Ruas da Glória (2024)

Miséria sentimental

título original (ano)
Ruas da Glória (2024)
país
Brasil
gênero
Drama, Romance
duração
109 minutos
direção
Felipe Sholl
elenco
Caio Macedo, Alejandro Claveaux, Diva Menner, Alan Ribeiro, Jade Sassará, Sandro Aliprandini
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

Imagine que você deseja criar um filme sobre amores intensos. Não somente uma relação passageira, terna, mas aquelas paixões esfuziantes, que te consomem por inteiro e modificam a sua vida. Há incontáveis maneiras de representar este nível de fervor: transparecendo-o nas luzes e cenários (caso de Vento Seco e Apenas Coisas Boas, por exemplo), na melodia da trilha sonora (Baby, Corpo Elétrico), na narração e nas fotos still (Looping), na fábula e na mitologia (Salomé, A Rosa Azul de Novalis), nas metáforas de monstros (Labirinto dos Garotos Perdidos), na corporeidade beirando o terror (Macho Carne, Casa de Bonecas, Cidade; Campo). 

Você também pode recorrer ao caminho mais literal da impressão de potência: pedir aos atores para gritarem, chorarem, urrarem, gemerem, lacrimejarem, arfarem — de preferência, com a câmera coladíssima aos rostos, enquanto se desfoca os cenários, para se perceber unicamente a explosão de sentimentos no elenco. Ruas da Glória opta por este caminho da emoção enquanto evidência, espetáculo, e também parêntese do real. Aqui, a partir do momento em que se ama, nada mais importa. Os personagens deixam de ter vida paralela, ou outras preocupações. Passam dias e noites pensando no próprio amor, deliciando-se com a ideia da pessoa amada, e sofrendo com a eventual separação.

O projeto romantiza um relacionamento tóxico e abusivo, encarando a manipulação emocional enquanto prova de amor duradouro.

Na trama, Gabriel (Caio Macedo) apaixona-se por Adriano (Alejandro Claveaux) à primeira vista. Desde o instante inicial em que pisa na boate Glória, na noite em que acaba de se mudar para o Rio de Janeiro, ele admira o uruguaio e se encanta. Está posto o único real conflito do longa-metragem: possuir ou não possuir o objeto de sua paixão. Uma vez reunidos, convertem-se quase instantaneamente em namorados indissociáveis, algo que a direção retrata, mais uma vez, da maneira mais óbvia possível: uma infinidade de cenas de beijo, em plano próximo, com sons altíssimos do contato entre os dois homens. Além disso, o cineasta Felipe Sholl aposta nos planos longo de sexo, novamente com sons em alto volume para compensar o fato que, na verdade, a representação do ato em si se prova um tanto pudica (vide o tradicional plano fechado nos rostos em êxtase, o detalhe nas costas suadas, o cliente se masturbando com o pênis dentro da cueca), etc.

Uma vez instaurado o amor, estima-se que, para conquistar nossa crença em tais sentimentos, os atores precisam manifestar um grau maníaco de energia. Por isso, eles arregalam os olhos, se desesperam, abraçam-se com força, beijam-se com violência, cheiram-se como bichos, e fazem sexo numa vontade de consumir o corpo alheio. Reforça-se aquele estereótipo, não muito valorativo, da relação entre dois homens enquanto algo brutal, violento, carnal e destrutivo, ao invés de um laço possibilitando admiração e cumplicidade. Mesmo os instantes de “descanso” entre os amantes recorrem a uma euforia infantilizada (a diversão na piscina improvisada) ou autodestrutiva (o rapaz batendo no próprio rosto, para lembrar a deliciosa “pegada” do namorado, e sensualizando para a câmera).

Isso porque, além do fetiche da brutalidade gay, Ruas da Glória incorre em outro pressuposto nocivo, emprestado ao imaginário antiquado dos relacionamentos homoafetivos: a associação ao caráter criminoso, sombrio, que perverteria jovens rapazes de família. (A obra oferece munição de sobra à direita reacionária). Assim que se envolve com Adriano, Gabriel se entrega ao vício em cocaína, para de desempenhar com competência a profissão de professor, e começa a fazer seus próprios programas (algo apresentado como sintoma de decadência física e moral). O projeto romantiza um relacionamento tóxico e abusivo, encarando a manipulação emocional enquanto prova de amor duradouro. Acredita que, quanto mais miserável for a condição de um e de outro (o que inclui a autoflagelação nas ruas, a entrega à violência dos becos, o choro em posição fetal), mais profundo terá sido o laço entre eles.

Em paralelo, o longa-metragem que supostamente valoriza a diversidade racial e LGBTQIA+ ainda confina personagens negro(a)s e travestis à função de escada para os protagonistas brancos. Mônica, Laila, Mateus e Roger existem unicamente para dar a réplica ao herói, acolhê-lo em momentos de dificuldade, ajudarem com a crise amorosa, comparecerem na casa dele numa situação de urgência. Nunca se descobre nenhum conflito ou interesse próprio destas figuras, em situações não-relacionadas a Gabriel. O que dizer dos dilemas sentimentais do quarteto? Não possuem seus próprios amores e desamores? Embora a nova “família” do rapaz faça tudo por ele, o mesmo não efetua um gesto sequer em direção às pessoas que supostamente ama — e a narrativa jamais manifesta a mínima crítica ao egocentrismo do personagem. Trata-se de um ideal limitadíssimo de representatividade.

Para quem entende drama enquanto pathos e catarse, Ruas da Glória realmente oferece um banquete histérico de exaltação e desespero. Em conjunção com o texto acentuado, privilegiam-se atuações alguns graus acima do naturalismo, além da estética de tons fortes, e do imperativo de close-ups. Esta é a lógica do mais é mais, que resulta em instantes beirando a caricatura (“Quem é você, ca-ra-lho?”, “Eu não quero morrer, eu quero viver!”). O cinema brasileiro já apostou incontáveis vezes na materialização do mundo cão enquanto sinônimo de visceralidade, mas agora, a cartilha anacrônica se aplica ao mundo gay. Ora, maioria dos projetos contemporâneos já compreendeu que pessoas apaixonadas ainda trabalham, ainda possuem famílias, ainda cumprem com obrigações.

Entretanto, por esta lógica idealizada, o amor constitui meio e finalidade. Volta-se àquele sentimentalismo clássico que te faz perder a fome, não mais dormir, abdicar de si próprio enquanto sinal de entrega ao outro. Em pleno 2025, esta obra resgata uma compreensão ultrapassada de política dos afetos. O deleite voyeurista de observar personagens (sobretudo gays, solitários, marginalizados, agredidos) berrando e se rastejando não significa mais uma bela maneira de honrar e apresentar nossa subjetividade — e já significou, algum dia? Os melhores exemplares do cinema queer brasileiro têm se dedicado a compreender o modo como nossos afetos se misturam à sociedade, e a maneira como a manifestação do sentimento implica numa estética própria. Em contrapartida, para algumas novas-velhas obras, a intensidade basta.

Ruas da Glória (2024)
2
Nota 2/10

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