
Águias da República é um projeto bastante curioso. Navegando entre o drama, a comédia e o suspense, não demonstra receio que cada um destes gêneros tome a dianteira da narrativa, de maneira bastante explícita. Isso significa que as cenas cômicas beiram o pastelão; o drama mergulha num sentimentalismo profundo; e o suspense se aproxima da espionagem de Estado à americana. O diretor Tarik Saleh almeja a intensidade em cada registro abraçado ao longo de mais de duas horas, numa narrativa que abraça inúmeros personagens, conflitos e cenários. As ambições são consideráveis.
Por isso, cada personagem de importância na narrativa interpreta mais de um papel, por assim dizer. George Fahmy (Fares Fares) alterna entre o ator canastrão mais querido do Egito (conhecido pelos romances e ficções científicas populares), e artista preocupado com a constante pressão do governo para atuar em obras de propaganda dos militares. Ele será visto ora como figura progressista, ora como sujeito conservador, machista e mulherengo. Suzanne (Zineb Triki) faz as vezes de comportada esposa do Ministro da Defesa, intelectual contestadora do sistema, e eventual amante de George. Já Dr. Mansour (Amr Waked) representa, sucessivamente, um cliente do bar, aparentemente impressionado com a presença do astro do cinema, e um espião do gabinete do governo. E assim por diante.
O roteiro se mostra indeciso entre criticar, de fato, as violências partidárias, e se divertir com o potencial de catarse que possam gerar ao espectador.
Deve ter sido delicioso aos atores encarnarem figuras que se transformam tanto do início ao final, mesmo que basicamente representem inúmeros arquétipos do cinema político de grande orçamento. (A notável exceção fica por conta da excelente Lyna Khoudri, desperdiçada num papel aquém de suas capacidades). Aos criadores, interessa reposicionar os heróis como vilões, e os aliados como inimigos, sucessivamente. Personagens que se adoram, numa cena, se detestarão na cena seguinte; o pai ausente se converte em pai preocupado, e figura relapsa mais uma vez. Condensa-se uma quantidade de guinadas suficiente para uma telenovela.
Entretanto, em modo geral, pode-se dizer que o projeto parte de tons leves, nos quais as ameaças do poder soam como meras bravatas, até contornos bastante sombrios, envolvendo desaparecimentos e execuções ao redor de George. Num primeiro momento, Saleh explora a hipocrisia do Estado por meio desta produção patética, que converte o presidente egípcio num ícone da valentia e dos bons costumes. As cenas do filme-dentro-do-filme se mostram hilárias, pois artificiais, edulcoradas, revelando atores incapazes de encarnarem naturalmente o estilo pomposo exigido. (É sempre muito prazeroso assistir a bons atores interpretando atores ruins). Enquanto espelho de um falso imaginário de nação, a comédia farsesca sobre militares enrijecidos e gestos de bravura diverte bastante.
Em seguida, Águias da República começa a levar sua brincadeira a sério. Neste momento, a condução pode incomodar, posto que o roteiro nunca se preocupa de fato com tantas pessoas sequestradas, torturadas e mortas. Nem mesmo George soa tão incomodado com os perigos que o cercam. Ele se mostra insatisfeito, a princípio, com a tarefa de atuar no longa-metragem de extrema-direita, mas depois, desempenha sua tarefa com convicção. Passa-se da oposição ao regime à colaboração sem reais crises de consciência. Ao grande ator, interessa unicamente fazer o melhor trabalho possível com as vozes, o corpo e a composição. O fato que a peça será utilizada para favorecer os militares não perturba o astro ensimesmado.
O problema reside na adesão completa ao ponto de vista de seu protagonista. Quando recusa e quando adere ao regime, quando cuida do filho e quando o negligencia, a direção filma tais cenas em registro semelhante. Nenhum fator de escárnio, ironia, ou metáfora adjacente permite pensar que a obra tenha críticas reais ao seu astro. O título prefere apontar ao grupo de traidores que se opõe ao presidente, mesmo pertencendo às altas cúpulas do poder. No entanto, é óbvio que a condução se posiciona junto ao homem que, de maneira surpreendentemente pacífica, aceita jogar o jogo de seus detratores. Aliás, os instantes de preparação para o papel fictício se mostram os menos jocosos da produção inteira — Saleh insiste no profissionalismo de George acima de tudo, inclusive de seu posicionamento político.
Seguem-se, então, sequências bastante eficazes de perseguição e intimidação. Em termos cinematográficos, saltam aos olhos as cenas da parada militar, a repercussão contra traidores, e mesmo a última festa entre comandantes. O cineasta possui o senso da gravidade e de organização dos enquadramentos, sabendo exatamente onde posicionar George ou Suzanne, para que constituam o centro de nossa atenção, mesmo cercados por militares de alta patente (vide a bela cena da reunião de crise pós-atentado). O diretor prefere expor os acordos e maquinações dos governantes a ressaltar os laços íntimos — razão pela qual paternidades frágeis e traições de esposas e maridos são minimizados em nome dos benefícios que podem trazer, em termos de informações privilegiadas.


Em contrapartida, politicamente, o resultado se prova menos incisivo do que a paródia inicial prometia. Uma vez deixada de lado a comédia metalinguística, o roteiro se mostra indeciso entre criticar, de fato, as violências partidárias, e se divertir com o potencial de catarse que possam gerar ao espectador. O roteiro impressiona ao explorar, em detalhes, os ônus e bônus desta aproximação com as raposas (George consegue liberar diversos colegas da prisão, e tirá-los de listas negras). Assim, nunca permite a descrição do protagonista enquanto mera vítima do sistema — ele também se aproveita desta oportunidade privilegiada. O texto nunca é ingênuo a ponto de canonizar seu personagem central.
Mesmo assim, Águias da República tampouco adota um posicionamento claro e inequívoco a respeito da conduta estimada correta face às chantagens. Admira todas as reações enquanto gestos irrefletidos, que a própria direção não pretende problematizar. O terço final condensa tantas guinadas, ameaças e chantagens, que o espectador nem sequer tem tempo de refletir acerca das condutas dos personagens. O final, em particular, deixa um gosto amargo, por soar abrupto, incapaz de tirar as lições de sua própria fábula. Logo, este projeto apresenta uma tese (a pressão do Estado contra artistas), uma antítese (a tentativa de jogar discretamente as regras do jogo), mas nenhuma síntese a respeito do percurso controverso de George Fahmy. Em se tratando de um discurso tão claramente político, a postura isenta incomoda.




