Os Vivos Caminham a Terra (2026)

A origem de tudo

título original (ano)
Os Vivos Caminham a Terra (2026)
país
Brasil
linguagem
Experimental
duração
85 minutos
direção
Pedro Maia de Brito
elenco
Nivaldo Nascimento, Fernando Teixeira, Maicon dos Santos, Guga Catimbau
visto em
59º Festival de Brasília (2026)

Os Vivos Caminham A Terra é um filme sobre o quê? Esta pergunta comum seria difícil de responder, no caso da obra experimental. Afinal, o próprio filme nunca procura oferecer soluções fáceis, enquanto a sinopse oficial abre vias, ao invés de afunilá-las (“Tudo o que existia era eternidade. Então, a vontade inconformada das coisas originou metamorfose”). Através de uma intensa abertura cosmogônica, em preto e branco, janela scope e sons estridentes, somos apresentados a nada menos que a origem de tudo. Fez-se a vida, fez-se a Terra, fez-se o homem (interpretado por Nivaldo Nascimento). Nos próximos 80 minutos, uma jornada sem diálogos confronta o ser humano à natureza.

Pode-se dizer que a obra de Pedro Maia de Brito constitui, em primeiro lugar, um filme de ação. Sem passado nem futuro, o protagonista habita um eterno presente, movido por ações e deslocamentos instintivos — não há uma noção de objetivos aqui. Esta figura solitária, numa terra nova, caminha aqui e acolá, descobre águas e grutas, além de estranho palácio que abriga poderes. A narrativa é pautada por exterioridades, num percurso que impede qualquer forma de psicologia dos personagens. Encontramo-nos antes deste processo de individuação, ou formação de subjetividade. Este é um terreno de seres humanos contra a natureza, em macro acontecimentos biológicos (nascer, crescer, morrer) em detrimento de instâncias sociais — posto que uma sociedade inexiste.

Pedro Maia de Brito demonstra uma crença profunda no impacto dos sons, no maravilhamento das imagens, e no poder das composições e das luzes. Em tempos de explanações tão didáticas, esta resistência de ordem estética constitui um posicionamento político notável.

Em segundo lugar, trata-se de uma obra ritualística. A integralidade da experiência se concentra em processos da própria natureza e do cosmos (o Big Bang), da natureza com os homens (a experiência deste humano primordial pelo território) e dos homens entre si (os cultos, as magias, as proto-procissões). O sujeito traz um corte profundo na palma da mão, que aparenta lhe permitir certo grau de contato com as coisas — ele sente, sofre e prova as sensações ao redor. Restam agrupamentos, roupas específicas, velas e tochas. Antes mesmo das organizações conjuntas, havia, segundo esta reconstituição da origem das coisas, práticas de veneração e sacrifício — logo, havia a crença em algo superior, invisível e supremo.

Em seguida, pode-se afirmar, igualmente, que o longa-metragem represente uma obra de pesquisa estética, na qual a composição dos planos, a luz, o contraste e a intensa banda sonora se convertem num fim em si próprios. Estes recursos não servem a uma história particular (nem a uma “mensagem”), mas à investigação plástica do gesto — a criação enquanto meio e finalidade. O autor explora diversas formas de enquadramento, de olhar e de ponto de vista. Partindo do universo, aproxima-se do planeta, dos terrenos e dos seres humanos. Depois de muito tempo, enxergamos o primeiro rosto em close-up, embora a trama jamais seja contada pela perspectiva atônita deste homem.

Os Vivos Caminham a Terra surpreende pela imprevisibilidade da viagem. Ora estamos colados à face do protagonista, e num corte da montagem, ele se reduz a mero ponto perdido na imensidão escura, segurando uma tocha. O desencadeamento de ações dispensa causas e consequências, antes e depois. Por isso, dilui a noção de espaço e de tempo — é impossível determinar a duração dos acontecimentos, e onde exatamente o palácio e os humanos se situam. Priva-se o espectador de qualquer ponto de identificação ou justificativa: a jornada não aparenta se desenvolver para nós, visando nosso entretenimento e esclarecimento, mas apesar de nós. Testemunhamos a iluminação alheia, sem saber, ao certo, o que tantos estímulos possam significar — caso se presuma que contenham, e tenham que conter, algum significado.

Logo, a obra preserva seus mistérios. Evita se esclarecer, a exemplo dos filmes de suspense que criam um quebra-cabeça apenas para solucioná-lo no final. Não há enigma a desvendar, neste caso. Entre o natural e o sobrenatural, entre efeitos físicos (o corte na mão) e mágicos (o poder saindo do cajado, tal qual uma água em gravidade zero), promove uma espécie de encantamento, um prazer de se perder entre paisagens conhecidas e outras indecifráveis. Assemelha-se, desta forma, a um conto, a lenda de uma cultura distante, cujos códigos locais nos escapam. Era uma vez um homem, que acordou sozinho na Terra, com a palma da mão cortada… 

Para o elenco, a atuação equivale menos ao trabalho habitual de composição de personagem do que a uma presença, uma disponibilidade a interagir com os espaços. A direção de arte suntuosa de Denise Vieira pode brincar tanto com os castelos verossímeis quanto com um imaginário ancestral de vestimentas e tronos. Trata-se de uma possibilidade de exploração de registros, um estudo de representação — as boas obras experimentais sempre soam como cinema a respeito do próprio cinema. Pedro Maia de Brito demonstra uma crença profunda no impacto dos sons, no maravilhamento das imagens, e no poder das composições e das luzes. Em tempos de explanações tão didáticas, esta resistência de ordem estética constitui um posicionamento político notável.

Para parte considerável do público, Os Vivos Caminham a Terra pode resultar hermético demais. Foi particularmente interessante que um grupo de alunos das escolas brasilienses tenha presenciado a exibição no Cine Brasília. Teriam gostado? Se sentido estimulados, intrigados, entediados? Ora, o ritmo se assemelha, de fato, a uma obra inteiramente em câmera lenta, crente de sua capacidade de sedução através do lânguido agenciamento de imagens e sons. Mesmo assim, os criadores se demonstram plenamente cientes do tipo que filme que oferecem. Estamos longe de um filme que se pretendia popular, mas errou o alvo. Esta é uma iniciativa radical que, como esperado, atingirá uma parcela reduzida de espectadores. Mas estas obras de invenção são fundamentais a qualquer cinematografia dinâmica. Os riscos do projeto pernambucano possuem grande valor na atual produção brasileira.

Os Vivos Caminham a Terra (2026)
8
Nota 8/10

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