
No 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, depois de tantos documentários independentes marcados por graves problemas de fotografia e som, é interessantíssimo encontrar um projeto como Cacimba. Se alguma reprimenda fosse feita ao filme, seria de ordem oposta, devido ao caráter profundamente estetizante das imagens. Afinal, o longa-metragem é lindo: não há uma única imagem mal iluminada, nenhum enquadramento pensado na urgência. As composições soam como pinturas, partindo da presença de algum morador do Quilombo do Baú, posando cuidadosamente no terço do enquadramento, cercado pelas árvores, pelos rios e pelas casas.
Assim, impressiona muito o plano de um homem lavrando a terra, em contraluz, com a poeira levantando ao ar e desenhando uma aura ao redor. O mesmo pode ser dito da imagem do sujeito acendendo sua fogueira, nos minutos finais da tarde, quando a luz azulada se contrasta com o vermelho das chamas. Ou ainda a filha da família Baú, encostada na batente da porta, sendo impecavelmente iluminada pela luz alaranjada do fim da tarde por um lado, e pela luz interna à casa, do outro. Esta exposição de imagens chama tanta atenção a própria que quase diminui o peso do tema que pretende denunciar: as constantes ameaças de invasão de terras quilombolas protegidas.
Profundamente estetizante, Cacimba vai na contramão de tantos documentários incisivos na militância, e tímidos na linguagem.
Isso porque os habitantes da região começam a perceber a presença agressiva dos capangas de fazendeiros pelos entornos. Eles adentram a propriedade sem permissão, enquanto os patrões utilizam seus contatos poderosos no intuito de obter concessões para pesquisar e explorar lítio e granito — mesmo em zonas demarcadas aos quilombolas. Assim, o trio central (Antônio Baú, Daiane Baú e Romilda Baú) serve como entrevistador e interlocutor no diálogo com o público. Eles visitam as terras exploradas; conversam com os vizinhos, organizam reuniões e espalham a notícia de que o perigo se aproxima. Tornam-se portas-vozes de sua comunidade, mas também facilitadores do tema para o espectador.
No entanto, a condição necessária para que a explanação se torne tão simples, e impecavelmente bela, reside na ficcionalização. O documentário incorpora diversas cenas condicionadas, estimuladas pela direção, além de ferramentas possíveis unicamente mediante controle roteirizado pelo dispositivo fictício. Assim, pai e filha se deparam com os estragos da mineração nas terras, em plano e contraplano. Quando chegam ao rio, para testemunhar a diminuição do volume das águas, a câmeras já os aguarda, bem posicionada, na outra margem. A visita da mulher ao sindicato é filmada do lado de fora da janela. Ao narrar o episódio em que o homem encontrou um carro dos adversários em sua propriedade, após atravessar um cercado, o diretor reconstrói a situação aos nossos olhos.
Muitas conversas transitam entre o estímulo livre da direção e o cuidado ainda mais roteirizado: os personagens leem em voz alta todas as descobertas efetuadas no celular a respeito das invasões de terras protegidas. Chamam-se por seus cargos, de modo a informar o público: “Você, como presidente lá da APA…”. Adiante, a filha diz: “Tenho uma amiga que estuda geologia!”. Num corte simples da montagem, chegam à casa da especialista, que introduz aos quilombolas (e ao espectador) o mapeamento de terras concedidas à exploração dos mineradoras. Paira uma noção de narrativa, no sentido clássico e linear do termo. Tudo é claro, claríssimo — e também, bastante encenado, ao limite da ficção assumida enquanto tal. Nota-se a vocação educativa por parte do diretor Rodrigo Campos e sua equipe.
Ao mesmo tempo, os conflitos se concentram na descoberta desta ofensiva, além da conscientização dos moradores do Baú, e comunidades vizinhas. A obra se situa alguns momentos antes da luta propriamente dita — ou seja, na informação e divulgação de ideias, que permitiria, em seguida, traçar um plano de combate. O filme jamais envolve advogados, ONGs ou petições. Já o cartaz oficial, que traz pai e filha de armas em punho, mirando desafiadoramente a imagem, juntos do slogan “Uma comunidade quilombola defende seu território”, aparenta induzir ao erro: estamos muito distantes da luta armada, ou da briga propriamente dita. A família de protagonistas acata com relativa calma a sugestão de abandonarem, por algumas semanas, sua terra — até sermos informados, via letreiros, de uma conquista posterior. (Por que logo a conquista é ocultada pela montagem? Não seria esta a imagem mais importante para o discurso?).


Cacimba adota, portanto, um tom melancólico e crepuscular — seja por tantas naturezas silenciosas e vazias, seja pela postura relativamente conformista das captações privilegiadas pela montagem. Em geral, os personagens descobrem as invasões de fazendeiros e declaram: “É lamentável!”. Mas fazer o quê, né? Surpreende que justamente as estratégias de ação e de defesa estejam ausentes de um projeto voltado à valorização da luta. Antônio Baú relembra que os habitantes locais possuem um Protocolo de Consulta, que os protegeria da apropriação ilegal — pelo menos, na teoria. Ora, ao se depararem com as infrações, espantam-se, indignam-se, preocupam-se — e a narrativa encerra o processo por aí. A resistência, propriamente dita, chegaria numa eventual sequência a esta narrativa introdutória.
Em conclusão, o longa-metragem cumpre sua tarefa de conscientização do público, pressuposto leigo quanto aos temas abordados. Informa a respeito da existência do Quilombo do Baú e de seus desafios diários. Em paralelo, busca uma estética à altura da beleza que enxerga nestes homens e mulheres tão fortes, através da profunda intervenção e controle do real — este é um documentário avesso à espontaneidade. Talvez as discussões entre os personagens sejam simplificadas demais, devido ao pressuposto pedagógico (o mapa de quadradinhos vermelhos, referente à exploração do lítio, recebe não uma, mas duas explanações consecutivas). Entretanto, o cineasta estabelece suas prioridades políticas e estéticas, na contramão de tantos documentários incisivos na militância, e tímidos na linguagem. Campos e sua equipe preferem o caminho contrário.




