: Sim. Há três partes principais nesse processo que o tornaram mais longo que o normal. A primeira é que se trata de uma história pessoal. Então, levei muito tempo para ser honesta comigo mesma a respeito do que aconteceu comigo, e como isso me fez sentir em relação a mim mesma. Demorei para escrever o roteiro e colocar tudo no papel, porque é uma experiência dolorosa. No começo, eu evitava o assunto — várias cenas importantes não estavam ali. Mas depois percebi que precisava ser honesta e enfrentar o caminho difícil.
A segunda parte difícil foi o financiamento, porque é uma história dura. É uma história sobre a experiência feminina — o que, digamos, não é o tema mais popular hoje em dia — e é uma narrativa intensa, com altos e baixos, o que inclui baixos bem profundos, com cenas emocionalmente pesadas.
Então, conseguir financiamento para algo assim — que não é um thriller de ficção científica, cheio de alienígenas sensuais — é complicado.
E a terceira parte demorada foi o elenco, porque eu queria encontrar os atores certos, realmente fortes. Como você deve ter percebido, as atuações carregam o filme nos ombros.

De fato, os três atores estão excelentes. Como você trabalhou com eles para abordar temas tão sensíveis?
Alex Burunova: Obrigada. Levei três anos para encontrá-los. Então, sim, isso demorou bastante. Eu conheci Emma Laird e trabalhamos juntas por seis meses. Eu venho do teatro, então sou grande fã de preparação imersiva, trabalho intenso, pesquisa. Dei a Emma toneladas de tarefas, e ela se dedicou completamente. Fez uma quantidade incrível de pesquisa. Além disso, contratei uma professora de piano para ela, e ela teve aulas durante seis meses. Depois, eu a enviei para conhecer compositores britânicos e imergir nesse mundo — fazer amizade, ir a eventos, observar como vivem. Assim, ela interpretaria alguém real. Como eu já estava insatisfeita há algum tempo com métodos tradicionais do teatro, criei um processo especial para ela — e ela topou totalmente.
Fionn Whitehead também precisa interpretar fortes cenas de violência. Isso deve ter exigido uma preparação específica.
Alex Burunova: O Fionn, na verdade, já está há um tempo em projetos de destaque. Foi protagonista em Dunkirk, Black Mirror: Bandersnatch, Voyagers e outras produções grandes. Mas ele ainda não estourou em termos de popularidade. Ele é excelente em papéis complexos — é o que eu mais gosto nele. Ele não tem medo de interpretar personagens com contraditórios, um pouco controversos. Trabalhamos juntos por um tempo, com a Emma. Eles ficaram morando juntos no mesmo Airbnb, construindo memórias reais — cozinhando, convivendo como seus personagens. Eles são atores com formação clássica, então tinham anotações de roteiro, exercícios, e chegaram muito preparados.
De fato, o filme me parece muito técnico e preciso, com imagens simétricas, elegantes. A criação me pareceu bastante calculada.
Alex Burunova: Há um equilíbrio aí. Na verdade, todos os diálogos foram improvisados. Nós trabalhamos intensamente as emoções e o passado das personagens, mas não as falas em si. Então, as cenas foram improvisadas. De fato, as imagens foram planejadas, porque sou também pintora, e desenhei os storyboards. Mas a ação dentro do quadro era diferente a cada tomada.

Gosto que todos os sentimentos destes personagens sejam transmitidos na música e na dança.
Alex Burunova: Este é um filme sobre artistas, então arte é a forma como eles se conectam com o mundo e consigo mesmos. Quando o evento traumático acontece, Lola não consegue mais olhar para dentro, então ela para de criar. A arte representa a expressão do eu. Quando ela perde isso, perde sua voz. O mesmo vale para a dança. É a Zeibekiko, uma dança grega tradicional, geralmente masculina, ligada ao luto, à liberação da dor. Ela é perfeita para a história. Quando Elena ensina Lola a dançar, é ali que ela liberta o trauma guardado no corpo.
A cena traumática, em si, é bastante dura e longa. Como escolheu a maneira de filmá-la?
Alex Burunova: Era importante que fosse uma cena subjetiva, centrada na experiência da personagem, sem truques de câmera. Escrevi desta maneira desde o roteiro, desenhei em aquarela no storyboard, e isso nunca mudou. O que está no filme é exatamente o que se encontrava no primeiro rascunho. Sobre as consequências, é assim que o trauma funciona. Por isso, muitas pessoas demoram oito a dez anos para conseguirem falar sobre o que viveram. É um processo que envolve negação, raiva, culpa. O filme é sobre aceitar a dor, abraçar o trauma como parte da própria história. Só assim se pode seguir em frente e se sentir fortalecido.

Como têm sido as reações do público?
Alex Burunova: A maioria foi extremamente positiva, mas também houve reações negativas — dirigidas em especial aos temas, não ao filme em si. Alguns espectadores ficaram desconfortáveis, revoltados com o que é mostrado — e eu adoro isso. Se o filme não desperta reações polarizadas, você está fazendo algo errado. Se as pessoas saem dizendo “Não sei como me sinto” ou “Preciso escrever uma crítica furiosa agora”, significa que você tocou nelas. O objetivo não era agradar, era abrir conversas — criar uma fissura, um pequeno movimento sísmico na cultura. E isso só acontece quando você se arrisca.
Uma mulher chegou a me dizer: “Isso não é realista! Lola não teria amigos? Uma mãe para conversar?”. Mas é baseado em uma história real. E é exatamente assim que acontece. Muitas vezes, após um trauma, você não consegue falar — nem com sua mãe, nem com amigos. Nós, mulheres, fomos treinadas por séculos a ficarmos em silêncio. Carregamos essa dor, e ela se acumula, dura décadas. Então, se essa espectadora ficou tão perturbada, talvez seja porque algo dentro dela ainda não consegue lidar com o tema — e isso também é válido.



