Interior. Apartamento – Dia (2025)

A diluição do amor

título original (ano)
Interior. Apartamento – Día (2025)
país
República Dominicana
gênero
Drama, Romance
duração
91 minutos
direção
Israel Cárdenas, Laura Amelia Guzmán
elenco
Maia Otero, Juliano Kunert
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

A narrativa demora algum tempo a apresentar seus primeiros conflitos. Interior. Apartamento – Dia privilegia a rotina de um casal de classe-média, formado por dois jovens pertencentes ao meio artístico. Nini (Maia Otero) trabalha como designer gráfica para uma empresária, enquanto Omar (Juliano Kunert) é um profissional do audiovisual, recentemente contratado para uma campanha política. Eles se amam, brincam juntos, encontram amigos, fazem sexo. O roteiro evita tanto as euforias de um amor idealizado quanto os problemas artificiais que poderiam surgir somente para prejudicar a dupla. Privilegia, assim, a ideia de um relacionamento plausível, saudável.

Nesta parte inicial, o longa-metragem insere alguns elementos de ludicidade, típicos de um projeto indie em moldes norte-americanos. Em especial, introduz a figura do narrador onisciente, que interrompe os ruídos e canções da trilha sonora cada vez que aparece, para descrever os sentimentos íntimos de um e de outro. Na rua, os amantes brincam de fechar os olhos, pelo simples prazer de fazê-lo, enquanto um violino de encantamento nos sugere a delícia de viver no tempo presente, aproveitando as oportunidades ao redor. Já a não-monogamia é apresentada com certa leveza, a princípio: “A coisa mais normal para Omar e Nini era a diversão”, explica o narrador, numa maneira acanhada de se referir ao sexo com parceiros e parceiras novas.

Aplaude-se a iniciativa em retratar amores possíveis. Por outro lado, Cárdenas e Guzmán jamais se importam de fato com o mundo ao redor, reduzido a caricaturas.

Aos poucos, percebe-se que o dilema capaz de fazer a narrativa andar reside na diluição do amor. Em oposição a algum acontecimento de grande impacto, os diretores Israel Cárdenas e Laura Amelia Guzmán privilegiam um desgaste progressivo e discreto entre ambos. Ela se sente escanteada durante uma transa a três. Ele broxa no sexo seguinte. Depois, sente que a namorada não o apoia num jantar entre amigos, quando o cobram pelo fato de fazer peças publicitárias para políticos. Paira certo cansaço, ou talvez uma melancolia, entre a dupla. Vale frisar que este sentimento é muito bem retratado por Otero e Kunert, de uma naturalidade excepcional em frente às câmeras. Os dois intérpretes são perfeitamente verossímeis enquanto casal.

É curioso que, para apresentar suas primeiras guinadas, o texto opte pela total inconsequência das ações. A campanha política soava importantíssima a Omar. No entanto, quando o casal recebe a oportunidade de se mudar para o campo, e acata a oferta, nunca mais menciona este trabalho anterior. Eles amam a gata cega, que desaparece durante a mudança. Horas depois da constatação desta perda, seguem em frente. Nunca voltam para procurá-la, meramente aceitando a situação. O local na praia, para onde se mudam, deveria abrigar uma residência artística que nunca acontece — paciência, certo? Os personagens se deslocam de um conflito ao outro com um ar indiferente, blasé, que contamina a obra na totalidade. 

Nada parece forte o suficiente para demovê-los de uma languidez permanente — até a cena da briga, pelo menos. Quando o texto enfim se rende a alguma expiação das frustrações, ele se rende à cena mais artificial do projeto. Nada na configuração das imagens e sons, nem na atuação e nos diálogos, convence quando Omar e Nini finalmente expõem um ao outro os motivos pelos quais se descobrem à beira da ruptura. O filme se sai muito melhor nas pequenezas rotineiras do que na obrigação de, enfim, catalisar guinadas e colocar seus protagonistas em rumos distintos. 

A partir deste momento, Interior. Apartamento – Dia se mostra estranhamente caricato, como se estivesse à beira do humor assumido. De fato, já se notava, discretamente, uma comicidade do absurdo, capaz de despertar alguns sorrisos na primeira metade. No entanto, chegada a “cerimônia do cacau” entre estrangeiros brancos, ou um ressurgimento mágico e inesperado à beira da autoestrada, a narrativa se prova indecisa entre retratar certa naturalidade ou abraçar, enfim, o realismo fantástico. Termina por não fazer nem um, nem outro. O sexo, antes tão natural, se faz incômodo, moralista: o trisal envolvendo dois homens é transformado em pesadelo, enquanto se sugere que a não-monogamia teria sido um motivo central para o desencontro entre os amantes. O ciúme e o desapego aparecem como perigos à permanência do amor a longo prazo.

A indefinição de objetivos transparece sobretudo no final, tão abrupto quanto anticlimático. Afinal, os criadores pretendem mostrar a história de um término, ou simplesmente sugerir que tanto faz se eles permanecerão juntos, ou não? O longa-metragem se importa com a manutenção ou dissolução do relacionamento, ou insinua que eventuais rupturas fazem parte do curso natural das coisas? Torce pelo casal, ou privilegia a felicidade de ambos, ainda que separados? A jornada se interrompe neste momento menos aberto do que suspenso: a história não guia o espectador a ponto de sugerir algumas leituras possíveis. Prefere, em contrapartida, interromper abruptamente a aventura. Até mesmo o final revela-se meio despojado, leviano.

Por fim, aplaude-se a iniciativa em retratar amores possíveis, concretos, sofrendo desgastes habituais. O cinema de ficção não precisa de reviravoltas espetaculares para dar conta de existências comuns. Por outro lado, Cárdenas e Guzmán jamais se importam de fato com o mundo ao redor, reduzido a caricaturas (a campanha política, a empresária riquíssima, os gringos deslumbrados). Ora, este contexto teria sido fundamental para se acreditar, igualmente, no lento esgotamento do amor entre os protagonistas. Nenhum dos dois aparenta ter obrigações com o resto da sociedade, ou objetivos a longo prazo, razão pela qual soam um tanto mornos, afinal. Parecem se afastar unicamente por tédio de si próprios, e por monotonia daquilo que o próprio filme apresentava, inicialmente, como algo especial. Cansam-se justamente por não saberem o que desejam, nem de si próprios, nem um do outro.

Interior. Apartamento – Dia (2025)
4
Nota 4/10

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