Maria de Maria (2026)

A cangaceira apaixonada

título original (ano)
Maria de Maria (2026)
país
Brasil
gênero
Faroeste
duração
117 minutos
direção
Luiza Shelling Tubaldini
elenco
Nanda Costta, João Campos, César Ferrario, Antônio Grassi, Iara Campos
visto em
50ª Mostra de São Paulo (2026)

Maria de Maria parte de uma proposta interessante: reler o cangaço pela perspectiva das mulheres, ressaltando sua força e sua importância no sertão brasileiro. Assim, a trama inspirada nos faroestes clássicos se inicia com a dispersão dos bandos de cangaceiros mais famosos, quando Maria (Nanda Costta) se encontra grávida e sozinha. Mas ela não permanece assim por muito tempo: seu chapéu cai na estação de trem, e um rapaz gentil (João Campos) se abaixa para pegá-lo. Na cena seguinte, Zé Antônio a ajuda a escapar de uma batida policial no trem. A partir deste momento, o rapaz seguirá servil à mulher, afastando-se da vida dela apenas quando Maria assim o solicita.

A diretora Luiza Shelling Tubaldini tem demonstrado um gosto interessante pelo cinema de gênero, estrelado por mulheres fortes — porém, à condição de se apaixonarem por um rapaz branco e solícito, que as ajuda no percurso. A este propósito, Love Kills contava com uma poderosa vampira negra interessada em um humano comum; e Maria se encanta com o homem amoroso, tolerante com seu passado de crimes. Eles passam a viver enquanto família improvisada nos hectares do Centro-Oeste prometidos aos fazendeiros pelo governo Getúlio Vargas. Zé Antônio se converte em agricultor, além de pai da criança e parceiro fiel. Ora, historicamente, o cinema de gênero se desenvolve por meio da recusa da incorporar as regras tradicionais do romance e do melodrama, que a cineasta tanto gosta de aproveitar. A protagonista deste filme pode ser destemida e forte, contanto que se renda à salvação via amor romântico. A autonomia feminina certamente tem um preço.

A valorização da força de uma mulher precisa ocorrer em dissociação da estrutura que sempre a domesticou e aprisionou. Em outras palavras, a obrigação do amor romântico.

Felizmente, o longa-metragem conta com dois atores ideais para os seus papéis. Nanda Costta, sempre expressiva e intensa, encarna à perfeição a mulher do cangaço, parcialmente orgulhosa de suas conquistas, mas também envergonhada de tudo o que precisou fazer para sobreviver. Ela foge à caricatura sertaneja na voz e nos trejeitos, além de apostar num sotaque sutil. Encara cada linha de diálogo como um soco na cara dos homens, transbordando de brutalidade. Frente a tamanha agressividade, João Campos se prova atencioso, gentil, de fala doce e gestos cuidadosos. Contrariamente ao imaginário da coragem masculina face à delicadeza feminina, a autora efetua uma troca simetricamente oposta, enquanto forma modesta de subversão.

Em termos de escopo, a produção transmite uma noção clara do que deseja extrair do western. Estão presentes as amplas paisagens de planícies secas com profundidade de campo infinita; os figurinos da época, a trilha sonora de pianos na transição entre cenas. Em contrapartida, não se explora em profundidade as temáticas centrais do gênero, tais quais o desconhecimento do outro e o choque de culturas numa nação em desenvolvimento. Dispensam-se equivalências aos indígenas norte-americanos face aos brancos, ou ainda os negros e escravizados em oposição a coronéis. O roteiro privilegia uma construção maniqueísta simples, através de um coronel evidentemente mau (Antônio Grassi) em rota de colisão com a representação instantânea da família patriarcal (mãe, pai e filho) benevolente e temente à Deus.

Mesmo as tentativas de humor soam modestas. Ao desengonçado Zé Antônio, reserva-se o direito de tropeçar e cair algumas vezes — do cavalo, ou ao manusear uma máquina agrícola —, em paralelo à cena do sono com uma galinha. De resto, a trama se encaminha lentamente ao “duelo ao pôr do sol”, dispensando de fato as tensões de identidade nacional tão caras ao faroeste. O roteiro se concentra em guinadas abruptas, pouco verossímeis: o envenenamento velocíssimo, e o parto quando a gravidez ainda aparentava estar nos primeiros meses. Há problemas na passagem do tempo, assim como no agenciamento de questões básicas de mise en scène. Por exemplo, um personagem elogia a beleza do bebê que ainda não viu, enquanto um personagem retorna abrupta e convenientemente. A criadora gosta de transformações, porém, se interessa menos pelo processo permitindo tais acontecimentos.

A questão temporal também desperta certos estranhamentos no emprego da luz. O diretor de fotografia Jacob Solitrenick aparenta filmar diversas noites americanas, quando os personagens claramente não se encontram no período noturno, além de sugerir algumas manhãs quanto a luz tampouco convence na representação das primeiras horas do dia. O aspecto azulado não basta para criar noites e manhãs, posto que o espectador pode enxergar a origem da luz e a maneira como delineia o corpo dos personagens e os objetos do cenário. Além disso, a escolha pela fotografia profundamente nítida, numa representação do Brasil de 1940, também levanta questionamentos. É difícil acreditar neste mergulho no passado, quando o digital abraça a textura das produções mais recentes, tão comum ao streaming.

Em paralelo, a montagem de som transparece alguns problemas nos cortes, e as tentativas de planos mais estetizantes (o giro de 360º) ocorrem em detrimento da lógica narrativa. Apesar de tantas ressalvas de ordem da linguagem, resta a impressão de que o aspecto mais amargo ainda decorre do ponto de vista. A valorização da força de uma mulher precisa ocorrer em dissociação da estrutura que sempre a domesticou e aprisionou. Em outras palavras, a obrigação do amor romântico, a promessa de união literalmente desde a cena inicial. Isso sem falar na felicidade por meio de uma chuva redentora e da formação da família tradicional. Estas opções não soam exatamente como a perspectiva mais radical de ruptura com o gênero. Se os criadores decidem investir num faroeste feminista, caberia ir muito mais fundo no distanciamento dos códigos habitualmente masculinos.

A comparação com Love Kills, neste caso, soa tentadora. No longa-metragem anterior da cineasta, havia problemas evidentes, sobretudo no campo dos diálogos. Mesmo assim, percebia-se um desejo radical de investir no gênero, sem meios-termos nem atenuantes. Este era um projeto que pisava no acelerador e não parava mais, até o desfecho — característica excelente para o primeiro longa-metragem solo de uma autora. Já Maria de Maria resulta mais doce, menos incisivo, tanto nos códigos do faroeste quanto na releitura das representações masculina e feminina. Torna-se mais acanhado, preocupado em agradar e vender um otimismo conveniente ao final. Há menos verve nesta iniciativa, ainda que o espectador saia da sessão com o belo trabalho de Nanda Costta em mente.

Maria de Maria (2026)
5
Nota 5/10

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