
Os Vivos Caminham A Terra é um filme sobre o quê? Esta pergunta comum seria difícil de responder, no caso da obra experimental. Afinal, o próprio filme nunca procura oferecer soluções fáceis, enquanto a sinopse oficial abre vias, ao invés de afunilá-las (“Tudo o que existia era eternidade. Então, a vontade inconformada das coisas originou metamorfose”). Através de uma intensa abertura cosmogônica, em preto e branco, janela scope e sons estridentes, somos apresentados a nada menos que a origem de tudo. Fez-se a vida, fez-se a Terra, fez-se o homem (interpretado por Nivaldo Nascimento). Nos próximos 80 minutos, uma jornada sem diálogos confronta o ser humano à natureza.
Pode-se dizer que a obra de Pedro Maia de Brito constitui, em primeiro lugar, um filme de ação. Sem passado nem futuro, o protagonista habita um eterno presente, movido por ações e deslocamentos instintivos — não há uma noção de objetivos aqui. Esta figura solitária, numa terra nova, caminha aqui e acolá, descobre águas e grutas, além de estranho palácio que abriga poderes. A narrativa é pautada por exterioridades, num percurso que impede qualquer forma de psicologia dos personagens. Encontramo-nos antes deste processo de individuação, ou formação de subjetividade. Este é um terreno de seres humanos contra a natureza, em macro acontecimentos biológicos (nascer, crescer, morrer) em detrimento de instâncias sociais — posto que uma sociedade inexiste.
Pedro Maia de Brito demonstra uma crença profunda no impacto dos sons, no maravilhamento das imagens, e no poder das composições e das luzes. Em tempos de explanações tão didáticas, esta resistência de ordem estética constitui um posicionamento político notável.
Em segundo lugar, trata-se de uma obra ritualística. A integralidade da experiência se concentra em processos da própria natureza e do cosmos (o Big Bang), da natureza com os homens (a experiência deste humano primordial pelo território) e dos homens entre si (os cultos, as magias, as proto-procissões). O sujeito traz um corte profundo na palma da mão, que aparenta lhe permitir certo grau de contato com as coisas — ele sente, sofre e prova as sensações ao redor. Restam agrupamentos, roupas específicas, velas e tochas. Antes mesmo das organizações conjuntas, havia, segundo esta reconstituição da origem das coisas, práticas de veneração e sacrifício — logo, havia a crença em algo superior, invisível e supremo.
Em seguida, pode-se afirmar, igualmente, que o longa-metragem represente uma obra de pesquisa estética, na qual a composição dos planos, a luz, o contraste e a intensa banda sonora se convertem num fim em si próprios. Estes recursos não servem a uma história particular (nem a uma “mensagem”), mas à investigação plástica do gesto — a criação enquanto meio e finalidade. O autor explora diversas formas de enquadramento, de olhar e de ponto de vista. Partindo do universo, aproxima-se do planeta, dos terrenos e dos seres humanos. Depois de muito tempo, enxergamos o primeiro rosto em close-up, embora a trama jamais seja contada pela perspectiva atônita deste homem.
Os Vivos Caminham a Terra surpreende pela imprevisibilidade da viagem. Ora estamos colados à face do protagonista, e num corte da montagem, ele se reduz a mero ponto perdido na imensidão escura, segurando uma tocha. O desencadeamento de ações dispensa causas e consequências, antes e depois. Por isso, dilui a noção de espaço e de tempo — é impossível determinar a duração dos acontecimentos, e onde exatamente o palácio e os humanos se situam. Priva-se o espectador de qualquer ponto de identificação ou justificativa: a jornada não aparenta se desenvolver para nós, visando nosso entretenimento e esclarecimento, mas apesar de nós. Testemunhamos a iluminação alheia, sem saber, ao certo, o que tantos estímulos possam significar — caso se presuma que contenham, e tenham que conter, algum significado.
Logo, a obra preserva seus mistérios. Evita se esclarecer, a exemplo dos filmes de suspense que criam um quebra-cabeça apenas para solucioná-lo no final. Não há enigma a desvendar, neste caso. Entre o natural e o sobrenatural, entre efeitos físicos (o corte na mão) e mágicos (o poder saindo do cajado, tal qual uma água em gravidade zero), promove uma espécie de encantamento, um prazer de se perder entre paisagens conhecidas e outras indecifráveis. Assemelha-se, desta forma, a um conto, a lenda de uma cultura distante, cujos códigos locais nos escapam. Era uma vez um homem, que acordou sozinho na Terra, com a palma da mão cortada…


Para o elenco, a atuação equivale menos ao trabalho habitual de composição de personagem do que a uma presença, uma disponibilidade a interagir com os espaços. A direção de arte suntuosa de Denise Vieira pode brincar tanto com os castelos verossímeis quanto com um imaginário ancestral de vestimentas e tronos. Trata-se de uma possibilidade de exploração de registros, um estudo de representação — as boas obras experimentais sempre soam como cinema a respeito do próprio cinema. Pedro Maia de Brito demonstra uma crença profunda no impacto dos sons, no maravilhamento das imagens, e no poder das composições e das luzes. Em tempos de explanações tão didáticas, esta resistência de ordem estética constitui um posicionamento político notável.
Para parte considerável do público, Os Vivos Caminham a Terra pode resultar hermético demais. Foi particularmente interessante que um grupo de alunos das escolas brasilienses tenha presenciado a exibição no Cine Brasília. Teriam gostado? Se sentido estimulados, intrigados, entediados? Ora, o ritmo se assemelha, de fato, a uma obra inteiramente em câmera lenta, crente de sua capacidade de sedução através do lânguido agenciamento de imagens e sons. Mesmo assim, os criadores se demonstram plenamente cientes do tipo que filme que oferecem. Estamos longe de um filme que se pretendia popular, mas errou o alvo. Esta é uma iniciativa radical que, como esperado, atingirá uma parcela reduzida de espectadores. Mas estas obras de invenção são fundamentais a qualquer cinematografia dinâmica. Os riscos do projeto pernambucano possuem grande valor na atual produção brasileira.




