A Irmã Mais Nova (2025)

A revolução interna

título original (ano)
La Petite Dernière (2025)
país
França, Alemanha
gênero
Drama
duração
106 minutos
direção
Hafsia Herzi
elenco
Nadia Melliti, Ji Min Park, Amina Ben Mohamed, Melissa Guers, Rita Benmannana, Razzak Ridha, Louis Memmi, Anouar Kardellas
visto em
49ª Mostra de São Paulo

A princípio, A Irmã Mais Nova pode soar como um retorno aos filmes LGBT de duas décadas atrás: um conto de descoberta da sexualidade, levando ao coming out de uma garota lésbica. Fatima (Nadia Melliti) é tímida, vive cercada por amigos homens, e não gosta de se vestir de maneira considerada feminina. Ela tem um namorado, por quem não manifesta real interesse. Apesar da criação conservadora, segundo os princípios da religião muçulmana, acaba se aproximando de garotas e descobrindo uma verdadeira sensação de pertencimento em bares e festas lésbicas. Mas como conciliar estes desejos com o sentimento de infringir regras morais básicas? Como lidar com a impressão de ser fundamentalmente errada em sua existência?

Numa geração anterior, a representação cinematográfica de personagens queer se limitava à compreensão da sexualidade enquanto motor de conflito. Logo, os problemas de uma personagem lésbica precisariam decorrer de sua sexualidade: a aceitação de si e dos outros, a descoberta da homoafetividade por parte de terceiros, a homofobia, a luta pelo direito ao casamento igualitário, etc. Desde então, começou a se perceber a necessidade de retratar pessoas gays, lésbicas e trans dotadas de quaisquer outros problemas — contas a pagar, dilemas no trabalho, embates familiares. Neste processo de naturalização da orientação sexual e identidade de gênero, histórias tais quais o drama de aceitação proposto pela cineasta (e atriz) Hafsia Herzi se perderam entre a produção majoritária.

A novata Nadia Melliti está, de fato, excepcional. A Irmã Mais Nova se encerra com um belíssimo momento de cinema — uma das cenas mais comoventes deste ano.

Felizmente, a criadora nos mostra a possibilidade de repensar a autodescoberta queer sem recorrer às armadilhas fáceis do melodrama piedoso. Em especial, os questionamentos de Fatima jamais decorrem da sociedade. De costume, uma heroína lésbica seria flagrada por algum conhecido enquanto estivesse com outra menina, ou então, sofreria com a descoberta repentina pelos pais, sendo invadida em sua vida íntima. Ela poderia sofrer rejeição dos amigos, e ter que conviver com a exclusão na escola e na mesquita. Ora, nada disso acontece. Ao invés de uma jornada de martírios, o roteiro garante que os dilemas da protagonista sejam de ordem íntima: ela precisa aceitar a si própria.

Logo, nada no mundo ao redor a constrange, nem a pressiona. Durante a conversa com um líder religioso ultraconservador, o homem não se revela uma figura monstruosa, somente um homem completamente apartado da realidade. Os colegas machistas nunca excluem, porque nem mesmo conhecem a turbulência emocional que domina a amiga. Ela continua sendo uma aluna exemplar, filha comportada, atleta competente. Outro estereótipo conectado a uma “vida de segredo” consiste em transparecer este “defeito inato” nas atividades cotidianas: gays e lésbicas são percebidos, em filmes conservadores, enquanto figuras desviantes, irresponsáveis no trabalho, ou problemáticas no convívio familiar. Em chave oposta, Fatima consegue gerenciar de maneira bastante eficaz suas aventuras pessoais e as obrigações para com os outros.

Mesmo as experiências com meninas respeitam um processo bastante naturalista. Nada de amor romântico ou relacionamento redentor. Ela possui encontros relativamente afetuosos; cria expectativas que se frustram, e faz sexo antes mesmo de receber carinho propriamente dito. Desconhece o próprio corpo, ou a maneira de explorar o corpo de outras mulheres, precisando aprender via tentativa e erro — visto que nenhum indivíduo LGBT é educado e preparado para viver sua sexualidade, assim como são intensamente formados e estimulados os garotos heterossexuais, por exemplo. O público será o único cúmplice deste percurso, mantido cuidadosamente isolado das demais esferas da vida de Fatima. Nós nos tornamos testemunhas e amigos silenciosos.

Para registrar tal grau de aproximação, e de separação em relação ao meio, a direção de fotografia opta por caminhos extremos. Talvez o único elemento realmente questionável neste drama tão belo decorra da escolha por planos fechadíssimos, que basicamente enquadram uma infinidade de rostos. O enquadramento se concentra da testa ao queixo da heroína, reduzindo a profundidade de campo (ou seja, desfocando o fundo) de maneira claustrofóbica. O formato scope costuma ser utilizado para valorizar os espaços — e, aqui, os ambientes da casa, da escola e das ruas teriam sido importantes para se compreender a solidão da garota, e sua relação com estas esferas. A proximidade excessiva, proposta por Herzi e o diretor de fotografia Jérémie Attard, limita a dinâmica das próprias cenas — a montagem se vê obrigada a cortar de rosto para rosto, de close-up para close-up.

Ao menos, o longa-metragem possui uma atriz capaz de sustentar tamanha responsabilidade. A novata Nadia Melliti está, de fato, excepcional em sua aparência glacial, parte introvertida, parte embrutecida, devido à armadura que construiu para si. É muito fácil acreditar numa repressão interna devido aos olhares, à fala meio internalizada, às roupas largas, ao boné que lhe esconde parte do rosto. A intérprete carrega uma infinidade de sensações numa expressão de esfinge, transparecendo solidez ao resto da comunidade, embora revele ao espectador a iminência de uma implosão. Qualquer espectador LGBTQIA+ poderá se reconhecer nesta construção meio específica (uma jovem francesa, de origem argelina), meio universal, entre a vontade de ser vista, e o recurso à discrição e a busca pela invisibilidade social, enquanto forma de existir socialmente entre as frestas do sistema.

A Irmã Mais Nova se encerra com um belíssimo momento de cinema — uma das cenas mais comoventes deste ano, sem dúvida. Novamente, foge-se à sedução de um otimismo forçado, ou uma promessa de felicidade eterna, preferindo plantar sementes sutis para uma emancipação futura. Talvez existam alguns elementos questionáveis pelo percurso — uma divisão da narrativa em estações, que nada agregam ao desenrolar dos fatos; o estudo conveniente a respeito da emancipação, na universidade, enquanto Fatima se confronta à mesma questão em nível pessoal. Ressalvas à parte, nada disso retira os méritos de uma direção sólida, muito atenta à naturalização dos afetos e da sexualidade, e ciente de que podemos trazer novas histórias de autodescoberta queer de maneira sofisticada, complexa, e adequadas ao século XXI.

A Irmã Mais Nova (2025)
8
Nota 8/10

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