
Quando você não pode modificar as imagens do presente, modifique as imagens do passado. A frase, proferida pelo narrador em Sem Sol (1983), remete a uma resistência política e artística face às injustiças contemporâneas. No filme de Chris Marker, o personagem utilizava seu sintetizador para distorcer formas e trocar cores dos registros de guerras e outros documentos. Em Cidade Sem Sonho, os adolescentes ciganos, vivendo à margem de Madri, utilizam seus telefones celulares para aplicar filtros multicoloridos à paisagem árida. Assim, enxergam planícies azuis, céus vermelhos, arbustos fúcsia.
Trata-se de uma pequena maneira de se apropriar daquele espaço que sempre lhes pareceu sua propriedade (afinal, nasceram ali, e nunca conheceram outra realidade), e também de ressaltar sua beleza, seu caráter de tela em branco sobre a qual podem projetar o que quiserem. Adiante, os garotos brincam com a fumaça de cigarros em contraluz (as crianças fumam muito nesta trama, desde pequenas), além da sombra de copos coloridos e dos efeitos da chama de uma vela. Por isso, quando os vizinhos começam a abandonar o local precário, sem eletricidade, e ameaçado pelas desapropriações do Estado, os meninos se veem desolados.
Abdicar daquele espaço representa, no caso dos protagonistas, abrir mão da própria infância. Eles crescem forçosamente, diante do testemunho traumático de escavadeiras destruindo o lar construído pelas mãos do avô. O diretor Guillermo Galoe compreende que a passagem à fase adulta, no caso destas comunidades marginalizadas, equivale a descobrir-se pobre, ignorado pelo governo, e obrigado a testemunhar violências sociais que afetam todos ao redor. Crescer equivale a perder a inocência. Enquanto segura seu cigarro, e sente a pressão dos adultos para encontrar uma bela garota, o menino que nem sequer entrou na puberdade descobre que, de um dia para outro, as pessoas que ele ama podem partir e nunca mais voltar.
Felizmente, a direção jamais explora o sofrimento destes habitantes. Em contrapartida, tampouco inova a partir da cartilha do realismo social de luxo.
O longa-metragem impressiona, de imediato, pelo escopo da produção. O filme a respeito da pobreza de um grupo em insegurança alimentar recebe um tratamento cinematográfico impecável: a câmera parece se encontrar em todos os lugares ao mesmo tempo, saltando de um rosto ao seguinte, no interior desta coletividade com uma dúzia de figuras relevantes à trama. O som é claro, bem captado e montado, impedindo que o agrupamento de pessoas se converta em caos. Já a direção de fotografia capricha na iluminação de dia e de noite, tanto nos espaços internos quanto externos. Não existe uma única sequência desleixada, algum corte estranho na montagem, ou um diálogo de difícil compreensão. A obra apresenta um tratamento polidíssimo.
Em geral, tamanho esmero para representar a pobreza pode soar inadequado — receios de um fetiche da miséria, ou da cosmética da fome, vêm à mente. Felizmente, a direção jamais explora o sofrimento destes habitantes, pelo contrário. Apesar das dificuldades, reforça o carinho dos ciganos por aquele lugar, e uns pelos outros. Eles resistem como podem, e sempre encontram alternativas face à opressão do governo. O espectador nunca é convidado a temer por eles, nem lamentar pelos moradores. Apesar da penúria, ainda possuem certo grau da escolha entre permanecer nas planícies secas, ou se mudarem para pequenos apartamentos oferecidos do Estado. Entretanto, os conjuntos habitacionais são filmados como jaulas impessoais, avessas a um modo de vida livre — deixando a dúvida sobre qual das duas seria, afinal, a “cidade sem sonho” do título.
Em contrapartida, o drama tampouco inova a partir da cartilha do realismo social de luxo. Isso significa que os criadores efetuam muitíssimo bem a estética a qual se propõem, no entanto, evitam criar qualquer metáfora, ou elaboração poética, capaz de aludir à psicologia transtornada das crianças. Elementos mágicos, grotescos ou assustadores, permitiriam ao projeto se afastar desta realidade tão literal, representando o mundo ao invés de meramente apreendê-lo. Ora, a mise en scène evita se sujar, perturbar os sentidos, ou incomodar. Não há parênteses, pausas ou fragmentos de artificialidade para penetrar pelas frestas do naturalismo. Galoe acredita que o real valha por si mesmo, em consequência, quanto mais próximo estiver destas pessoas, melhor. Pouco terá que fazer no sentido de elaboração a partir destas pessoas. Os ciganos constituem o ponto de partida, e também o ponto de chegada desta abordagem.


Alguns críticos e teóricos sugerem que, numa abordagem de mímese do real (sobretudo, em se tratando do retrato de grupos marginalizados), seria fundamental a criação de um grão de loucura, alguma tomada de risco capaz de evocar aquele modo de vida sem necessariamente colocar a câmera em todos os cômodos, todos os espaços, tal qual um voraz observador onipotente. Aqui, acreditamos perfeitamente nestes personagens e nas suas conversas. Ninguém duvidaria da familiaridade dos habitantes com o acampamento, e do costume de praticar aquelas ações (seja no trato com animais, seja nas brincadeiras no ferro-velho). Estamos próximos de um terreno documental, onde pessoas reais são convidadas a encenarem uma versão de seu cotidiano — nos moldes de Nanook, o Esquimó, cem anos mais tarde.
Entretanto, Cidade Sem Sonho acredita que os únicos capazes de alguma rebeldia simbólica contra as demolições e migrações forçadas serão os garotos, através de suas filmagens coloridas que abrem e fecham a narrativa. A direção, por sua vez, contenta-se em observar, na condição autoimposta de refém das situações que os personagens vierem a lhe oferecer. “Veja ver que lindo: o futuro!”, exclama o avô, diante de um cenário vasto e silencioso. “O que é o futuro?”, pergunta a garotinha, adiante. Como resposta, os adultos lhe falam de uma cidade mágica, entrecortada por rios de leite, café e vinho. Os personagens sonham, e muito, tanto sozinhos quanto coletivamente — e o filme adora observar os desejos destas pessoas fascinantes. Quem menos sonha, ironicamente, é a própria direção, estimando que honrar os ciganos equivale a retratá-los da maneira mais fiel, direta, e também com menos riscos de ordem do discurso e da construção audiovisual.




