
No Teatro do Contêiner, em São Paulo, diversos artistas amadores são convidados a gravar um álbum coletivo de hip hop. Eles são moradores da Cracolândia, vivem em situação de miséria, e alguns são usuários de crack. Mesmo assim, sob a mentoria de Edi Rock (Racionais Mc’s) e outros grandes nomes do gênero, recebem aulas de canto e de escrita, até passarem ao estúdio profissional. O filme dirigido por Cristiano Burlan acompanha as semanas dedicadas a este projeto, enquanto o próprio espaço do Teatro sofre ameaças de despejo.
É possível que muitos realizadores optassem por certa contextualização didática desta iniciativa. Quem permitiu seu financiamento? Como foram escolhidos os dezesseis participantes, e que contato prévio tinham com a música? De que maneira a imersão neste cotidiano afetou suas vidas pessoais? Como os artistas profissionais integraram a oficina, e quais obrigações (de gravação e lançamento) eles tinham, ao final de tantos ensaios? Não sabemos. Mesmo diante da notificação de despejo, o grupo segue cantando, escrevendo e treinando — havia advogados ou líderes comunitários agindo junto à prefeitura, enquanto isso? O diretor se exime de qualquer explicação. Concentra-se unicamente no corpo a corpo com os personagens, transparecendo grande abertura ao acaso.
A obra traz belos momentos de apresentação. Mas também efetua escolhas curiosas de roteiro e montagem.
De fato, as cenas soam, em sua maioria, espontâneas. A câmera atenta se esforça para reenquadrar, modificar a luz e encontrar o melhor ângulo enquanto as ações ocorrem à sua frente. Mais do que um cinema de observação — termo contraproducente, que sugere uma passividade impraticável —, pode-se falar em um cinema da escuta. Assim, tanto a direção quanto a montagem de Burlan, Ana Carolina Marinho e Henrique Zanoni precisa efetuar escolhas imediatas diante de múltiplos estímulos à sua frente. Deve revelar a violência enfrentada por estas pessoas, ou se ater à música? Conferir igual tempo de tela a cada participante, num mosaico democrático, ou eleger aqueles que se abrem de maneira mais profunda ao dispositivo?
Curiosamente, este documentário evoca outro filme exibido no Festival de Vitória. Na ficção As Florestas da Noite, os diretores Priscyla Bettim e Renato Coelho sublinharam a intenção de abordar pessoas em situação de rua, usuários de drogas e ladrões enquanto potência, ao invés de um sintoma social. O que essas pessoas podem construir e elaborar? Que força elas teriam na arte, em virtude de sua experiência de opressão? Algo semelhante ocorre com Entre o Sucesso e a Lama. A narrativa incorpora confissões de dependência unicamente quando estas provêm dos próprios músicos. Caso contrário, prefere enxergá-lo precisamente como a mídia e os políticos que governam a cidade e o Estado de São Paulo se recusam a fazê-lo.
Deste modo, a obra traz belos momentos de composição e apresentação. Um sujeito eloquente e inteligentíssimo, após revelar sua dependência do crack, canta Je Ne Regrette Rien, de Edith Piaf, em ótimo nível de francês, afinação excelente, e uma expressividade marcante. Felizmente, a montagem percebe a preciosidade deste instante, conservando-o na totalidade. Adiante, uma garota consegue, ao final da aula de canto, encontrar sua afinação e consertar alguns problemas de respiração. Ela pula de alegria, eufórica, e agradece a professora que percebe a semelhança de seu timbre com aquele de Negra Li. Assim, os personagens são vistos em seu talento, suas capacidades, esperando para ser descobertos caso haja real investimento neles. Algo desabrocha nestes indivíduos ao longo do percurso.
Além disso, a camaradagem diária, incluindo uma canção entoada por todos, desperta um sentimento de família. Para as figuras excluídas, e tão carentes de acolhimento, o projeto representa um possibilidade de empoderamento e autonomia. Formam, de fato, um núcleo familiar, encorajando os demais e escutando com empatia quando relatam suas dificuldades. A opção pelos planos de catarse coletiva, ao final, quando comemoram e se abraçam, revela a importância deste mergulho artístico para todos os envolvidos. A direção deixa clara a sua postura política ao acreditar no sucesso da empreitada, através da valorização artística e social dos residentes. Evita tanto a condescendência quanto o paternalismo, preferindo vê-los como profissionais. Não há caridade nem nos coordenadores do projeto, nem por parte do cineasta, mas uma valorização do esforço, visando a gravação mais polida possível.
Até por isso, paira certa frustração diante da ausência do resultado final no filme. O cineasta nem mesmo indica ao espectador se o álbum foi concluído, lançado, e sua eventual recepção no mundo da música. De fato, Entre o Sucesso e a Lama efetua escolhas curiosas de roteiro e montagem. Inicialmente, planta seu principal conflito: a notificação de despejo, com a destruição do Teatro de Contêiner declarada pelo prefeito. Em contrapartida, uma hora de narrativa se passa sem que percebamos qualquer efeito desta contagem regressiva nos organizadores do local, e nos ocupantes do projeto social. Estão tensos? Organizando-se para enfrentar as forças policiais? Pressionados para concluir a gravação o quanto antes?


Teremos nossa resposta ao final. Entretanto, todo o desenvolvimento do filme carece da compreensão deste impacto na prática dos artistas envolvidos. A edição sabiamente intercala o cotidiano de ensaios com a presença constante da GCM à frente, com suas armas, simbolizando a ameaça. Entretanto, a viabilização da ordem judicial soa abrupta. De mesma forma, o documentário parece optar por ficar somente no teatro e no estúdio de gravação, fugindo à rotina familiar e amorosa dos dezesseis cantores. Ora, na segunda metade, a equipe finalmente se desloca até o bairro, apenas para ouvi-los cantar brevemente em frente às casas. Nenhum impacto da experiência in loco marca a narrativa, que retorna às aulas como se nada tivesse ocorrido. Este trecho resulta bastante deslocado.
Mesmo a decisão entre parecer invisível frente aos participantes, ou se posicionar enquanto personagem (em voz off, Burlan comenta as letras das canções e a qualidade das vozes) prova-se, de certa forma, vacilante. Algo semelhante pode ser dito de um ou outro instante mais roteirizado, e condicionado pela direção. Desta forma, notam-se algumas indefinições conceituais nesta abordagem, entre a imersão e o distanciamento, entre o olhar aos dezesseis participantes como profissionais singulares, ou como símbolos da Cracolândia na totalidade. Apesar destas ressalvas, sobressai no resultado a energia das vozes, o encantamento de uma coletividade horizontalizada, e uma crença sincera na beleza do local ainda chamado, tantas vezes pelos diálogos, de Boca do Lixo.




