Antártida (2026)

Covil de abusadores

título original (ano)
Antártida (2026)
país
Brasil
gênero
Suspense, Ação
duração
93 minutos
direção
Bruno Safadi
elenco
Andrea Beltrão, Lázaro Ramos, Leandra Leal, Marina Ruy Barbosa, João Vitor Silva, Antonio Calloni, Gero Camila, Mariana Sena, Henrique Barreira, Renan Monteiro, Adélio Lima
visto em
54º Festival de Gramado (2026)

Durante a apresentação de Antártida no 54º Festival de Gramado, acreditava-se que o principal interesse do filme residiria no aparato tecnológico colocado à disposição da trama. A Antártida recriada nume estúdio da Globo! Frio, vento e neve enquanto faz 30ºC lá fora! Uma primeira “produção digital”, segundo o diretor Bruno Safadi! Mas o que isso significa, ao certo? O que estas ferramentas poderiam fazer ao cinema brasileiro, em tempos dos igualmente digitais Corrida dos Bichos, O Auto da Compadecida 2 e Grande Sertão?

Ora, passada a experiência do filme, é difícil prestar atenção na recriação de espaços. De fato, a neve à brasileira é convincente, servindo ao propósito inicial. Com exceção de cenas minoritárias (o frio visto pela janela da estação científica), cumpre seu papel — portanto, parabéns aos envolvidos. Mas como nos deter sobre este elemento diante de uma trama tão rocambolesca, sobrecarregada e didática, ao limite do cômico? Afinal, a roteirista Cláudia Jouvin e o montador Rodrigo Lima condensam o maior número possível de casos de abuso sexual e violência contra a mulher num único local, em curta duração, através de um número limitado de personagens. A obra estima que seu ignorante espectador apenas compreenderá a denúncia caso se depare com incontáveis exemplos, sempre flagrantes e revoltantes.

Antártida está repleto de cenas absurdas, aceleradas ou profundamente pedagógicas. Uma pessoa é esquecida nesta equação: a vítima.

Assim, na primeira noite em que Inês (Marina Ruy Barbosa) chega à estação brasileira de pesquisadores, ela é cobiçada por todas as presenças masculinas do local, que a tratam como uma presa a conquistar. Naquela madrugada, é estuprada por dois homens. A Subcomandante Elisabeth (Andréa Beltrão) sofre com a morte da filha, também estuprada e assassinada. Marina (Leandra Leal) foi espancada pelo marido Vicente (Lázaro Ramos), que a persegue e pratica novas agressões. Quando confronta seus possíveis algozes, Inês é novamente agarrada à força, ao som de funk carioca (uma associação grosseira, convenhamos). Rose (Mariana Sena) se masculiniza e invisibiliza para sobreviver à fúria destes militares bestiais. Afinal, antes mesmo de estas violências ocorrerem, o Comandante Barros (Antônio Calloni) interrompe uma festa por meio de tapas e humilhação. Posteriormente, dois jovens se estapeiam — mais de uma vez.

Os hormônios fervilham nesta estação de cientistas que não produzem ciência nenhuma, e pesquisadores que jamais efetuam qualquer pesquisa. Mais do que sugerir a existência de relacionamentos naquele espaço isolado, o projeto insinua que todos eles se beijam diariamente, fazem sexo e se agridem o tempo inteiro, em cada quarto, numa velocidade de dar inveja às telenovelas. “Tô precisando de pele com pele!”, choraminga um homem bêbado, recorrendo, por desespero, ao contato com outro homem (numa representação nada elogiosa da homossexualidade enquanto deriva, falta de opção e ato indesejado). A única mulher que recebe pouca atenção pelo filme, e jamais se desenvolve ao longo da trama — vejam só — é a cientista negra. De resto, o roteiro se concentra no potencial de assédios, abusos e crimes cometidos em poucos dias.

Em qualquer narrativa minimamente verossímil, esta sucessão impensável de acontecimentos levaria à interrupção das ações e averiguação dos fatos por fontes externas. Mas não aqui. Elisabeth, convertida em Hercule Poirot, decide interrogar os possíveis culpados, um por um, implorando que lhe digam a verdade. Quem estuprou Inês? Quem foi? A única preocupação dela, e também do filme, reside em descobrir o culpado. Nasce um whodunit pouco convencional onde, ao invés de “quem matou?”, pergunta-se “quem estuprou?”. Há pouquíssimas provas à disposição, até porque estes maus detetives se esquecem da existência de câmeras de segurança na estação. Quando se lembram desta obviedade, nem mesmo pensam em solicitar as imagens de imediato. 

Conforme o roteiro se perde em incongruências, uma pessoa é gravemente esquecida nesta equação: a vítima. Na ânsia de indiciar e prender, a mulher estuprada é literalmente trancada em quartos (seria ela a verdadeira perigosa, precisando ser afastada do contato social?), e jamais recebe qualquer tipo de acolhimento. Nem a direção, nem os demais personagens se importam verdadeiramente com ela depois do crime. Priva-se Inês do protagonismo e do controle do ponto de vista. Logo, os demais falam por ela, em nome dela, em terceira pessoa, ao passo que o texto ignora o impacto psicológico de tal ato. No dia seguinte, estes profissionais seguem as suas atividades (o que fazem, mesmo, estes personagens que somente perambulam de um cômodo ao outro?) como se nada tivesse ocorrido.

Antártida está repleto de cenas absurdas, aceleradas ou profundamente pedagógicas. Na sala de cinema, escutavam-se alguns risos de incômodo ou escárnio. Como ninguém pensou nas câmeras de segurança antes? Por que Inês simplesmente desmaia na neve da Antártida após vomitar? É sério que estão explicando a cientistas o significado do El Niño e do aquecimento global, com vocabulário escolar? Por que a líder da estação chilena é uma mulher brasileira? Por que eles passam tanto tempo se divertindo no frio glacial, ao invés de se aquecerem lá dentro? Marina vai realmente perdoar seu abusador, num abraço carinhoso? O que dizer do homem convenientemente dormindo com suas botas de neve na cama e, mais convenientemente ainda, afirmando a existência de um tumor cerebral que pode gerar comportamentos imprevistos — tal qual um estupro? Por que se decidiu investir em mais romances, acessórios e mal desenvolvidos, na noite do crime (o beijo repentino de Marina em Gaspar)? Como se decidiu pela excelente ideia de colocá-los dormindo juntos na sala, logo após o estupro — quando, obviamente, ocorre uma nova perseguição às mulheres? O texto é tão inchado que se aproxima da paródia.

Por fim, os personagens são definidos exclusivamente por dilemas matrimoniais e maternos/paternos. Em chave determinista, resolvem seus traumas e ressentimentos atacando-se (no sentido sexual e/ou abusivo do termo). Não há medicina (nenhum exame apropriado para estupro é efetuado em Inês), nem polícia, muito menos justiça. Eles se enfrentam e se resolvem entre si. Logo, o roteiro recorre ao clichê máximo de séries procedurais no estilo CSI: uma vez confrontado à verdade, o criminoso simplesmente confessa seus atos, e o bem impera. Ora, no formato televisivo, a curta duração dos episódios (pouco mais de 20 minutos) impõe a necessidade desta resolução acessória, quase mágica, destinada a reforçar o valor da polícia norte-americana. No caso de um longa-metragem brasileiro, dotado de mais tempo, esperava-se um andamento cuidadoso e verossímil dos fatos.

Na conclusão, caso alguém ainda não tenha compreendido a mensagem, chegam os letreiros informativos a respeito da revoltante taxa de estupros no Brasil. O espectador é encorajado a se conscientizar, denunciar e telefonar ao canal sugerido. Trata-se de uma intenção nobre, sem dúvida. Jouvin e Safadi inclusive preocupam-se em sublinhar que a mulher pode usar roupas justas, estar bêbada, e demonstrar interesse sexual prévio — nada disso justifica a violação de uma pessoa desacordada. É algo legítimo, e importante de ser frisado. No entanto, apesar da atuação comprometida de Andréa Beltrão, e do talento impressionante de Lázaro Ramos (num papel dificílimo), resta ao espectador uma avalanche de belos ensinamentos e más execuções. Estranha-se que um projeto desenvolvido durante tantos anos tenha chegado à fase de realização com um texto que necessitava de mais tratamentos, reflexão e polimento.

Antártida (2026)
3
Nota 3/10

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