
Folclórica parte de um modo de produção raríssimo no cinema brasileiro. Primeiro, por se tratar de uma fantasia infantil em stop motion, com muitas dezenas de bonecos produzidos manualmente pelo diretor Rodrigo Aragão. Segundo, por ser efetuado de modo analógico, sem a ajuda de efeitos visuais computadorizados. Toda a floresta da história, o castelo e os rios partem de escolhas práticas de realização. Terceiro, por se tratar de um filme-escola, no qual o cineasta formava novos animadores através da concretização de um longa-metragem profissional, em grande escala. Ao invés de trabalharem num projeto hipotético, os alunos testaram os novos conhecimentos no próprio filme do professor.
Outras raridades se aplicam ao resultado, que explora o folclore brasileiro à certa distância do ufanismo que costuma acompanhar tais personagens. Neste caso, os dois sacis principais, Pequi e Teobaldo, representam crianças ingênuas e medrosas, descobrindo o mundo dos adultos através da curupira Ingá, do Pai da Noite e de outras criaturas. Partem em busca de uma transformação que lhes permitiria o acolhimento — Pequi nasceu com o pé esquerdo, ao contrário dos colegas que saltam com o pé direito. Assim, a travessia liberaria a magia capaz de trocar o “pé errado”. Entretanto, no trajeto, descobrem outras formas de inadequação social, além da desonestidade dos grandes, e a possibilidade de ser feliz na diferença. Em oposição ao assimilacionismo, o discurso prega a beleza da diversidade.
Impressiona a qualidade artística da animação. Estamos diante de um projeto certamente muito especial.
A bem-vinda mensagem é acompanhada de signos interessantes, sobretudo em se tratando de um projeto infantil. Logo, a descoberta de cogumelos que fazem dançar obviamente significa uma experiência com drogas, vistas como calmantes e apaziguadoras. O Pai da Noite, figura ostensivamente queer, é descrito como um dândi cafona, de trejeitos efeminados, num misto de Sidney Magal e Walter Mercado. O próprio lema “ser diferente é fabuloso” acena a uma aceitação LGBT, devido à conotação muito específica do termo “fabuloso” no meio queer. Narra-se a descoberta de si em dissociação do âmbito familiar — os Sacis não possuem mães, lembra a história —, algo raríssimo para um universo infantil. Tais construções ainda recorrem discretamente ao terror (obviamente, calibrado à sensibilidade dos pequenos, e via classificação indicativa livre). Estamos diante de um projeto certamente muito especial.
Em paralelo, o tom didático assume-se como tal por meio de Dona Fulozinha, personagem que literalmente interrompe a narrativa para explicar ao público as características de tal personagem. Apresentações feitas, volta-se ao périplo dos dois amigos, num buddy movie que permite a ambos protagonistas serem medrosos, inocentes, e também assumidamente infantis (vide as quase incontornáveis piadas de peido). Logo, não representam o ápice da virtude, nem o cúmulo da moral — nunca se apresentam enquanto figuras exemplares. São igualmente afastados de interesses amorosos e outros agenciamentos forçosamente colocados por diretores adultos no universo das crianças. Eles recebem uma única tarefa (encontrar um dente de Mapinguari), que implica na obrigação de atravessar a floresta, e assim o fazem. Nada mais.
Impressiona a qualidade artística da animação. Desde a fotografia muito eficaz ao trabalho de trilha sonora e som direto, Folclórica se prova competente, sem floreios ou vaidades que chamem atenção a si próprios. Constrói uma natureza digna de crença, evitando copiá-la em traços fotorrealistas. Pelo contrário, abraça o imaginário coletivo do que seriam as florestas e os seres, podendo inclusive brincar com fogueiras de papel e plástico, e criaturas com uma enorme boca na barriga. Parte considerável da criatividade decorre precisamente da liberdade de fugir da natureza tal qual a conhecemos, rumo a um espaço simbólico. Neste sentido, remete a filmes e séries do começo dos anos 1990 (Rá-Tim-Bum, Castelo Rá-Tim-Bum, Família Dinossauro), que procuravam a estética indicial dos animais (reais ou místicos) aos quais aludiam.
Em contrapartida, alguns aspectos prejudicam o resultado. Em especial, a sobrecarga sonora de grunhidos, gemidos, choros, gritos e resmungos atribuídos aos protagonistas. Muito além dos diálogos, eles se expressam prioritariamente através destes cacoetes comuns ao universo infantil, porém, empregados com insistência excessiva. Para cada belo número musical, a montagem sonora emprega muitos minutos de afetações vocais que se opõem ao silêncio e à contemplação. Há tanta beleza na paisagem de Folclórica que os pequenos Pequi e Teobaldo certamente poderiam relaxar a cada excitação da jornada, o que ofereceria um tom menos estridente ao conjunto.


Além disso, alguns instantes aparentemente concebidos para o deslumbramento funcionam modestamente — caso da revelação de um colar feito de dente de Mapinguari. Talvez um plano próximo ou um feixe de luz ajudassem a destacar a obra de arte de seu dono vaidoso. A própria dilatação na cena do roubo do dente diminui um pouco seu impacto, em termos de suspense e comédia. A este propósito, muitas cenas parecem levemente estendidas em relação ao tempo comum do humor. Soam como se, depois de alguma surpresa nos achados dos heróis, as sequências ainda durassem alguns segundos a mais, tornando a ação mais leve e dramática, em detrimento da comicidade ágil, e fragmentada, dos olhares contemporâneos. Neste aspecto, Aragão também remete ao ritmo de 30 anos atrás.
O saldo final é bastante positivo. É muito interessante encontrar um especialista do terror aventurando-se pelo universo infantil, sobretudo, por se apropriar de maneira autoral de personagens folclóricos. O desfecho, sugerindo novas aventuras da dupla, pode ser lido enquanto início de um universo presumido, cujas sequências viriam em longa-metragem ou série. De qualquer forma, criam-se as bases (estética e de tom) para um projeto voltado aos pequenos, acreditando na compreensão dos mesmos, e também em certa pureza de ser criança. O longa-metragem foge ao pop, ao multicolorido, ao picotado, à linguagem maliciosa dos tempos de Internet e redes sociais. Resta torcer para que a adesão a esta linguagem justifique novas explorações por este território — e que o cruzamento fértil, e pouco explorado, do terror infantil, seja igualmente desbravado por Aragão.




