Mulheres do Bando (2026)

Pequenos afetos

título original (ano)
Mulheres do Bando (2026)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
85 minutos
direção
Thamires Vieira
com
Arlete Dias, Cássia Valle, Edvana Carvalho, Ella Nascimento, Jamile Alves, Luciana Souza, Merry Batista, Naira da Hora, Rejane Maia, Valdinéia Soriano
visto em
59º Festival de Brasília (2026)

Em cima de um palco, diversas atrizes se reúnem ao redor de Rejane Maia. A experiente atriz do Bando de Teatro Olodum se senta em uma espécie de trono, recebendo o afeto e admiração das demais. Explica um pouco de seu processo artístico, e ajuda a própria diretora, Thamires Vieira, a pensar na possível adaptação das peças clássicas do grupo aos tempos atuais. Ela também observa fotografias e escuta gravações antigas, reagindo à memória de tempos tão preciosos em sua vida. Assim, reflete acerca da resiliência deste projeto artístico, e da admiração de mulheres negras umas pelas outras — afeto este que move a obra na totalidade.

Trata-se de um instante comovente, marcado por preciosas escolhas de direção. Neste segmento, o preto e branco contrastado diminui a importância do cenário, convertido num fundo preto infinito. As roupas brancas uniformizam estas mulheres, em meio a um discurso que as trata sem hierarquia. A fotografia e o som se provam capazes de uma contemplação respeitosa e atenta, enquanto a montagem segura os planos por tempo suficiente para ultrapassarem a função da fala, prestando-se a uma admiração geral. Mais do que contar a história destas atrizes, o documentário se mostra disposto a observá-las, presenciá-las, materializá-las. 

Até pelo cuidado deste trecho — o melhor de todo o longa-metragem —, a conturbada introdução de Mulheres do Bando se torna mais difícil de assimilar. A narrativa se abre com o ensaio deste elenco feminino em uma espécie de salão. A fotografia se torna bastante confusa quanto à melhor forma de captá-las: seria num plano de conjunto aberto (caso das poses congeladas)? Ou então com a câmera na mão, fluindo espontaneamente entre um rosto e seguinte? Focando-se em uma delas, e deixando as demais entrarem e saírem do quadro a esmo? A ausência de uma organização do olhar demarca este instante inicial.

Mulheres do Bando funciona enquanto pequena introdução ao universo destas atrizes. Infelizmente, são flagrantes as deficiências do registro sonoro.

Entretanto, ainda mais flagrantes são as deficiências do registro sonoro. Numa provável captação do som pela própria câmera, as falas se mesclam em cacofonia. Muitas vezes, incomodam pelo volume estourado (quando todas se manifestam em simultâneo). Inversamente, em outras ocasiões, fala-se tão baixo que as legendas se fazem necessárias à compreensão. Um canto em uníssono reúne as personagens, embora a captação do som seja tão deficiente que a beleza das vozes se perca em meio aos ecos e ruídos. Sem dúvida, o caráter independente do longa-metragem, realizado durante a pandemia de Covid-19, justifica algumas restrições. Mesmo assim, o som poderia receber um tratamento mais cuidadoso a partir de instrumentos bastante simples de captação. Em paralelo, a montagem e a finalização poderiam facilmente aprimorar a banda sonora, reduzindo, pelo menos, o som altíssimo quando alguém “pigarreia ao fundo”, de acordo com as legendas.

As cenas seguintes, apresentando as personagens à câmera individualmente, também despertam curiosidade quanto às escolhas estéticas. Por que colocar estas mulheres negras em contraluz — uma disposição que justamente prejudica o registro de suas expressões e seu trabalho corporal? Por que utilizar pouquíssimos materiais de arquivo e, nestas raras ocasiões, aplicar diversas intervenções na imagem (o efeito caleidoscópico, as faíscas vermelhas digitais)? A intrusão em pós-produção dificulta, inclusive, prestigiar a atuação destas mulheres. Quando a narrativa se encaminha ao segmento em preto e branco, mencionado anteriormente, ela proporciona certo alívio ao espectador. Enfim, encontramos cuidadosos registros de som e imagem, além de um tratamento tão humanizado quanto poético destas personagens fortes. Mas então, como justificar as escolhas que os precedem?

Felizmente, por trás do desnível de linguagem, existem as falas potentes de Arlete Dias, Edvana Carvalho, Luciana Souza e tantas outras. Elas pontuam o rigor de seu trabalho, e protestam contra a falta de reconhecimento (público e financeiro) por suas criações. Sublinham com claridade o que esperariam, em termos de estrutura e estabilidade profissional, para preservarem este projeto tão consagrado com o devido conforto. Comparam-se ao prestígio dos homens do Bando, e questionam o olhar enviezado em relação às mulheres negras que, conforme atestavam cartazes dos anos 1980, sofrem um duplo preconceito. Assim, elas se posicionam de forma artística e política, em falas e gestos que impossibilitam dissociar as duas esferas.

Por fim, Mulheres do Bando funciona enquanto pequena introdução ao universo destas atrizes. Ainda conhecemos pouco de suas apresentações, da resistência ao longo do tempo, da relação com o elenco masculino, ou ainda das conexões com o restante do panorama cênico e artístico baiano. Nem mesmo as personagens apresentadas à câmera serão contextualizadas — a qual espetáculo pertencem? Ou seriam meros estudos cênicos? Devido à época em que foi filmado, cinco anos atrás, o longa-metragem corre o risco de estrear nos cinemas já desatualizado — vide todos os prêmios, e a aclamação de Luciana Souza e Edvana Carvalho, por exemplo. O que elas teriam a dizer hoje, depois de Ó Paí Ó 2, Arca de Noé, Malês, Bacurau, Quando Eu Me Encontrar e Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha — para citar, apenas, os papéis no cinema?

Resta sobretudo o afeto, e a disposição a conferir protagonismo a grandes profissionais, apresentando ao espectador nomes que talvez desconheça. Ignoramos seus percursos, ou o modo como o grupo transformou esta trajetória pessoal. Neste pequeno olhar, certamente modesto em suas pretensões, importa em especial o tempo presente. Esta pode ser uma escolha curiosa para um discurso que valoriza tanto com ancestralidade, e as mulheres que abriram caminho para estas. Mesmo assim, elas indicam uma força latente, uma expressão de vozes nem tão novatas assim, e que ocupam, desta vez, o centro do palco e das atenções.

Mulheres do Bando (2026)
5
Nota 5/10

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