Tempo à Faca “não é um quebra-cabeça a ser montado, é uma piscina para mergulhar”, diz Diogo Oliveira

No 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, um dos principais filmes exibidos na Mostra Caleidoscópio (dedicada a obras radicais, com pesquisa de linguagem) foi Tempo à Faca, de Diogo Oliveira. O roteiro, escrito pelo cineasta em parceria com Ruy Guerra, acompanha uma dupla trajetória de vingança: enquanto o jagunço Deodato (Júlio Adrião) é jurado de morte por um coronel; a neta dele (Agatha Moreira), décadas mais tarde, vinga os crimes de sua família.

A narrativa possui uma atmosfera de sonho, retratando um cangaço frio, onde os tempos se misturam e as geografias se perdem. Além de Julio Adrião, o longa-metragem apresenta diversos atores que já interpretaram figuras centrais do cangaço no cinema brasileiro: caso de Vertin Moura (em Sertânia), Irandhir Santos (em A Luneta do Tempo) e Luiz Carlos Vasconcelos (em Baile Perfumado). Em entrevista ao Meio Amargo, Oliveira discute a elaboração deste projeto e sua resposta junto ao público:

Foto: Michelle Moreira
Foto: Michelle Moreira

Tempo à Faca teve uma sessão muito especial no Festival de Brasília, com diversos estudantes das escolas assistindo ao filme tão radical.
Diogo Oliveira: Pois é. Quando eu estava na porta eu vi a multidão de adolescentes, pensei: “Será que eles vão gostar? Mas aí eu comecei a ouvir as as reações. Eles gritaram e vibraram muito no final. Foi surpreendente. Eu não esperava, até porque eles tinham 14, 15 anos. Essa é a prova de que a arte não é previsível. Não dá para adivinhar o que vai funcionar com qual público. Eles vibraram com a cena das duas mulheres juntas, por exemplo. Isso é lindo.

Esta é uma parceria muito antiga. É difícil de separar, porque é um roteiro do Ruy Guerra, e uma ideia dele.

Este projeto parte de um roteiro escrito junto de Ruy Guerra. Como o processo se desenvolveu, até você dirigir sozinho?
Diogo Oliveira: Esse é um projeto antigo. Quando escrevi a primeira versão com o Ruy, eu era bem novo. Tinha 26, 27 anos. Ele me chamou, e a gente trabalhou no roteiro durante um ano. Aí o projeto foi mudando. Passaram os anos, e ele ficou só comigo para a direção. Eu o transformei um pouco, da minha forma. Mas esta é uma parceria muito antiga. É difícil de separar, porque independente desse filme, é um roteiro do Ruy, e uma ideia dele.
Eu e o Ruy somos muito ligados. A gente se fala sempre, mesmo que seja um projeto só de um, ou só do outro. Então fica tudo misturado. Mas Tempo à Faca foi uma construção. Na ideia original, a personagem da neta era um homem — um neto. Então eu manifestei para o Ruy que achava o projeto masculino demais. Eu mesmo fui criado por mulheres, praticamente não tinham homens no meu círculo familiar. Ou, então, eram amigos gays. Mas esse homem heteromasculino é uma referência que eu não tive enquanto crescia, e não me fez falta nenhuma.

Mas quando dirigiu, pensou em incorporar uma linguagem que o Ruy sempre trabalhou?
Diogo Oliveira: Não, pelo contrário. Se eu me preocupasse em fazer como ele, não seria nem eu, nem ele. Ninguém consegue fazer como o outro, né? Além disso, o Ruy nunca me perguntava nada. Quando eu fiz O Homem que Matou John Wayne (2015), sobre ele, o Ruy nem queria saber o que eu estava fazendo. Quando ele confia na pessoa, não impõe nenhuma restrição. Não pede pra ver, nada.
Então Tempo à Faca foi um filme à minha maneira, mesmo sabendo que a influência do Ruy sempre está na minha cabeça, não tem como. Ele é meu mestre. Em todo o meu percurso artístico, sempre vêm as falas dele, as histórias dele. O Ruy é uma pessoa muito estimulante. Além disso, tem as questões do sertão, que a gente tratou de forma diferente do comum. Foi um risco consciente, quase um salto natural no abismo.

Foi um risco consciente, quase um salto natural no abismo.

Gosto dessa costura de tempos: uma ação do passado diretamente influenciando a narrativa no presente. Como pensou esta relação temporal?
Diogo Oliveira: Na verdade, são três tempos: tem a neta, tem o avô, e tem o imaginário do Lampião, que não está ali de verdade. Eu tenho uma visão particular a respeito, porque o tempo é uma invenção humana, né? O tempo não existe. A gente carrega essas as coisas, carrega nossos mortos, então eu pensei que poderia ser sobreposto desta forma.
Chegando aqui para o festival, eu vim com todos os meus mortos queridos, todos os meus afetos na cabeça. Então está sobreposto mesmo, é tudo uma coisa só. A questão do tempo é filosófica e existencial, mais do que qualquer coisa.

Foto: Michelle Moreira
Foto: Michelle Moreira

Tempo à Faca resgata o imaginário do sertão com diversos atores que já interpretaram Lampiões e cangaceiros famosos. Tem Julio Adrião, Vertin Moura, Irandhir Santos, Luiz Carlos Vasconcelos… Por que promoveu este encontro?
Diogo Oliveira: Desde a hora que a gente começou a ver os atores, eu pensei: vou ter certa dificuldade para conseguir estes nomes, mas é preciso, porque eu quero trabalhar com eles. Então eu ligava pra conversar, e eles foram topando, um por um. Não teve nenhum obstáculo maior.
O Irandhir inicialmente topou interpretar outro personagem, mas dez dias depois, ele me ligou, dizendo que queria falar comigo. Ele explicou que vinha pensando, porque já tinha feito um personagem parecido. Mas o palhaço ele nunca tinha feito na vida, e se não tivesse ninguém escalado para esse papel ainda, ele adoraria fazer. Eu topei na hora. Fazia muito sentido, né? Então deu tudo certo.
Um dos meus maiores prazeres é ter essa galera toda reunida, por causa desse imaginário. O Luiz Carlos Vasconcelos ficou muito marcado pelo Lampião, e aqui, interpreta o melhor amigo do Deodato. Ele é um grande ator brasileiro, mas também representa o Lampião que Deodato tanto admira e idealiza.

Desde a hora que a gente começou a ver os atores, eu pensei: vou ter certa dificuldade para conseguir estes nomes, mas é preciso.

Diante de um imaginário tão forte do cangaço, com diversos filmes a respeito, você trabalhou com referências específicas para preparar os atores?
Diogo Oliveira: Bom, alguns desses atores eu já conhecia pessoalmente — caso do Júlio, que eu conheço há muitos anos. A Uiliana Lima eu ainda não conhecia, e nunca tinha trabalhado com a Ágata, embora eu a conheça há anos. Então, cada um tem uma demanda. Eu não gosto de trabalhar com todos os atores da mesma forma, porque cada um se prepara por caminhos distintos.
A Uiliana e a Agatha gostam de ficar numa sala, improvisando, até descobrirem as personagens, enquanto o Júlio inverte, e prefere partir do texto. Existem referências minhas, é claro, mas não coloquei para nenhum deles. Não queria obrigar o elenco a assistir algo, para dizer: “Tá vendo aquele aquele ator? É assim que eu imagino”. Prefiro um trabalho mais horizontal, com eles me falando como a gente pode trabalhar.

Foto: Itallo Santos
Foto: Itallo Santos

As releituras de gênero me parecem pautar o seu trabalho como diretor, o que a gente também vê em O Homem que Matou John Wayne. Como pensa o papel do gênero nestes projetos?
Diogo Oliveira: Olha, eu não tenho nada contra quem faça isso, mas eu nunca uso a referência como uma coisa direta. Eu nunca peguei uma cena específica de filme, pensando: “Quero reproduzir assim”. Tem que ser algo orgânico. Tenho muitas referências importantes, mas acho que já são minhas. É fácil identificar os irmãos Coen, por exemplo, nestes filmes, ou mesmo David Lynch.
Nos meus trabalhos, sempre aparece Gaspar Noé, Michel Gondry, Leos Carrax. Mas os Coen, por exemplo, sempre foram uma paixão minha. Demorei a perceber o tanto que me influenciavam, mas sempre estiveram ali. Mas é um identificador, nunca uma cópia. É como um cheiro destes diretores.

O filme parece um pântano: você mergulha e as coisas vão vão surgindo ali, neste road movie onírico.

A fotografia de Tempo à Faca me chama muito a atenção. Ela é dessaturada, meio enevoada, sem nitidez. É bem diferente do cangaço habitual.
Diogo Oliveira: Essa ideia principal desde o início: enclausurar o sertão, ao invés de focar naquele horizonte. Por isso o formato mais quadrado. Eu chegava a flertar com preto e branco, que eu adoro, mas não era exatamente o mais adequado — eu procurava essa textura onírica. Afinal, este era um debate importante, entre o que é real e o que não é real.
Por isso, o sertão é frio. Tem outros motivos emocionais da dramaturgia. O sertão geralmente é quente, né? Mas aqui, se você reparar, o céu é sempre branco. O céu era o nosso parâmetro para a colorização. Se estava azul ainda, a gente voltava para o branco. A ideia era criar uma coisa única, e não ter muita referência sobre o tempo. Mas não é um quebra-cabeça a ser montado, é uma piscina para mergulhar. Como um fluxo de sonho, né? O filme parece um pântano: você mergulha e as coisas vão vão surgindo ali, neste road movie onírico.

Gostaria de falar sobre a direção de arte. Alguns aspectos do cangaço são facilmente reconhecíveis, mas existem construções fantasiosas, a exemplo do posto de gasolina à beira da estrada. Como determinou estas escolhas, entre o real e o imaginário?
Diogo Oliveira: A busca estética era pela quebra da realidade. Quando ela não está na dramaturgia, vem pela cenografia. Sobre os figurinos, por exemplo, onde é que os cangaceiros se vestiam dessa dessa forma? Em lugar nenhum. Para o Júlio, com o personagem do Deodato, minha referência central era Dom Quixote. Eu sempre adorei o personagem, e este é o meu livro favorito, que eu releio uma vez por ano. Então eu pensava em Dom Quixote, com os moinhos e as contradições dele.
Então é um fluxo de sonho, que às vezes se acentua em níveis mais profundos. A Solange, por exemplo, vem andando pela estrada, e aparece do nada, como num sonho. A mãe dela foi enterrada dentro de casa, onde as plantas crescem. É uma pontuação onírica, surrealista.

O trabalho de distribuição é difícil, mas acredito que todo filme tem seu público. Sei que as pessoas que podem gostar, é uma questão de comunicação.

Fiquei feliz de saber que este filme ousado já tem distribuição nos cinemas. Como pensa o percurso dele no circuito?
Diogo Oliveira: A gente segue pelos festivais, como o Festival do Rio. Depois tem uns festivais internacionais ainda não oficializados. A minha vontade é lançar no cinema no segundo semestre de 2027. O trabalho de distribuição é difícil, mas acredito que todo filme tem seu público, com potencial maior ou menor. Você viu os estudantes jovens na sala de cinema, vibrando? Quem esperaria, né? Sei que as pessoas que podem gostar, é uma questão de comunicação. Eu já me surpreendi tanto com vários com filmes, sabe? Foi assim com O Homem que Matou John Wayne, por exemplo.
O mais importante para mim é que vejam o filme. No debate, por exemplo, uma menina de 17 anos adorou o filme de paixão, e ela não é do cinema. Mas mexeu com ela, de alguma forma. Eu me emociono com isso. É o que realmente conta. A gente não pode ficar só preso nos números, pensando se fez tanto de bilheteria. Eu sou sonhador, e quero partir pra briga da sala de cinema.
Se um filme levou 3 mil pessoas pra sala, já é bastante, é muita gente. A gente não pode deixar o capitalismo fazer parecer que só vale se o filme fizer 300 mil espectadores, ou 3 milhões de espectadores. Senão a gente fica maluco. O mundo de hoje é isso: você tem que produzir, fazer, trabalhar, não pode descansar. Você dorme menos, trabalha mais. Isso é loucura.
Mas a gente tem que ser feliz, o mundo tem que virar uma aldeia de novo. E ninguém precisa gostar necessariamente do filme, porque isso é muito subjetivo. Tem coisa que eu não gosto na música, mas isso não significa que seja ruim, nem inferior. Tem filmes realistas que eu gosto, embora não seja o meu universo. Mas o importante é me abrir, é estar disposto a ver. Por isso, o caminho do filme, agora, ninguém sabe, mas ele vai para o circuito comercial. É um desejo nosso.

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