A 29ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes teve como homenageada uma grande atriz do teatro e cinema brasileiros: Karine Teles. Ela é conhecida pelos cinéfilos por seu trabalho em filmes como Riscado (2010), O Lobo Atrás da Porta (2013), Que Horas Ela Volta? (2015), Fala Comigo (2017), Benzinho (2018), Bacurau (2019), Cyclone (2025) e Salve Rosa (2025).
A artista foi aclamada no evento por diversos cineastas, ministros e secretários de cultura, que atestaram sua versatilidade e naturalidade em frente às câmeras. Ela recebeu o troféu Barroco ao lado dos filhos gêmeos, e aproveitou para conversar com a imprensa a respeito de sua carreira.
Em entrevista ao Meio Amargo, comentou seu processo de criação de personagens, e a relação com a crítica de cinema:

Gostaria de conhecer um pouco sobre o seu processo de criação de personagens.
Karine Teles: Eu sou CDF. Desde a época da escola, estudar é uma coisa que me interessa. Eu sempre quero estudar, mas no projeto dos outros, você também está condicionado à forma de trabalhar daquela pessoa. Nesse sentido, eu sou uma atriz que gosta de experimentar o que está sendo proposto. Então, depende do que vem. Mas eu sempre peço referências; e se não me oferecem, vou até o diretor perguntar se não tem alguma referência para mim. Acho importante, para mim é uma coisa que faz sentido na construção. Através de referências, dá para entender o que a direção espera, qual é o cheiro que a coisa vai ter.
No caso de Bacurau, eu conhecia muito bem o cinema do Kleber, já tinha visto tudo que ele tinha feito. Então acho que eu entendi mais ou menos, e já sabia que esperar. Quando li o roteiro, a minha maior preparação para o Bacurau foi aprender a dirigir moto. Tenho pânico total de moto. Eu não sei dirigir nem carro, e morro de medo de moto, mas falei: “Para esse filme, vou superar esse medo”. Aí eu fiz a aula, aprendi. Tive dublê para as cenas de estrada, mas aprendi a pilotar a moto.
Eu odeio me assistir quando o filme está pronto. Eu não sento e assisto ao filme como espectadora, mas fico vendo: “Hum, ali eu fiz uma careta. Olha ela toda torta”.
Como funciona para você durante a filmagem? Prefere o frescor da primeira tomada, ou fazer várias tentativas até afinar? Gosta de correr para se ver no video assist?
Karine Teles: Video assist não, de jeito nenhum. Inclusive, já tive que conversar seriamente com gente com quem eu trabalhei, porque tem diretor que gosta de mostrar, apontar a partir da imagem na tela, e para mim é muito difícil. Sendo muito honesta com você: o que eu estou fazendo durante a filmagem não é para mim. A parte que me interessa é estar ali, fazendo. O resultado do que está sendo filmado cabe ao pensamento de quem dirige.
Se eu for me assistir no video assist, vou olhar se eu estou com a barriga encolhida, se estou fazendo careta demais, se o meu cabelo está direito. Vou prestar atenção em coisas que não interessam para o trabalho, que não vão me ajudar — provavelmente vão até atrapalhar. Então, prefiro não assistir. Eu odeio me assistir quando o filme está pronto também, porque fico vendo as mesmas coisas. Eu não sento e assisto ao filme como espectadora, mas fico vendo: “Hum, ali eu fiz uma careta. Olha ela toda torta”. Fico olhando as coisas que não têm nada a ver.
Eu geralmente vou bem no primeiro take. Mas também curto repetir, não tenho o menor problema em repetir. Eu lembro que o Riscado teve um teve uma cena que o Gustavo [Pizzi, diretor] brincou: “Essa cena aqui vai acontecer no primeiro take, ou no 15º”. Fizemos 15 takes. E a montagem usou o primeiro! Quando repete muito, chega uma hora que a gente não tem mais para onde ir. Porque existe a coisa da presença, de você estar ali, disponível e aberto, trocando com a pessoa. Quando você vai repetindo muitas vezes, é difícil manter — mas a gente vai. Sou uma atriz que fiz teatro a vida inteira, então tenho essa experiência.

Qual a sua relação com seus primeiros filmes? Costuma ter um olhar mais crítico a estes trabalhos de antigamente?
Karine Teles: Bom, quando eu comecei no cinema, eu já era uma atriz que tinha feito muita coisa em teatro. Inclusive, esse ano, eu faço 33 anos de carreira. Além disso, as primeiras coisas que fiz no cinema, especialmente o Riscado, eram projetos bastante pessoais. Eu estava na concepção, como roteirista, falando de uma angústia bem pessoal. Então eu estava muito inteira ali. Eu fico mais crítica em relação às minhas primeiras tentativas de televisão. Quando eu assisto, eu falo: “Ai, que vergonha, tadinha, ela não sabia nada ainda”.
Mas sinto que já cheguei no cinema um pouco mais madura, mais corajosa, entendendo um pouco o que me interessava. Eu também dei a sorte trabalhar com gente muito legal, que conduzia os atores muito bem, né? Foram filmagens, personagens e roteiristas muito interessantes. Eu sinto que amadureço, mas não numa linha ascendente perfeita. Tem trabalhos em que eu vou melhor, e outros em que eu não me saio tão bem assim, porque tudo é ma conjunção de fatores.
Não tem como comparar o ritmo de uma novela com o ritmo de um longa-metragem, ou de um curta. Sem comparação.
Enxerga de maneira muito diferente o trabalho de atuação em filmes independentes como Cyclone, uma minissérie da Amazon e uma novela da Globo?
Karine Teles: Não, porque a essência é a mesma. Só o ritmo de trabalho é diferente: não tem como comparar o ritmo de uma novela com o ritmo de um longa-metragem, ou de um curta. Sem comparação. Na televisão, você ainda trabalha em escala 6×1, 12 horas por dia. É uma loucura. Mas de uns anos para cá, a televisão começou a ter preparação de elenco: alguns encontros, algumas conversas com os preparadores, para tentar chegar num lugar mais interessante. Mesmo assim, ainda é uma coisa curta. No meu caso, eu aproveito tudo o que eu posso.
Mas a abordagem, para mim, é sempre a mesma. É me preparar o máximo que eu puder, para estar disponível ali para o que vier na hora. Na televisão, você prepara uma coisa em casa, mas chega lá, mudou tudo: o cenário é outro, a direção vai te pedir uma coisa completamente diferente. Então você tem que estar disponível para o jogo. Isso é o que mais me interessa na televisão: é quase uma grande improvisação. Você tem que saber o texto, e estar preparado para o que vier. Às vezes, você faz um pedaço da cena hoje — a parte externa, por exemplo —, e o pedaço da casa vai ser duas semanas depois. É uma loucura, mas me interessa como desafio de desapego, de estar presente sem me apegar a nenhuma ideia preconcebida.

Você interpreta muitos anti-exemplos. Não necessariamente vilãs, mas personagens que encarnam a mensagem contrária àquela do filme. Penso em Bacurau, em Salve Rosa, até em O Lobo Atrás da Porta. Como lida com estas figuras?
Karine Teles: No caso de O Lobo Atrás da Porta, eu tenho uma peninha dela. A personagem é toda errada, tadinha. Toda. Mas eu tento encarar qualquer personagem de dentro, não de fora. Quem tem que ter opinião a respeito do personagem é quem está assistindo, né? Eu tento trazer para perto de mim, da melhor maneira possível.
Acho que nenhum ser humano é uma coisa só. Todos temos nossas sombras, nossos fantasmas, nossas raivas, nossas violências. É um jeito de encontrar em mim o que tenho para colaborar com a construção daquela personagem, mas sempre tentando estar dentro. Porque se eu for por fora, eu já vou ter uma opinião sobre aquela personagem e vou tirar essa decisão de quem está assistindo.
Por exemplo, em Salve Rosa, quem tem que decidir que aquela mulher é uma escrota é quem está assistindo. Ela mesma acha que está certa. Ela acredita que precisa explorar a filha para ganhar dinheiro e viver nesse mundo maluco. Fico tentando encontrar as coerências na cabeça da personagem, para não performar a maldade, entendeu? É um tipo de lugar que não me interessa.
A pessoa que mente quer que a outra acredite nela, e vai mentir da melhor maneira possível. Então eu sempre encaro essas personagens assim. É claro que algumas coisas são muito difíceis, como bater na filha. É uma coisa que eu nunca fiz na realidade: eu dou bronca, grito, perco a paciência, mas nunca bati no meu filho. Mas em Salve Rosa, a minha personagem vai a extremos, ela chega a torturar a garota. Então eu preciso trabalhar pedacinho por pedacinho, sem pensar no todo. Não posso ficar botando tudo na minha cabeça porque, senão, eu não dou conta. É difícil me colocar nesses lugares horrorosos. Já neguei papéis porque achei que não daria conta de ir para lugares tão feios.
Eu sinto falta de uma crítica mais especializada, que a gente tinha mais antigamente. Hoje virou um negócio de Letterboxd, de Instagram, de Twitter.
Gostaria de saber um pouco da sua relação com a crítica. Costuma ler o que escrevem sobre seus trabalhos, ou prefere se preservar?
Karine Teles: Olha, eu sinto falta de uma crítica mais especializada, que a gente tinha antigamente. Hoje em dia a coisa está muito pulverizada. Virou um negócio de Letterboxd, de Instagram, de Twitter. Hoje mesmo, na hora do almoço, a gente estava vendo o Letterboxd, porque meu filho tem conta, e ele adora. Lemos os comentários de Romance. A gente caiu na gargalhada, porque como pode a pessoa ir lá e escrever qualquer coisa que ela quer? Uma crítica era um emoji de bolsa, e a gente falou: “Mas o que isso quer dizer?”.
A crítica que reflete sobre o que vê na tela, que fala das diferenças, fala do cinema e das interpretações, isso me interessa, sim, e tenho vontade de ler. Agora, essa crítica de engajamento, de rede social, de lacração, não. Eu tento fugir dela inclusive, porque a gente é frágil, né? Não quero ver ninguém me chamando de feia. Eu lembro de Pantanal, que foi minha primeira experiência com isso. Tinham umas pessoas falando: “Nossa, que mulher velha, feia, chata”. É uma opinião boba, irresponsável, que não diz nada sobre o meu trabalho. Mas ninguém quer ler que é feio, chato, bobo. Ninguém. Então eu tento fugir disso. Mas quando são textos pessoas que refletem, ou quando alguém vem conversar comigo para fazer uma pergunta, e não concorda com alguma coisa, aí isso me interessa. O debate e o diálogo me interessam. Essa maldade, não.



