Em 2025, a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo apresenta ao público uma comédia sobre a morte. Idílico gira em torno de uma família confrontada ao fim da vida — seja por doença, pela idade, ou pelo desejo de acabar com tudo.
No caso, a avó procura um cúmplice para seu suicídio. A filha, uma famosa cantora lírica, descobre uma enfermidade incurável. O irmão dela, um homem tímido que se descobre gay, precisa se reaproximar de todos e também conter as angústias do cunhado, um sujeito melancólico com tendências suicidas, e uma criança que acredita, devido à previsão de uma vidente, que lhe restam poucos dias de vida.
O resultado é uma tragicomédia lidando com um tema tabu — que, neste caso, se converte numa abordagem franca e carinhosa de questões espinhosas. O diretor holandês Aaron Rokus afirma ao Meio Amargo ter partido de uma experiência pessoal, que o levou a encarar este dilema por uma nova perspectiva:

Por que decidiu fazer um filme sobre a morte?
Aaron Rookus: Isso começou há muito tempo. Quando eu tinha 22 anos, tive câncer no testículo. E quando você encara a morte tão jovem assim, você meio que carrega isso com você. Quando cresce, você começa a olhar para as coisas da vida de um jeito bem diferente. Então eu queria fazer um filme sobre isso — sobre todas as coisas que a gente sonha quando é criança, ou que a sociedade diz que você tem que conquistar quando for adulto. Mas aí, quando você encara a morte tão cedo, nada disso importa.
Então, para abordar esse tema, eu precisava de vários pontos de vista diferentes, porque não tem uma resposta única, né? E aí percebi que teria que ser um mosaico de personagens.
Se fosse um drama sério, o tema ia ficar pesado demais. Eu não queria que as pessoas saíssem do cinema arrasadas.
É curioso que, tendo passado por esta experiência pessoal, você tenha optado por uma comédia do absurdo.
Aaron Rookus: Pois é, se fosse um drama sério, o tema ia ficar pesado demais, sabe? Eu não queria que as pessoas saíssem do cinema arrasadas. Para mim, a linha entre tragédia e comédia é bem fina. Às vezes são quase a mesma coisa — especialmente falando do câncer que eu tive. Tiveram vários momentos em que eu pensava: “O que está acontecendo?”. Eu só conseguia rir, porque era tudo tão surreal. Cheguei a pensar: será que a vida quer me ensinar alguma coisa? E aí percebi que a única lição é que não tem lição nenhuma.
Neste mosaico, alguns personagens são mais cômicos, e outros, mais dramáticos. Como você trabalhou com os atores para encontrar o tom certo?
Aaron Rookus: A gente entendia que, em uma boa comédia, você não pode fazer graça — você tem que levar tudo a sério. Todos os personagens têm um núcleo dramático muito real. Então a gente conversou muito sobre a origem de tudo isso. Por exemplo, a avó é engraçada no começo, mas depois você entende de onde vem este desejo de partir. Na verdade, essa história é inspirada na minha própria avó, que passou os últimos cinco anos da vida querendo morrer. Ela teve cinco filhos, mas, na real, nunca quis tê-los. Então o núcleo desses personagens é bem real. Mesmo sendo escrito como comédia, a ideia é que no final você entenda o porquê de tudo. Então, respondendo à sua pergunta, acho que é mais uma questão estrutural: os personagens se desenvolvem e você percebe o lado sério deles. A gente conversou muito com os atores para garantir que existisse esse núcleo de verdade em cada um.

Com tantos personagens em cena, como estruturou o roteiro e a montagem para equilibrar a participação de cada um?
Aaron Rookus: Bom, existem várias respostas aí. Quando comecei a escrever o roteiro, eu só fui escrevendo cenas que eu amava. Depois fiquei com esse monte de personagens e pensei: quem é quem? Quem se conecta com quem? Tive duas roteiristas incríveis comigo, e a gente foi descobrindo. Aí alguém disse: “Esse filme é sobre a morte, claro, mas também é sobre os dois irmãos.” Porque, no fundo, todo mundo é solitário, e eles também são, mas no fim, eles se encontram. Então, é uma história sobre dois irmãos que se reconectam.
E claro, também é um filme sobre família e trauma — esse é o núcleo principal. Então esses são os personagens mais importantes. Na edição, a gente cortou algumas coisas, porque vimos que tinha informação demais para o público absorver. Então a gente escolheu reduzir alguns personagens e manter o foco na Annika e no Victor, o irmão.
Um dos temas do filme se encontra na pergunta “Qual o sentido da vida?”. A gente acredita em Deus, mas e se Deus não existir? Para quê viver?
A propósito do irmão, você representa a homossexualidade dele de maneira carinhosa, mas bastante cômica.
Aaron Rookus: Eu não tinha um plano exato para isso, sabe? Tem uma parte do filme em que Victor entra num site de encontros e começa a ler as descrições dos acompanhantes. Esses textos são reais, que eu achei na Internet mesmo. Um desses profissionais escrevia: “Quer ter uma ótima experiência, mesmo que seja a sua primeira vez?”. Achei aquilo tão fofo, que pensei: é com esse cara que o Victor tem que transar. Então, esse garoto mais novo, da geração Z, é super aberto, emotivo, e contrasta com o Victor, que é um millennial mais velho e mais travado.
O garoto entende que o que seu cliente precisa não é sexo, é conexão. Já Victor encara este momento como algo a “cumprir”, para poder seguir em frente com a vida. Então acho que é sobre isso — sobre conexão. Quis mostrar o sexo como um ato emocional, não só físico. Porque acho que, na cultura gay, muitas vezes o foco se encontra no quê você faz, em como se mostra para os outros… Mas eu quis trazer um lado mais sensível.
O filme está repleto de símbolos curiosos, a exemplo da estátua de avestruz sobrevoando a cidade, que me remeteu de imediato a Fellini.
Aaron Rookus: Sim, é claramente uma homenagem a Fellini. Eu adoro o simbolismo do avestruz — é um pássaro que não voa, e que enfia a cabeça na terra. Isso já diz muita coisa. Eu também gosto que, enquanto o Cristo tem o peito aberto e o olhar para a frente, o avestruz tem seu peso para baixo. É um bicho meio desengonçado. Para mim, ele representa essa transição do mundo religioso para um mundo secular. Um dos temas do filme se encontra na pergunta “Qual o sentido da vida?”. A gente acredita em Deus, mas e se Deus não existir? Para quê viver? O avestruz simboliza isso também.
Já a última cena é sobre estar no presente. No começo, todos os personagens estão presos no passado, ou preocupados com o futuro — ninguém vive o agora, apenas o menino. Então, no fim, quando eles finalmente aceitam a realidade e vivem o presente, conseguem ver as maravilhas do mundo.

Existe também a cantora lírica, que encontra seu duplo pelas ruas.
Aaron Rookus: Pois é. Eu mesmo já me peguei pensando mil vezes: “E se eu tivesse feito outra escolha?”. Isso ocorre principalmente na arte, que é um trabalho incerto, difícil. Eu podia ter ido para a área financeira, por exemplo. Eu teria dinheiro, mas seria infeliz. Acho que todo mundo já pensou isso alguma vez: “E se eu tivesse feito diferente?”. Quando você está perto da morte, essa pergunta volta com força. Então o “duplo” representa esse outro lado — a versão de si mesma que fez outras escolhas.
Quis criar um humor que qualquer pessoa pudesse entender, em qualquer lugar.
Fiquei me perguntando se este humor mordaz seria tipicamente holandês. O filme tem se conectado igualmente bem com públicos de diferentes partes do mundo?
Aaron Rookus: Eu refleti muito sobre o humor, porque tentei fazer com que ele fosse mais situacional, não baseado em trocadilhos ou piadas de texto, que se perdem na tradução. Quis criar um humor que qualquer pessoa pudesse entender, em qualquer lugar. E é curioso que, mesmo nas sessões em países diferentes, as pessoas riem exatamente nas mesmas partes. Principalmente na cena das duas ligações telefônicas — é sempre o momento em que o público ri mais alto.
É claro que existem diferenças: isso depende da idade do espectador, e do quanto entende o tom do filme. Porque não é só comédia — é trágico também. Mas, no geral, a recepção é parecida: tem gente que ama e dá cinco estrelas, e tem gente que não entende nada, e dá uma estrela. E está tudo bem. Teve até uma crítica holandesa que escreveu: “Esse é o típico humor holandês — direto e seco”. Eu nem queria fazer um “filme holandês”, queria algo internacional, mais universal. Mas acho que essa franqueza holandesa acabou ficando.



