
O diretor Christian Petzold possui um prazer particular em criar histórias absurdas, a princípio, para abordá-las em seguida como se fossem meras banalidades. Parte de seu humor, e também da estranheza de suas obras, decorre destas tramas marcadas por poucos solavancos emocionais, no interior das quais se “escondem” catástrofes e reviravoltas profundas (caso de Afire e Undine). Nas mãos de qualquer outro cineasta, a premissa de Mirrors nº3 se converteria num dramalhão, ou num suspense hitchcockiano. Aqui, em contrapartida, soa como um tranquilo fim de semana no campo.
Isso porque, neste longa-metragem, Laura (Paula Beer) sofre um acidente de automóvel com o namorado. Eles capotam imediatamente após olharem para Betty (Barbara Auer) em frente à sua casa — como esta última tivesse, em certa medida, provocado a tragédia. A anfitriã acolhe a jovem acidentada, chama os paramédicos, e diante da resposta que a saúde da moça não corre riscos, aceita que ela permaneça na sua casa indefinidamente. Laura mesma pede para continuar ali, vivendo com a anônima. Para a nossa surpresa, a convivência funciona à perfeição — ambas se adoram, se cuidam, conforme cozinham e passeiam. A hóspede jamais precisa voltar para a sua cidade, e a proprietária do imóvel parece dispor todo o tempo do mundo para dedicar à recém-chegada.
A tensão decorre justamente de um funcionamento pacífico demais para um cenário onde se esperaria trauma, conflito, dor. Mas Petzold brinca de reter tais sentimentos.
O contexto que, para muitas ficções, funcionaria como um final feliz, no caso do equivalente alemão, torna-se o ponto de partida para um drama com toques de thriller. Ora, por que a vítima nunca vai embora? Ela não possui compromissos em sua cidade de origem? Obrigações? Por que nenhum amigo ou parente vem procurar por ela? Ela não está triste, ou traumatizada, após perder o namorado no acidente? O que justifica o desconforto do marido e do filho de Betty diante da desconhecida? A proximidade com o rapaz da sua idade implica num romance? O elemento de tensão decorre justamente de um funcionamento pacífico demais para um cenário onde se esperaria trauma, conflito, dor. Mas Petzold brinca de reter tais sentimentos.
Portanto, em Mirrors nº3, a realidade é, de certo modo, posta entre parêntese. Ela está presente como pano de fundo — nenhum trauma é completamente reprimido. No entanto, o cineasta gosta de revelar informações a conta-gotas, entre o reparo da pia que pinga e aquele do lava-louças quebrado. Os consertos se tornam o sinônimo de que ainda há algo a cicatrizar, embora os personagens finjam que não. Por isso, duas bicicletas quebram, o piano precisa de afinação, a cerca necessita de pintura. “Muita coisa está quebrada por aqui”, explica Betty, numa frase cujo significado vai obviamente além da própria casa. Mesmo assim, o retorno do lar à ordem implica numa maneira simbólica de cada personagem efetuar, ao seu ritmo, o devido luto.
Paula Beer interpreta esta figura etérea, misteriosa, sem o mínimo esforço para sê-lo. Muito acostumada ao naturalismo mágico do cineasta, ela encarna a jovem como alguém de respostas prontas, de uma proatividade inata, e que não teria nada a esconder. Muitas atrizes de suspenses gostam de sugerir no olhar e no corpo algum segredo obscuro — segurando um olhar por mais tempo do que o necessário, embutindo pausas inesperadas nas falas. Em contrapartida, Laura é pura exterioridade. Ela não comenta sua vida em Berlim, seu relacionamento com o namorado morto, ou sua profissão, porque não aparenta ter o que dizer a respeito. Neste funcionamento, quanto menos a atriz fizer, em termos de ambiguidade e subentendido, melhor. Beer se mostra direta, transparente, acessível — o oposto do hermetismo habitual do thriller.
Os demais atores, em contrapartida, precisam carregar o peso de um silêncio não contado, e um trauma bastante evidente, sobre o qual não conseguem falar. Eventualmente, terminarão por explicar por que a presença da forasteira agrada e incomoda tanto, na mesma proporção. Até ali, são eles, os gentis anfitriões, que soam como elemento de discórdia. Parte do estranhamento muito funcional da mise en scène decorre deste desnível aparente entre um luto pesaroso, face a outro, tranquilo. Uma morte provoca sentimentos dolorosos e profundos, enquanto a outra aparenta não provocar sentimento nenhum.
Logo, ninguém está certo, nem errado, em sua maneira de reagir à convivência atípica. O longa-metragem evita tomar partidos, observando a todos com igual distanciamento. Trata-se de figuras tão carinhosas quanto difíceis de compreender, durante a maior parte da experiência. Assim, através de uma ciranda simples (são quatro personagens e dois únicos espaços — a casa e a oficina mecânica), o cineasta solicita um espectador ativo, disposto a entrar na dinâmica incomum, e tentar deduzir o que está de fato acontecendo. Teria sido mais fácil solicitar nosso senso de adivinhação diante de algum assassinato ou outro evento espetacular (nos moldes desses suspenses criminais baratos como A Mulher na Cabine 10, A Mulher na Janela e afins), no entanto, o alemão prefere nos convidar a descobrir o que se esconde por trás de uma rotina absolutamente pacífica.


Assim, trabalhando com uma configuração dramática simples, o diretor comprova seu domínio discreto dos tempos e espaços, dos personagens e dos conflitos. Entre idas e vindas de bicicleta, entre inúmeras provocações corriqueiras (“Pode apoiar em mim”, afirma o filho à forasteira, numa frase de diversos significados), permite ao espectador criar seu próprio filme na cabeça, projetando os fetiches pessoais de desejo sexual, ameaça, manipulações, ou mesmo abuso, de uma parte ou de outra.
Há inúmeras lacunas propositais em Mirrors nº3, nas quais o espectador pode se projetar — uma delas sendo o próprio significado do título. Petzold permite que a singela narrativa respire, revelando as informações necessárias, porém cultivando dúvidas e imprecisões que oscilam entre o realismo e a fabulação. Uma vez concluída a pequena jornada de Laura e Betty, a convivência das duas pode ressoar junto ao espectador durante um tempo, provocando-nos a respeito do que realmente acabamos de ver — tal qual acontece aos sonhos, logo após acordarmos.




